Cinco

35 4 10
                                        


Eu estava escutando muito MPB esses dias e, por qualquer razão que não sei, lembrei de você. Lembrei e fiquei refletindo. O que faz com que algumas pessoas fiquem nas nossas vidas e outras não? O que faz com que nós fiquemos na vida de alguém?

Não pensei nisso na época, mas sei que quando te conheci, já tinha a sensação de que você continuaria na minha vida por um bom tempo. Dava pra te ver nas versões de futuro que eu tinha em mente, e isso foi bom.

Parei um pouco pra reler tuas cartas e as minhas respostas, e aconteceu um fenômeno engraçado: eu me perdi. Com todas elas em mãos e todos os contextos em mente, eu não consegui enxergar mais sentido no que estava lendo e respondendo. Hoje é sábado e eu não sei mais o que estou fazendo.

O que fez com que eu te visse nos futuros planejados pra minha vida? Afinidades? Sentimento? Pressentimento? Força de vontade, talvez? Será que foi por essa vontade que eu tive de te fazer ficar que chegamos aqui agora? Será que foi forçado? Que não era pra ser?

O MPB ainda tá tocando e eu queria poder te indicar essa música ou sair escrevendo a letra dela aqui porque ela fala o que eu tenho a dizer sem deixar tudo confuso, mas ainda não seria o suficiente.

Você deveria ter me escrito quatro cartas. Talvez aí não desse tempo de desistir de nada nem de fazer confusões na minha mente. Talvez daí eu pudesse te responder com um bilhete contendo quatro excelentes argumentos pra desistirmos disso tudo de desistir. Mas não, agora você está preocupado com os estragos que me causou ou qualquer coisa assim. Isso faz sentido? Ficar preocupado com os erros cometidos antes? Foram eles que nos trouxeram aqui?

Eu fico encarando minhas palavras e me pergunto por que estou colocando essas dúvidas todas por escrito. Eu sei que você não vai parar tudo o que está fazendo e voltar atrás nas suas resoluções pra me responder. Deve ser só pra desencargo de consciência, porque elas têm me atormentado bastante nas últimas noites. Além delas, percebi que não tenho muito o que dizer. Me sinto de mãos atadas e acho que metáfora nenhuma seria capaz de expressar o vazio que essas cartas estão trazendo. Não é querendo te culpar nem nada, mas eu sei que não estaria assim se não fosse por você. Lembra quando eu te disse que não gostava de me apegar? Que tinha medo de dar lugar pras pessoas na minha vida? Que entrei em pânico quando percebi que você já tinha entrado na minha mesmo que você tenha me tranquilizado muito bem com palavras gentis? Era por causa de situações assim. Sabe, não é querendo te culpar nem nada, mas acho que de todos os erros e estragos que você acha que fez, esse talvez tenha sido o pior. Provavelmente porque parece irreparável. É irreparável? Você ainda consegue me ver nos seus ideais de futuro?

Eu consegui te ver em todas as minhas versões de futuros próximos e distantes, mas agora não te vejo mais nem no presente do indicativo.

Queria estar do seu lado relendo essa carta daqui a dez ou vinte anos, sei que riríamos bastante e você provavelmente ficaria constrangido por toda a sinceridade trocada nas cartas dessa semana, mas pelo menos estaríamos bem e essa carta seria pretérito no nosso futuro. Não é querendo falar de tempos verbais e colocar gramática por aqui, mas isso me assusta. Toda essa história de tempo e de como ele passa rápido e de como ele leva embora as coisas que eu gosto... Não sei lidar. Eu te vi nos meus ideais de futuro sem imaginar que você um dia seria pretérito-mais-que-perfeito. É isso que você quer ser?

O que você espera de mim com tudo isso?  

Seis e MeiaOnde histórias criam vida. Descubra agora