Chegamos no hospital.
Jorge me convenceu, após me mostrar o corpo de Marina etiquetado no depósito de cobaias: FALHA NO FOOD EXPERIENCE – MORTE POR INFARTO SÚBITO.Para nós, se esconder no hospital não era um problema, já que ninguém nos via. Mas os recém-nascidos só deixavam as incubadoras para receber a lente de contato, e ter o QRcode escaneado no mesmo ato, e ficavam na área restrita, onde havia câmeras e leitores à laser do L.o.v.e. por todos os lados.
Se alguma delas nos escaneasse, estaríamos perdidos. Mesmo deslogados, as células do L.o.v.e. permaneciam em nossa corrente sanguínea.
Então o plano na teoria parecia simples, mas precisava ser cronometrado. Assim que um enfermeiro deixasse a sala de criação com um bebê e seu celular para inserir as lentes, Jorge o distrairia de alguma forma, enquanto eu trocaria o celular do bebê pelo aparelho configurado por Jorge.
Se tudo desse certo, dentro do app ele passaria a ser JoãoPWV e aproveitaria a hibernação para deslogar todos os usuários.
Eu mal conseguia respirar. Faltavam menos de dez minutos, já haviam soado o alerta, e o futuro da humanidade dependia desse meu pequeno ato.
Olhei para a sala de criação, seria a qualquer momento. Jorge ergueu 5 dedos para mim. Nós tínhamos 5 minutos.
Respirei fundo e senti o celular vibrar no bolso.
Olá, Luíza.
Desde a sua ausência você possui 23 notificações não respondidas.
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Estamos todos com saudades
- Luíza, tá maluca? Você não desligou o celular?
- Qual é o problema? – Dei de ombros.
- O L.o.v.e. integra todos os aplicativos, você vai ficar recebendo notificações.
- E daí? É só não clicar.
Fingi que aquilo não despertou minha curiosidade, mas deslizei o dedo pela tela e li o resumo das notificações.
Todas de pura felicidade. Curtidas. Mensagens. Fotos de comidas lindas, que agora eu sabia, não passavam de uma gororoba pastosa, pessoas se abraçando, se beijando, paisagens, cafés. Amigos se divertindo na balada experience.
Aquela era a minha vida e a de todo mundo. Falsa. E sendo verdade ou não, eu já morria de saudades do L.o.v.e.
Porque as pessoas agiam de forma melhor lá dentro, mesmo sendo tudo aparência, o aplicativo equilibrava bem as emoções e as experiências.
Quando comparava meu passado com o presente, preciso confessar que gostava muito mais do app. Um mundo onde as pessoas eram mais bonitas, mais alegres, mais confiantes. Os lugares mais bonitos, as comida mais saborosas. Onde os relacionamentos davam certo, e quando não davam, o app resolvia. Ninguém ficava sozinho, ninguém ficava infeliz.
Comprando sentimentos ou não, se parece real, e se você sente como se fosse, qual é a diferença?
Olhei para Jorge, parado ali na porta da sala de criação. Determinado a salvar o mundo, com gotas de suor brilhando em sua testa. Talvez ele sim, fosse o último humano de nossa sociedade. Eu duvidava muito que alguém fosse escolher qualquer coisa no lugar do L.o.v.e.
- Desculpa, Jorge, não posso suportar essa realidade. É honesta demais, dura demais.
- Calma, Luíza. Você só precisa de um tempo pra se reacostumar. - Ele ergueu as mãos como se eu segurasse uma arma.
- Eu preciso do virtual. Não posso fazer isso.
- Não. Respira fundo, você consegue.
Balancei a cabeça em negação.
- Sem essa alegria forjada, sem as fotos, sem as curtidas e as Experiences, vou morrer por dentro, Jorge.
A porta abriu atrás dele, que olhou do enfermeiro segurando um bebê, para mim. De repente, parecia disposto a me matar se fosse preciso.
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Prezado leitor, amanhã, teremos o último capítulo.
Está pronto para descobrir a verdade?
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L.O.V.E.
Fiksi IlmiahOi Luíza! Você conhece o L.o.v.e.? É o novo aplicativo da Essex Inc., o primeiro capaz de reproduzir sensações realistas. É isso mesmo, você leu certo. E nós já estamos bombando! São mais de 200.000 downloads desde o lançamento. Sabe por quê? Ele...