CAPÍTULO 35

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Aspen

Estava frio, muito frio. Tudo o que Aspen via era uma neblina densa. Era horrível, silencioso e escuro. O dia estava prestes a amanhecer e Aspen sentia medo. Depois do tempo que ficou no navio, percebeu que o mar era assustador e que atravessá-lo sozinho não era tão empolgante assim. Ele não podia fazer muito a respeito, apenas continuar remando e afastando levemente a neblina com magia. Quando saiu, Aryn o orientou a não usar muita magia, apenas o necessário para a travessia - não deveria chamar muita atenção. Então só restava remar e seguir em frente, torcendo para não trombar com nenhuma criatura marinha. Foi obrigado a seguir silenciosamente sobre aquele mar sinistro, preso com o barulho do remo sobre a água e seus pensamentos que o atordoavam. Sentia-se culpado, ignorante, fútil.

Percebeu que nunca deu atenção suficiente para seu reino, nunca levou seu título a sério. Não queria ser um rei, mas não poderia mais fugir disso. Queria ser livre, viver do jeito que quisesse, mas nasceu com o peso da coroa - o peso de ter que liderar um reino inteiro, um reino que não era bem do jeito que pensava. Seu reino abandonou os humanos, deixando-os na miséria. Aspen nunca percebeu isso. Ele conviveu constantemente com humanos, e uma das pessoas que mais amava era um humano. Mas não era o mesmo para o reino inteiro: havia uma divisão de classes e raças bem grande, onde os humanos sofriam, seu povo sofria. Precisava mudar isso imediatamente.

Aspen sentia seus dedos congelarem. O reino de Athos era conhecido por um frio intenso. A cada remada, se perguntava como aquele povo se mantinha vivo. Também se questionava como foi aceitar ir para aquele reino. Desde criança ouviu histórias sobre Athos: amaldiçoado há muitos anos com esse frio intenso, governado por um rei tirano e ganancioso, que a cada dia exigia tributos ainda maiores de seu povo, enquanto a fome os assolava. Sem falar nos rituais de sacrifício que eram praticados. Aspen sentia calafrios só de pensar que estava indo em direção àquele reino.

A essa altura, já não era algo que poderia ser evitado, mas ele tinha um plano: disfarçar-se o máximo que conseguisse, utilizar a capa o tempo todo e falar somente o necessário. Era o que estava ao seu alcance.

Aspen seguia remando, começava a sentir o cansaço da noite anterior. Deveria ter ido dormir mais cedo, mas não se arrependia do que tinha feito. Era sua despedida de pirata; não sabia quando poderia festejar desse jeito novamente.

Em meio às remadas e aos pensamentos sobre a noite anterior, Aspen ouviu:

- Príncipe Aspen...

A voz veio como um sussurro em seu ouvido. Um frio percorreu sua espinha. Ele olhou para os lados à procura de alguém, ou algo, mas não encontrou ninguém. Continuou a remar. Talvez estivesse ouvindo coisas.

- Príncipe Aspen...

A voz sussurrou outra vez: doce, calma... sinistra. Ele olhou ao redor novamente, sem sucesso.

- Quem está aí?! - perguntou para o nada.

Sem respostas, continuou a remar. Queria sair daquele barco o mais rápido possível.

- Aspen, não finja que eu não estou aqui. - A voz doce dava risadinhas sarcásticas.

As mãos de Aspen começaram a suar. O garoto procurava de onde vinha a voz, novamente sem sucesso. Até que ouviu um barulho vindo de trás do barco. Relutante, olhou para ver o que era: viu o que parecia ser o corpo de uma serpente - enorme, mais do que ele poderia aguentar. Aspen pensou no que poderia ser. A criatura falou com ele, talvez fosse uma sereia. Ele aguentaria uma sereia; já lidou com elas antes, no navio pirata... bom, não exatamente ele, e sim a capitã. Parecia grande para uma sereia... talvez ela tivesse pegado presas demais? Pensou.

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⏰ Última atualização: Mar 01 ⏰

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