Em algum momento da vida, atingi certo grau de epifania sobre uma parte do Universo que me rodeia. Talvez o estopim tenha sido quando eu tinha sete anos e estava passando férias na praia, e então questionei meu pai enquanto fazíamos castelos na areia sobre quantos grãos de areia havia no mundo.
Pai: "Ué, como assim? Não sei, filho. Mal conseguimos ver um grão a olho nu, que dirá quantificar quantos exatamente tem no mundo."
Eu: "Mas e se conseguisse? Quanto mais ou menos teria?"
Pai: "Não sei, Newt. Talvez trilhões."
Eu: "Quanto equivale um trilhão, pai?"
Pai: "É o número um seguido por doze zeros."
Eu: "Isso é muito?"
Pai: "Tratando-se de dinheiro, sim, é muito."
Olhando o céu, dizem que há mais estrelas no Universo que grãos de areia no planeta Terra. Mas essa afirmação ainda não é categórica. Se o Universo for infinito como afirmam recentes estudos astronômicos, o número de estrelas também não terá fim, e obviamente esse total será maior que a quantidade de grãos de areia no nosso planeta.
É como dizia Virginia Woolf, quando levamos em conta coisas como as estrelas, todo o resto parece não importar tanto. Talvez ela quisesse dizer, se tratando dos humanos, que somos apenas uma poeira no espaço, considerando toda sua grandiosidade. Eu era insignificante, consequentemente, Sunshine e seu retrovisor quebrado também seria.
Estava sentado no sofá, lendo pela milésima vez o livro Um garoto fantástico, da Ryan Skarsten. Existem várias citações sobre Abraham Lincoln neste livro, como se o presidente pudesse ilustrar cada momento da vida de Fenrris, o protagonista do livro, fissurado por cartografia e política. Lincoln foi o décimo sexto presidente dos Estados Unidos, entre 1861 e 1865, e o primeiro presidente do Partido Republicano.
Ele tinha um pensamento muito particular sobre religião, mas com toda certeza é de se pensar. Dizia que quando praticava o bem, sentia-se bem; quando praticava o mal, sentia-se mal. E que essa era sua religião. Partilhar do mesmo pensamento, não me fazia ser menos credo em Deus, contudo não tenho uma religião pré-estabelecida, mas acredito em algo com A maiúsculo.
Escutei minha mãe estacionar o carro na entrada da garagem e então sua figura irrompeu a porta. Parecia preocupada e cansada.
― Newt, por que a Sunshine está sem o retrovisor direito e toda suja, querido? ― Sentou-se ao meu lado, me olhando com aqueles olhos castanhos escuros, questionadores, quase pedintes ― e cadê os meninos?
― Dei uma carona para eles até suas casas ― dei de ombros, sem tirar os olhos do livro.
― Tá, mas e a sua Kombi, o que aconteceu com ela? ― Tentou minha mãe novamente, passando uma das mãos no cabelo castanho escuro comprido e liso.
― Os valentões do colégio. Acho que eles quiseram incrementar a pintura ― a olhei sem ânimo. ― Como foi no escritório?
Minha mãe era publicitária, brilhante por sinal. Trabalhava bastante, sete dias por semana, durante horas e horas que nunca pareciam ser suficientes. Ela era bem presente, diferente do meu pai que morava longe de mim e só me via nas férias do colégio.
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E agora, Sunshine?
Teen FictionNewt Atwell é um adolescente de dezesseis anos apegado a aforismos e ao seu gato, o charmoso Néris. Com dois grandes amigos e uma escritora favorita de livros para jovens adultos prestes a se aposentar, Newt, Day e Kris caem na estrada com Sunshine...