** Anna **
Minha cabeça está girando, já não aguento mais chorar . Preciso me livrar da dor . Preciso acabar com tudo isso que sinto em mim . Estou com minha bolsa nas mãos , o que me facilita em não precisar mais voltar na casa da Julie pra buscar nada . Não aviso a eles que não vou dormir lá nem esperá-la sair do hospital. Desligo meu celular. Não quero que ninguém venha atrás de mim . Apenas faço o que sempre fiz quando estava triste . Segui pela parte abandonada da cidade . Estamos no interior de Goiás , em uma cidade chamada Anicuns , e na parte mais a antiga da cidade tem uma avenida que antes era a principal , mas agora não passa de uma avenida abandonada cheia de casas velhas . Esse é meu refúgio . E nem mesmo minha melhor amiga sabe disso .
Sempre andei por ali pensando que sou como aquelas casas . Sozinha , em ruínas ,abandonada , sem ninguém que se dispusesse a me reerguer e me fazer viver novamente . Sempre que estou triste venho pra cá , sento na varanda da minha casa favorita : Uma bem alta , com árvores antigas e fortes na entrada , toda feita de pedrinhas brancas , já amareladas pelo tempo , e bem vandalizada .Mas mesmo assim permanecia linda , dava pra ver que sua estrutura era arrasadora e que ficaria divina se fosse reformada . Mas uma casa daquelas num lugar como aquele , não valeria nada . Não compensaria o valor investido nela pra reforma . Assim como eu . Sou uma pessoa boa , posso ser alegre , posso ser apaixonada , não sou esse poço de chatice e melancolia o tempo todo . Mas com tanta coisa pra sofrer , chorar e tentar esquecer , fica difícil sorrir.
Sempre que venho aqui penso que um dia vão vir aqui e fazer desse lugar uma morada linda pra alguém que tenha esperança no mundo , alguém que sinta que esse local vale a pena e que lute por isso . E então misteriosamente consigo ver esperança em mim . Porque mesmo abandonada as arvores da "minha casa" não morreram , e a casa ainda está de pé , e então sinto que poderei permanecer de pé . Mas não dessa vez .
Já estou aqui a uma hora e a dor não passa , a cena se repete em minha mente , eles está bem na minha frente , estão agora invadindo minha casa e a reconstruindo pra ser a morada deles . Abro os olhos , adormeci naquela varanda , está escuro , mas sempre ando com velas e lanternas . Porque sempre apareço ali de noite . Geralmente sempre tem um grupo de garotos ou garotas andando por ali , contando histórias de que o lugar é abandonado e mal assombrado e que espíritos malignos habitam ali . Tudo contos idiotas , sempre algum esperto tentando pregar a peça em algum "cagão" que se faz de corajoso .
Saio da varanda e decido adentrar a casa. Vou para o banheiro , é meu lugar favorito , pois mesmo abandonada , tem água e eu posso , se quiser tomar um banho e beber água caso tenha cede . Sei que parece nojento , mas a água é limpinha , a caixa d'água é bem fechadinha, já verifiquei , e não tem nada morto lá ou cheio de musgo que possa me matar . Dentro da minha bolsa sempre tenho plásticos , porque passo mais tempo na casa da Julie do que na minha , e os uso para colocar a roupa suja , ou o sapato quando troco . Dessa vez ele me serviria de tapete dentro do banheiro . Acendo minha vela e fico lá dentro chorando até não aguentar mais .
Minha cabeça já está explodindo , nada alivia minha dor . Então reviro minha bolsa em busca de algo para ocupar minha mente . Ligo meu celular . Já passam das duas da manhã . Nem sobre tortura volto pra casa agora . Cidade pequena, mas tem muita gente maldosa . Ótimo , perdi a noção do tempo , nunca fiquei tanto tempo aqui , já se passaram seis horas . Em geral com uma ou duas horas vou embora . Agora já se passaram seis e a dor ainda está ferindo meu peito . Perdi a Julie de vez . é o fim de uma amizade de dez anos . Pensando nisso vasculho minha bolsa e tomo a decisão que vai marcar , literalmente essa nova fase da minha vida , pego minha mais nova melhor amiga . "Minha" lâmina . Sim a peguei do banheiro da Julie , mas agora ela é minha .
Faço meu primeiro corte. Arde muito , mas quando o sangue quente sai da ferida , me sinto mais leve , a dor agora foi transferida para o meu corte , e agora já nem dói tanto. Isso foi bom . Me senti livre , senti que isso expressa toda a ruína do meu ser , e que agora tenho algo para extravasar minha dor . Fiz um corte fino , de leve , no meu pulso esquerdo . Olho pra ele , tão só e abandonado . Traço mais quatro cortes para fazer companhia a ele . O ultimo corte parece que foi demais, sinto o sangue jorrando de forma descontrolada e não sei o que fazer , ainda não quero morrer. Relutante pego o celular e chamo uma ambulância . Guardo meus pertences na bolsa , e minha lâmina a escondo no meu bolso secreto , carinhosamente chamado de " furo escondido dentro de um bolso que é dentro de outro bolso que mal dá pra ver e só eu sei que existe " e então adormeço.
Não me lembro de mais nada depois disso , só sei que estou sentindo alguém chorar em cima de mim , e porra , onde eu estava não tinha ninguém , mas o que é isso ? Escuto um bipe irritante e caio novamente em um sono profundo .
Minutos mais tarde sinto algo molhado em min ha roupa , e alguém está fazendo peso em cima de mim . Me mexo desconfortável e novamente sinto alguém chorar em mim , e então apago de novo.
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UM AMOR PROIBIDO
ChickLitUm mergulho na vida de Julie , uma garota feliz e extrovertida que está prestes a ver seu mundo mudar radicalmente . Um passado conturbado e cheio de surpresas e armadilhas do destino , com mortes , amigos correndo perigo e no meio de tudo isso o r...
