Larissa
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A tarde cai devagar, pintando o céu com tons de laranja apagado. Eu termino de lavar a última louça e olho pela janela: as crianças brincam no quintal, silenciosamente, sempre olhando para a porta, como se Corin pudesse aparecer a qualquer momento.
A barriga dói de leve de novo.
É o quarto dia que sinto isso. Uma pontada estranha, familiar…
E por mais que eu tente negar, eu sei. Meu corpo já passou por isso três vezes.
E quando vem uma onda de enjoo do nada, eu corro pro banheiro, abro a tampa da privada e vomito o pouco que consegui comer no almoço.
Depois encosto a testa no azulejo frio.
O coração dispara.
— Não… não… agora não… — sussurro, com medo da própria voz.
Mas eu preciso ter certeza.
Abro a gaveta antiga, cheia de coisas esquecidas, e encontro um teste de gravidez guardado há anos. Um que eu escondi depois da última vez, quando prometi a mim mesma que não deixaria Corin engravidar-me de novo.
Minhas mãos tremem enquanto abro o plástico.
Faço o teste. Deixo sobre a pia e fecho os olhos.
Três minutos.
Mas parecem três horas.
Quando finalmente crio coragem de olhar…
Dois traços.
Minha visão embaça.
Eu desabo no chão.
— Não… por favor, não…
A porta do banheiro se abre com força.
Corin.
Ela está no batente, jaqueta jogada no ombro, pulseira brilhando, cheiro forte de bebida e perfume gourmand.
— Que porra tá acontecendo aqui? — ela pergunta, olhando pra mim no chão.
Eu tento esconder o teste atrás da perna, mas ela percebe.
— O que é isso? — Ela dá um passo. — O que você tá escondendo, Larissa?
Minha boca abre, mas nenhuma palavra sai.
Corin puxa meu braço com violência, me arrasta pelo chão e pega o teste da minha mão. Ela olha… e o silêncio que segue me dá mais medo do que qualquer grito.
O rosto dela transforma.
— Você tá zoando com a minha cara.
Você. Tá. Zoando.
— Corin… por favor… eu só… eu nem sabia…
Ela avança abruptamente. Me levanto instintivamente, mas ela me empurra contra a parede com a mão no meu peito.
— Eu já tenho três filhos chorões nessa casa! — ela berra, tão perto que sinto o hálito quente e alcoólico. — E você tem a coragem de me aparecer com MAIS UMA MALA DE CRIANÇA PRA EU SUSTENTAR?!
— Eu não fiz de propósito…
— Cala a boca!
Ela me dá um tapa tão forte no rosto que meu ouvido apita. Sinto minha pele arder instantaneamente, e um gosto de sangue preenche minha boca.
— Eu disse pra você se cuidar! — ela grita, me empurrando outra vez. — Eu disse que não queria mais criança enchendo meu saco! Você fez isso só pra me irritar, né, Larissa? Fala! Fala!
Ela me segura pelo cabelo e me puxa até a sala. As crianças entram correndo, assustadas.
— Mãe! — Marina grita. — Para! Deixa ela!
Corin solta meu cabelo e vira pra menina com uma ameaça no olhar.
— Vai pro quarto AGORA!
Marina corre, chorando. Luan tenta ajudar, mas Corin o empurra pelos ombros.
— Eu NÃO estou brincando!
Lucas abraça minha perna, tremendo. Eu o pego no colo mesmo machucada, tentando acalmá-lo.
— Corin… por favor… — minha voz sai trêmula. — Não precisa ser assim.
Ela dá risada. Uma risada fria, triste, monstruosa.
— Não precisa? — Ela se aproxima e empurra meu ombro, fazendo Lucas quase cair. — Você acha que eu quero outra boca pra alimentar? Outro chororô? Outro problema?
— É um bebê… — digo, tentando proteger minha barriga com o braço. — Ele não tem culpa…
Corin me olha como se eu fosse sujeira.
— Eu devia arrancar esse bebê de você agora.
Meu corpo inteiro gela.
Ela dá um passo. Outro. A mão dela se fecha num punho.
E eu sei que, se ela me bater de novo, pode machucar o bebê.
Eu tento fugir, mas ela me pega pelo braço e me joga no sofá com força suficiente para rasgar a pele da minha cintura na madeira.
Uma dor aguda corta minha barriga.
— Corin… por favor… o bebê…
— CULPA SUA! — ela grita. — VOCÊ SEMPRE TRAZ PROBLEMA PRA MIM!
Ela ergue a mão para me bater de novo.
Mas antes que a mão dela me acerte…
O telefone da casa toca.
Um toque longo. Alto. Estridente.
Corin congela no ar.
Olha para o telefone.
Olha pra mim.
E baixa a mão lentamente.
— Quem… — ela começa a dizer.
O telefone toca de novo.
Ela respira fundo, pega o aparelho com irritação e atende.
— O que foi? — rosna.
Silêncio.
Corin franze a testa.
— Alô? Tô ouvindo.
Mais silêncio.
Ela aperta mais forte o telefone.
— Quem é esse?
Eu me levanto devagar, segurando a barriga. As crianças estão no corredor, chorando baixinho.
Corin, então, fica completamente imóvel.
A cor some do rosto dela.
Os olhos se arregalam.
A respiração falha.
É a primeira vez em anos que vejo Corin com medo.
— Isso é uma piada? — ela pergunta, com a voz baixa, quase um sussurro. — Como… como você conseguiu esse número?
Eu não consigo ouvir a resposta. Mas vejo o impacto.
Corin fica pálida, trêmula. O telefone escorrega da mão dela e cai no chão.
Ela dá um passo pra trás.
Depois outro.
Me encara com um ódio misturado a pavor.
E diz:
— Larissa… alguém sabe onde você está.
Antes que eu possa perguntar quem…
O telefone, ainda no chão, toca de novo.
E dessa vez não parece aviso.
Parece ameaça.
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Continua
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Romance na Penha 2 - pt 2
RomanceNessa nova história, Ísis, filha de Aysha e Melissa, vive os conflitos amorosos de uma adolescente, com muita confusão e é claro, muito crime envolvido, afinal, aprendeu com sua mãe Melissa, a ser a melhor traficante possível
