vinte e quatro

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Larissa




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A tarde cai devagar, pintando o céu com tons de laranja apagado. Eu termino de lavar a última louça e olho pela janela: as crianças brincam no quintal, silenciosamente, sempre olhando para a porta, como se Corin pudesse aparecer a qualquer momento.

A barriga dói de leve de novo.

É o quarto dia que sinto isso. Uma pontada estranha, familiar…
E por mais que eu tente negar, eu sei. Meu corpo já passou por isso três vezes.

E quando vem uma onda de enjoo do nada, eu corro pro banheiro, abro a tampa da privada e vomito o pouco que consegui comer no almoço.

Depois encosto a testa no azulejo frio.
O coração dispara.

— Não… não… agora não… — sussurro, com medo da própria voz.

Mas eu preciso ter certeza.

Abro a gaveta antiga, cheia de coisas esquecidas, e encontro um teste de gravidez guardado há anos. Um que eu escondi depois da última vez, quando prometi a mim mesma que não deixaria Corin engravidar-me de novo.

Minhas mãos tremem enquanto abro o plástico.

Faço o teste. Deixo sobre a pia e fecho os olhos.

Três minutos.

Mas parecem três horas.

Quando finalmente crio coragem de olhar…

Dois traços.

Minha visão embaça.

Eu desabo no chão.

— Não… por favor, não…

A porta do banheiro se abre com força.

Corin.

Ela está no batente, jaqueta jogada no ombro, pulseira brilhando, cheiro forte de bebida e perfume gourmand.

— Que porra tá acontecendo aqui? — ela pergunta, olhando pra mim no chão.

Eu tento esconder o teste atrás da perna, mas ela percebe.

— O que é isso? — Ela dá um passo. — O que você tá escondendo, Larissa?

Minha boca abre, mas nenhuma palavra sai.

Corin puxa meu braço com violência, me arrasta pelo chão e pega o teste da minha mão. Ela olha… e o silêncio que segue me dá mais medo do que qualquer grito.

O rosto dela transforma.

— Você tá zoando com a minha cara.
Você. Tá. Zoando.

— Corin… por favor… eu só… eu nem sabia…

Ela avança abruptamente. Me levanto instintivamente, mas ela me empurra contra a parede com a mão no meu peito.

— Eu já tenho três filhos chorões nessa casa! — ela berra, tão perto que sinto o hálito quente e alcoólico. — E você tem a coragem de me aparecer com MAIS UMA MALA DE CRIANÇA PRA EU SUSTENTAR?!

— Eu não fiz de propósito…
— Cala a boca!

Ela me dá um tapa tão forte no rosto que meu ouvido apita. Sinto minha pele arder instantaneamente, e um gosto de sangue preenche minha boca.

— Eu disse pra você se cuidar! — ela grita, me empurrando outra vez. — Eu disse que não queria mais criança enchendo meu saco! Você fez isso só pra me irritar, né, Larissa? Fala! Fala!

Ela me segura pelo cabelo e me puxa até a sala. As crianças entram correndo, assustadas.

— Mãe! — Marina grita. — Para! Deixa ela!

Corin solta meu cabelo e vira pra menina com uma ameaça no olhar.

— Vai pro quarto AGORA!

Marina corre, chorando. Luan tenta ajudar, mas Corin o empurra pelos ombros.

— Eu NÃO estou brincando!

Lucas abraça minha perna, tremendo. Eu o pego no colo mesmo machucada, tentando acalmá-lo.

— Corin… por favor… — minha voz sai trêmula. — Não precisa ser assim.

Ela dá risada. Uma risada fria, triste, monstruosa.

— Não precisa? — Ela se aproxima e empurra meu ombro, fazendo Lucas quase cair. — Você acha que eu quero outra boca pra alimentar? Outro chororô? Outro problema?

— É um bebê… — digo, tentando proteger minha barriga com o braço. — Ele não tem culpa…

Corin me olha como se eu fosse sujeira.

— Eu devia arrancar esse bebê de você agora.

Meu corpo inteiro gela.

Ela dá um passo. Outro. A mão dela se fecha num punho.

E eu sei que, se ela me bater de novo, pode machucar o bebê.

Eu tento fugir, mas ela me pega pelo braço e me joga no sofá com força suficiente para rasgar a pele da minha cintura na madeira.

Uma dor aguda corta minha barriga.

— Corin… por favor… o bebê…

— CULPA SUA! — ela grita. — VOCÊ SEMPRE TRAZ PROBLEMA PRA MIM!

Ela ergue a mão para me bater de novo.

Mas antes que a mão dela me acerte…

O telefone da casa toca.

Um toque longo. Alto. Estridente.

Corin congela no ar.

Olha para o telefone.

Olha pra mim.

E baixa a mão lentamente.

— Quem… — ela começa a dizer.

O telefone toca de novo.

Ela respira fundo, pega o aparelho com irritação e atende.

— O que foi? — rosna.

Silêncio.

Corin franze a testa.

— Alô? Tô ouvindo.

Mais silêncio.

Ela aperta mais forte o telefone.

— Quem é esse?

Eu me levanto devagar, segurando a barriga. As crianças estão no corredor, chorando baixinho.

Corin, então, fica completamente imóvel.

A cor some do rosto dela.

Os olhos se arregalam.
A respiração falha.
É a primeira vez em anos que vejo Corin com medo.

— Isso é uma piada? — ela pergunta, com a voz baixa, quase um sussurro. — Como… como você conseguiu esse número?

Eu não consigo ouvir a resposta. Mas vejo o impacto.

Corin fica pálida, trêmula. O telefone escorrega da mão dela e cai no chão.

Ela dá um passo pra trás.

Depois outro.

Me encara com um ódio misturado a pavor.

E diz:

— Larissa… alguém sabe onde você está.

Antes que eu possa perguntar quem…

O telefone, ainda no chão, toca de novo.

E dessa vez não parece aviso.

Parece ameaça.

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Continua

Romance na Penha 2 - pt 2Histórias para pegar e não largar. Descubra agora