vinte e três

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Larissa

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— 10 ANOS DEPOIS

A claridade fraca do amanhecer atravessa a cortina fina e bate direto no meu rosto. O quarto ainda tem o mesmo cheiro de mofo velho que tinha no meu primeiro dia aqui — mas agora o cheiro se mistura com perfume barato, cigarro e o desespero constante que virou parte da minha rotina.

Me mexo devagar, sem fazer barulho. Qualquer movimento brusco pode acordar ela.

Corin dorme de costas pra mim, um braço jogado pra fora da cama, roncando baixinho. Como sempre, deixou uma garrafa pela metade no criado-mudo. O quarto inteiro tem garrafas espalhadas. Roupas jogadas. Bagunça. Sempre bagunça. Nada muda.

Olho para o relógio quebrado pendurado na parede — ele não funciona há cinco anos, mas a claridade me diz que já deve passar das seis. E antes que ela acorde, eu preciso levantar, preparar o café das crianças e tentar evitar mais um dia de gritos.

Desço da cama devagar, quase segurando a respiração. Pego a camisa velha jogada na cadeira, visto por cima do pijama e saio do quarto na ponta dos pés.

O corredor é silencioso, mas sei que não vai durar.

Quando chego na cozinha, encontro o mais velho sentado na mesa, chinelos tortos e olheiras profundas.

— Bom dia, Luan, — sussurro, tentando sorrir.

Ele me olha com aqueles olhos castanhos enormes que puxou de mim. O menino já tem dez anos, mas carrega um cansaço que nenhuma criança deveria conhecer.

— Acordei com ela gritando ontem de novo — ele diz baixinho.

Meu coração aperta.
— Eu sei, filho. Desculpa.

Ele balança a cabeça, como se tentasse dizer que não é culpa minha, mas já aprendeu que discutir sofrimentos apenas piora as coisas.

Enquanto frito alguns ovos, escuto passos pesados no corredor. Luan arregala os olhos e se encolhe na cadeira.

— Vai pra sala — digo baixinho.

Ele levanta sem fazer barulho e corre para o sofá.

A porta bate contra a parede quando Corin aparece, descabelada, olhos vermelhos, expressão de poucos amigos.

— Larissa, pelo amor de Deus… por que tem cheiro de fritura essa hora? — Ela aperta as têmporas. — Você sabe que eu odeio esse cheiro de manhã.

— Desculpa... eu… as crianças precisam comer antes da escola.

— Crianças? — ela ri de um jeito seco. — Aqueles três demônios deviam aprender a levantar e fazer a própria comida.

Ela caminha até a geladeira, abre, pega uma garrafa de água e dá um gole enorme.

— E você — ela aponta o dedo pra mim — vai arrumar esse chão. Tá imundo. Eu quase escorreguei por sua culpa ontem.

Ela anda como se fosse dona do mundo, como se não tivesse arrancado minha vida inteira dez anos atrás.

— Sim, eu vou limpar — eu respondo, virando de volta pro fogão.

Mas antes que eu diga mais alguma coisa, um chorinho ecoa do final do corredor.

A pequena Marina, nossa filha do meio, aparece esfregando os olhos. Cabelos embaraçados, pijama com estampa de coelhinho. Ela tem oito anos, mas ainda fala baixinho, com medo de tudo.

— Mãe… — ela olha pra mim, ignorando Corin. — Eu… sonhei de novo…

Corin revira os olhos.

— Meu Deus, essa menina não cresce nunca? Toda noite com sonho, toda manhã com choradeira. Que inferno.

Eu corro até Marina antes que Corin se aproxime.
— Ei, meu amor, tá tudo bem — digo, ajoelhando para ficar na altura dela. — Foi só um sonho.

Ela abraça meu pescoço com força.
— Você tava longe… e a senhora tava… brigando…

Corin cruza os braços.
— Eu? Imagina. Tua mãe inventa essas coisas pra vocês ficarem contra mim. Criança dramática da porra.

Seguro Marina mais forte.

— Vai pra mesa, filha. Já faço seu prato.

Corin se aproxima, puxa Marina pelo braço com força.

— Você devagar demais. Anda! Vai logo comer antes que eu perca a paciência.

Marina solta um gritinho de dor. Eu sinto o sangue ferver.

— Corin, larga ela, tá machucando!

Ela me encara com aquele olhar perigoso que eu aprendi a temer.

— Larissa… você quer MESMO começar isso agora?

Engulo seco e fecho a boca. Eu sei como termina quando eu respondo.

Ela solta Marina com um empurrão leve, que pra mim já é demais.

— Viu? Não doeu — ela declara, como se fosse razão absoluta.

Marina corre para a mesa.

O terceiro filho, Lucas, de cinco anos, aparece logo depois, com o cabelo arrepiado e chupando o dedo. Ele ainda não fala direito, resultado dos anos crescendo num ambiente assim.

Corin olha pra ele e revira os olhos de novo.

— Esse aí então, meu Deus. Parece que vive num transe. Nunca vi um moleque tão lento.

Ele se esconde atrás da minha perna.

— Lucas, meu amor… quer sentar? — pergunto.

Ele só balança a cabeça.

Corin passa por nós e bate de leve na cabeça dele com a mão aberta.

— Para de frescura, moleque.

Eu agarro o braço dela antes que ela possa bater outra vez.

— Corin, chega. — Minha voz sai firme sem eu querer.

O silêncio pesa.

Ela vira devagar pra mim, olhos perigosos, queimando.

— Quer repetir? — ela pergunta, com um sorrisinho torto.

Eu solto o braço dela, respirando fundo.

— As crianças… por favor. Pelo menos quando estão comendo…

Ela se aproxima tanto que sinto o cheiro forte de álcool, mesmo de manhã.

— Você só está viva porque eu deixo. Não esquece disso, Larissa.

Ela diz isso como quem comenta o clima. Depois vira as costas e pega a bolsa.

— Vou resolver umas coisas. Quando eu voltar, quero essa casa limpa, as crianças arrumadas e seu rosto menos insolente. — Ela aponta pra mim. — E se eu descobrir que você levou eles praquele jardim de novo, você vai pagar caro.

Ela sai, batendo a porta.

Assim que o carro dela desaparece pela janela da cozinha, as crianças respiram fundo, como se o ar voltasse aos pulmões delas.

Eu me viro pra eles, dando o sorriso mais doce que consigo.

— Tá tudo bem… agora tá tudo bem, meus amores.

Luan me abraça pela cintura. Marina desce da cadeira e me abraça pela frente. Lucas me agarra pela perna como sempre faz.

Eu passo a mão na cabeça dos três.

— Eu prometo… — digo, quase num sussurro — que um dia a gente vai sair daqui.

Uma batida forte na janela nos faz pular.

É só o vento.

Mas ainda assim… meu coração dispara.

Porque no fundo… eu sei que não é só o vento que me observa.

E que o mundo lá fora, onde a liberdade existe, está cada vez mais distante.

Continua

Estou testando um jeito novo de escrita, espero que gostem

Romance na Penha 2 - pt 2Histórias para pegar e não largar. Descubra agora