Corin
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O silêncio depois da briga era quase confortável. Eu sempre disse que silêncio é coisa de gente que venceu o argumento. E eu venci. Como sempre.
A Larissa tava jogada na cama, secando o sangue da boca com a manga da própria blusa. Eu olhei pra ela sem sentir absolutamente nada além de tédio.
Quarta gravidez. Quarta.
Eu avisei.
Eu falei pra ela se cuidar. Eu falei pra ela não ficar dando mole. Mas ela nunca me escuta. E quando a vida cobra a conta, quem paga sou eu.
Não existe nada “errado” no que eu fiz. Eu fiz o que precisava ser feito pra ela aprender. Se ela chora, grita, reclama… problema dela. Eu fiz a minha parte.
O que me irrita mesmo é outra coisa.
Esse bairro inteiro comenta tudo. O povo dessa rua adora meter o nariz onde não é chamado. E se o pessoal da Coringa, aquela doida, ex da Larissa, cheia de amiguinho armado, souber que a Larissa tá comigo e grávida de novo, vai vir arrancar a minha cabeça por ter pego a namoradinha dela pra mim.
Por isso é que eu decidi sair. Não por culpa, não por moral, não por remorso.
Eu estou saindo porque eu não vou dar brecha pra ninguém tentar encostar um dedo em mim.
Eu me preservo. Ponto.
Comecei a enfiar as coisas na mochila, sem critério nenhum. Roupa minha, da Larissa, das crianças. O importante não era o que eu levava, era ir embora antes que alguém resolvesse atrapalhar minha vida.
A Larissa, mole e desgrenhada, tentou falar:
— Corin… pra onde você vai me levar?
Eu ignorei. Ela fala demais. Sempre falou. Talvez por isso eu gostasse dela no começo; depois só ficou irritante.
As crianças dormiam no colchão velho da sala, e eu só passei por cima de um brinquedo enquanto pegava a chave do portão. Eu não sinto nada vendo eles ali. Eles são consequência, não prioridade.
O que importava era sair daqui o mais rápido possível. Ir pra longe. Zona rural, periferiazona esquecida, ou quem sabe até outro estado. Algum buraco onde ninguém sabe meu nome.
Porque eu sei que a Coringa é rancorosa.
E eu odeio ter que lidar com gente que não sabe perder.
Foi nesse momento que ouvi:
TOC. TOC. TOC.
As batidas não foram fortes. Não foram desesperadas. Foram… precisas.
Eu gelei?
Não.
Eu parei.
Porque tudo que eu não gosto é de surpresa no meu território.
Peguei a faca da gaveta. Não por medo — por protocolo. Se for alguém da Coringa vindo bancar a valentona, eu corto, e acabou.
— Quem é? — perguntei, sem elevar o tom.
Nenhuma resposta.
Eu já ia destrancar e resolver logo quando a voz veio:
— Abre. Eu sei que você tá aí.
O som dela fez minha espinha endurecer.
Eu reconheceria aquela voz em meio a um incêndio.
— Marcela? — falei baixo.
Aquela mulher…
Ela não era problema.
Ela era ameaça.
E havia uma diferença.
Abri a porta devagar, já pronta pra olhar de cima, como sempre faço.
E lá estava ela.
A mesma expressão fria. O mesmo olhar que nunca me pedia explicação — e talvez por isso me irritasse tanto. A Marcela sempre foi o tipo de pessoa que sabe mais do que fala.
Mas naquela noite ela parecia… urgente.
— Demorou — ela disse, passando direto por mim como se a casa fosse dela. — Precisamos sair daqui.
Eu bufei.
— Engraçado. Isso já estava nos meus planos. — Cruzei os braços. — Mas não lembro de ter te chamado.
Ela me encarou por um segundo longo.
A Marcela nunca teve medo de mim, e isso sempre me deixou irritada.
— Não vim por você — ela disse, olhando rapidamente para a Larissa. — Vim porque tem gente vindo pra cá. Gente que não é da Coringa, nem da Penha. Gente que você não controla.
Eu senti o peito apertar.
Mas não era por elas.
Era por mim.
— Quem tá vindo? — perguntei, seca.
A Marcela analisou a janela como se esperasse ver sombras surgindo a qualquer momento.
— A Romário, atual chefe do CV recebeu informação de que você encostou a mão na Larissa. E você sabe muito bem quem a Larissa namorava antes de sair lá da Penha. — Ela olhou direto nos meus olhos. — Não é oficial, mas… alguém quer te apagar.
Meu maxilar travou.
Não era medo.
Era raiva.
De terem mexido onde não deviam.
Eu sou a Corin.
Ninguém toca em mim.
Ninguém decide meu destino.
— E você veio me salvar? — ironizei.
— Eu vim impedir que você morra antes da hora — ela respondeu. — Não me agradeça, eu não faço isso por você.
O peito subiu e desceu num impulso de fúria.
Eu não gosto de ser diminuída.
Eu não gosto de ser contrariada.
E eu nunca gostei de depender de ninguém, principalmente da Marcela.
Mas eu não era burra.
Se metade do que ela disse for verdade, eu precisava sair imediatamente.
Olhei para a Larissa, ainda tremendo ao meu lado
Olhei para meus filhos, dormindo como se nada no mundo pudesse tocá-los.
E pela primeira vez naquela noite, a sensação veio clara, afiada, forte:
Eu precisava viver.
Por mim.
— Então vamos — eu falei. — Agora.
A Marcela apenas acenou com a cabeça.
E enquanto eu fechava a porta de casa, com a Larissa na minha cola e as crianças dormindo, uma única verdade martelou na minha cabeça:
Eu não estava fugindo.
Eu estava me preservando.
E quem entrasse no meu caminho… ia cair.
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Continua
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Romance na Penha 2 - pt 2
RomanceNessa nova história, Ísis, filha de Aysha e Melissa, vive os conflitos amorosos de uma adolescente, com muita confusão e é claro, muito crime envolvido, afinal, aprendeu com sua mãe Melissa, a ser a melhor traficante possível
