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Barão

Deixaram o meu filho e a mulher que eu amava num poço de sangue.

Sempre evitei falar sobre isso, porque mesmo depois de anos isso ainda mexe comigo

O grito sufocado da Malu me cortou o coração. Ela levou a mão à boca, os olhos transbordando de lagrimas

Sinto o meu nariz arder a viro o rosto pro outro lado encarando a janela de vidro da cozinha

Barão: por isso que ela não vai chegar perto de tu mais. É por isso que eu vou fazer o que for preciso pra tu ficar segura. Eu achei que a Maíra tinha melhorado por isso dei um voto de confiança e também porque eu achei que lá você ia esta mais segura que aqui, mas agora percebi que a tua mãe é a tua maior inimiga.

Eu sei o quanto a Maria foi forte até hoje pra aguentar isso tudo, e o tanto que ela tá tentando se controlar pra não desmoronar, e não tem nada pior pra um pai do que ver sua filha desse geito

Barão: Ela não quer a tua guarda porque te ama, Maria Luiza. Ela quer a tua guarda pra me ver sangrar de novo. - Olho pro seus cabelos pretos caindo por cima do rosto molhado - Ela sabe que tu é a única parte de mim que ela ainda não conseguiu destruir.

Levantei, sem conseguir mais olhar nos olhos dela. A dor de ver a decepção e o horror no rosto da minha filha é pior que qualquer tiro.

Barão: Se tu for com ela pra fora do país, Malu, tu não vai pra uma vida nova. Tu vai ser refém de uma psicopata. - Caminhei até a porta da cozinha e parei, olhando pro Gomes que estava na sala ainda conversando com os outros

Eu não sou santo. Tenho sangue nas mãos. Mas o que aquela mulher fez... nem o inferno aceita.

Saí pra fora sem olhar pra trás. Eu precisava de ar. Precisava de fumaça. E, acima de tudo, precisava garantir que a Maíra nunca mais respirasse o mesmo ar que a minha filha.

Malu

Minhas mãos tremiam tanto que quase não paravam no lugar

O silêncio que ficou na cozinha depois que o meu pai saiu era ensurdecedor. Eu sentia como se o chão tivesse sumido e eu estivesse despencando em um abismo de gelo.

Minha mãe... a mulher que me deu a vida, tinha arrancado uma vida de dentro de outra. O horror daquela imagem, mesmo que apenas imaginada, me fazia querer vomitar todo o café que eu tinha tomado.

Eu não conseguia me mexer. Meus dedos estavam travados na borda da mesa, as juntas brancas.

Faz horas desde que o meu pai me contou tudo e eu ainda estou sentada na mesma posição paralisada

Nunca imaginei que eu iria sentir tanto medo da minha própria mãe, ou melhor que eu nem conhecesse a minha mãe de verdade.

Como uma pessoa é capaz de fazer isso por vingança, ela nunca foi uma boa mãe e nem me tratou bem, mas isso dava pra relevar. Agora tirar duas vidas inocentes, já é demais.

Agora já não tenho tanta certeza do que ela seria capaz de fazer comigo.

Depois de voltar para a realidade, decidi ir almoçar na cantina que tem aqui perto

Tomei um banho rapidinho, só pra tirar a cara de morta e pentiei o meu cabelo

Saio de casa e observo a quantidade de seguranças cercando a casa, alguns na entrada da rua outros em cima das lages
Me sento na mesa esperando o meu pedido e fico encarando os meus próprios pés até a moça chamar a minha atenção com o almoço

Começo a comer de vagar, prestando atenção em todas as outras mesas que estão compostas por casais, famílias ou amigos. E ironicamente eu sou a única que estou sozinha em uma mesa

As vezes eu me sinto tão sozinha, sabe. Não tenho ninguém pra conversar, não tenho amigas

Nem sempre foi assim, antes quando eu morava aqui tava sempre cercada de amigos, mas depois todos se distanciaram, criaram novos amigos e só eu que fiquei na mesma

Saio dos meus pensamentos e volto a visão para a entrada principal do morro. O movimento lá embaixo era frenético

No mesmo instante vejo o carro do meu pai parar bruscamente perto da barreira. E o Gomes desceu da moto logo atrás com a postura de sempre e a mão na coronha da arma.

Olho pros dois carros pretos que estão pararados a poucos metros da barreira e os caras do meu pai em volta. Não me resta dúvidas que é a minha mãe

O lugar que estou fica a uma distância boa de lá, mas dá pra escutar o que estão falando

Barão: tem coragem de vir aqui, Maíra? - O grito do meu pai ecoou. - Tu acha que o teu dinheiro vale alguma coisa aqui dentro desgraçada?

Maíra: Eu vim buscar o que é meu por direito, Paulo! - A voz dela era cortante. - A Maria Luiza não pertence a esse lixo. Eu tenho a lei do meu lado.

Sinto a minha garganta fechar, mas seguro o choro.

Barão: Aqui o sistema é outro a lei sou eu! - Meu pai deu um passo à frente. - Se tu não der meia-volta agora, eu vou fazer tu de peneira.

O Gomes se moveu para o lado do meu pai, com os olhos varrendo os carros.

Após minutos de tensão mortal, os carros deram ré.

Maíra: Isso não acabou! - Ela gritou lá de dentro. - Você vai cair, Paulo! E ela vai vir comigo por bem ou por mal!

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⏰ Última atualização: 6 days ago ⏰

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