CAPÍTULO 34 NEVILLE

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Os dias estavam passando rápido. Já fazia duas semanas que Neville treinava com Keena. Ela ainda não havia compreendido o que estava acontecendo com sua magia, mas Neville não estava frustrado. Estava confiante. Se sua mentora não desistiu, ele também não desistiria. Ele havia aperfeiçoado ainda mais seu estilo de luta, mas a magia... ainda era um problema.
— Isso é estranho. Você tem uma enorme quantidade de magia... mas por que não consegue controlá-la? — exclamou Keena.
— Talvez não seja possível para humanos controlarem — Neville sorriu, fazendo piada.
— Isso pode ser verdade — Keena ficou séria. — Você treina magia desde quando?
Neville ficou pensativo. Tentou lembrar de algum momento da infância em que não estivesse, de alguma forma, envolvido com magia. Mas não encontrou nada.
— Desde sempre, eu acho. Como meus pais são grandes dominadores de magia, ela sempre esteve presente em mim. E... sempre fui um fracasso com ela.
A mulher cruzou os braços, pensativa.
— Já cuidei de muitos casos parecidos com o seu antes... mas o seu é diferente. Eu só preciso descobrir por quê.
— Grande parte dos casos que atendo são de pessoas com algum tipo de trauma. E geralmente, isso impacta diretamente no desempenho com magia. Esse seria o seu caso?
Neville pensou. Era inegável que, de certa forma, essa situação toda o machucava. Mas não a ponto de considerá-la um trauma... não daquele tipo. Pelo menos, era o que ele acreditava. Então não respondeu.
— Certo, vamos trabalhar nisso então. Nos próximos dias, quero que faça uma análise sobre tudo que passou. Vai ter uma semana pra isso. Não teremos treino até lá.
— Espera, uma semana? É muita coisa! O torneio está chegando, senhorita Keena. Não posso ficar sem treinar por tanto tempo. Temos apenas duas semanas!
— E é justamente por isso que você deve fazer isso o quanto antes.
— Não será necessário. Não tenho traumas a serem resolvidos. Bom... não dessa magnitude. Tenho certeza de que não é isso que bloqueia minha magia.
Ela o olhou por alguns segundos, com atenção. Ele parecia sincero.
— Não parece estar mentindo.
— Não estou!
Ela soltou um suspiro.
— De qualquer forma, ainda acho que precisa desse tempo. Algo está acontecendo com você, Neville. E, sinceramente, acho que é algo bom. Você passa tanto tempo tentando ser perfeito... que não enxerga que já é bom o suficiente para superar qualquer medo. Inclusive esse que trava sua magia. Me diga, garoto... quantas vezes, ao longo dos anos, você parou cinco minutos para se conhecer?
Neville, de cabeça baixa, respondeu com o silêncio.
— Exatamente. Você não é como seus pais, garoto. E jamais será. Pare de tentar ser eles — disse Keena, suspirando, cansada. — Como eu disse antes, tem uma semana pra isso. Se não conseguir descobrir nada até lá, voltaremos com o treinamento normal.
A mulher saiu, deixando Neville sozinho. Ele ficou ali, pensando nas palavras da mentora.
"Talvez ela esteja certa", foi o que passou por sua cabeça. Mas, no fundo, ele sabia: ela estava certa. Admitir isso era mais difícil do que parecia.
Ficou parado, encarando o nada por pelo menos dez minutos. E, pela primeira vez em muito tempo, começou a reparar em detalhes do castelo que nunca havia notado.
Percebeu o tamanho do campo. Era grande demais, e ao mesmo tempo, simplista, diferente dos castelos do rei. E claro... não era exatamente um castelo real. Foi feito por um rei, mas não para ele — era para os Escolhidos do Caldeirão. Por isso a decoração era tão minimalista. Ainda assim, não deixava de ser um palácio. E na opinião de Neville, era o mais bonito de todos. Talvez pelas memórias que guardava daquele lugar.
O castelo dos Escolhidos não era usado apenas por eles. Também servia como sede de reuniões reais, pois ficava numa área remota e bem escondida, protegida por guardas altamente treinados e por magia antiga que impedia a entrada de invasores. Era perfeito para encontros sigilosos.
Como os pais de Neville eram grandes guerreiros e amigos íntimos do rei e da rainha, sempre participavam dessas reuniões. A família sempre foi influente no reino, e isso só aumentou com os feitos de seus pais.
Neville sempre implorava para ir ao castelo. A resposta era sempre não. Mas ele e Aspen tinham uma estratégia: pediam na frente do rei, com todo o drama que conseguiam fingir.
O rei, sorrindo, dizia:
— Deixem as crianças irem. É bom para que se desenvolvam.
Diante disso, os pais não tinham escolha. Mas havia regras: sob nenhuma circunstância, podiam se aproximar das reuniões.
Eles levavam isso a sério. Aquele lugar era divertido demais para correr o risco de perder o privilégio.
Cada um gostava de uma parte diferente do castelo. Neville era fascinado pela biblioteca — vasta, silenciosa, com livros raros sobre tudo, especialmente sobre magia.
Ele se perdia ali por horas.
Aspen preferia as armas preciosas, os artefatos históricos, as histórias dos antigos Escolhidos.
Mesmo quando um não queria estar onde o outro estava, permaneciam juntos.
Porque, no fim, só importava isso: estarem juntos. Ver o outro feliz.
Neville se levantou do chão. Respirou fundo e seguiu para o prédio principal. Caminhava com passos firmes pelos corredores, tão imerso em si mesmo que quase não ouviu quando Ash o chamou.
— Agora não — disse, desviando o olhar e continuando.
Logo, estava diante da porta que conhecia tão bem. Madeira escura, imponente, cheia de lembranças. Ao abrir, o cheiro de livros antigos o acolheu como um velho amigo. O lugar estava exatamente como lembrava.
Estantes gigantescas, colunas que pareciam obras de arte, feixes de luz atravessando as janelas e iluminando o chão com traços dourados.
Neville ficou parado por um tempo. O silêncio o abraçava. E então, tudo voltou.
Viu a si mesmo, criança, sentado no peitoril da janela, mergulhado num livro. Viu Aspen correndo entre as colunas, gritando seu nome, pedindo pra brincar. Viu os dois cochichando, rindo, fazendo promessas que pareciam eternas.
Mas tudo isso agora era apenas um borrão.
A garganta apertou. Os olhos marejaram.
Queria seu amigo de volta.
Ali, sozinho naquela biblioteca, ele chorou. Chorou como uma criança.
Já não conseguia carregar tudo aquilo. Passava os dias tentando descobrir o que havia de errado com ele.
Por que sua magia não funcionava?
Por que ele não podia ser normal?
Por que tinha sido escolhido?

A vida toda foi zombado, diminuído, comparado aos pais e aos familiares.
Só queria paz.
Só queria aquela única pessoa que o entendia de volta.
Aquela que o abraçava depois de noites cercadas por nobres arrogantes, que o humilhavam sempre que podiam.
Aquela que, ao perceber, largava o título de príncipe e agia como um plebeu só para defendê-lo.
Mesmo que isso significasse ficar meses de castigo.
Porque os dois sabiam que, se fosse preciso, morreriam um pelo outro.

A angústia no peito de Neville era grande. E, enquanto chorava, entendeu: os últimos meses haviam sido duros demais. Mas precisava aguentar.
Porque ele foi escolhido.
E no fundo, sabia... o Caldeirão nunca erra.

Enxugou as lágrimas e levantou a cabeça.
Não era hora de chorar.












Chamas e sombras ainda vive 🔥
Elpída🍃

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