Com o momento cataclísmico, enquanto as palavras de Sadiq pairavam no ar, Samia teve uma lembrança que não pôde reprimir. Estava escondida na biblioteca do castelo, depois de derrubar a mesa de drinques, censurando-se por ser tão desajeitada. Sua paz foi destruída quando um homem entrou na sala.
Ele não a viu, porque a iluminação era muito fraca. E tudo que Samia sabia, enquanto permanecia sentada lá, mal respirando, era que ele era alto, forte e, poderoso. Todavia, ela não sentia medo. Ele andou para a janela que dava vista para um dos lindos pátios internos do castelo, e permaneceu lá por diversos momentos, silencioso, um ar de melancolia o cercando.
Ele suspirou e passou uma das mãos pelos cabelos curtos. Samia sentiu uma conexão profunda com aquele homem, sentiu a dor dele, identificou-se com seu isolamento. Sem pensar, respondendo a algum impulso para fazer alguma coisa, Samia estava quase de pé, quando outra pessoa entrou na sala: uma mulher alta e loira, e muito, muito linda.
O homem virou-se, e, para o choque de Samia, ela percebeu que era o carismático sultão que conhecera horas antes. A melancolia e o senso de isolamento desapareceram. Ela viu os olhos azuis brilharem com a aproximação da mulher. No lugar da vulnerabilidade que ela podia ter imaginado, estava um homem altamente sexual e confiante, e Samia soube que testemunhara alguma coisa muito privada... E que ele detestaria se soubesse que tinha sido observado.
Samia viu a mulher o abordando e quis que o sultão a empurrasse com desprezo. Como se ele fosse seu! Mas, enquanto ela observava, ele pressionou a loira contra a parede e beijou-a tão apaixonadamente que Samia emitiu um gemido involuntário de desespero.
Dois rostos se viraram na sua direção, e Samia ficou mortificada por ter sido pega assistindo à cena como uma voyeur.
E, agora, estava diante daqueles mesmos olhos azuis, e sentiu como se um buraco tivesse se aberto em sua barriga. Tudo de que podia se lembrar era daquela intensa vulnerabilidade que vira, ou pensara ter visto, no sultão naquela noite, e da conexão que tinha sentido.
Não conseguia bloquear a imagem do lado secreto desse homem mesmo enquanto sentia a determinação férrea dele. Sadiq não descansaria até que ela dissesse "sim", e tal fato lhe causou uma estranha calma. Era verdade: lutar contra aquilo seria lutar contra o destino, contra seu irmão e contra ele. Samia negou a si mesma que a memória mencionada era um ponto crucial, porque isso significaria que Sadiq e ela estavam emocionalmente conectados em algum nível, e ela não se iludiria em hipótese alguma.
Sua decisão era sobre inevitabilidade, lógica e praticidade, e 0 peso de sua linhagem que a colocava nesta posição. Ela abriu a boca para falar, e viu o maxilar de Sadiq enrijecer, como se esperando um soco. Imediatamente, Samia quis estender o braço e acariciá-lo. Fechou a mão.
— Eu... Sim, eu me casarei com você.
Por um segundo, não houve reação, fazendo-a imaginar se tinha falado em voz alta. Mas então Sadiq pôs o anel no seu dedo, abaixou a cabeça e pressionou os lábios ali. Ela sentiu aquele friozinho na barriga que começava a se tornar familiar. A cabeça dele estava tão perto de seus seios...
Sadiq endireitou o corpo, e ela viu que uma máscara lhe cobrira a expressão, tornando-o distante. Era o reinante sério novamente, e alcançara seu objetivo. Sem suavidade ou charme agora. Missão cumprida. Samia pensou sobre a facilidade com que ele manipulara suas emoções. Mas não podia voltar atrás agora. Selara seu destino, escolhendo o caminho que seguiria pelo resto da vida.
Sentindo-se abalada pelo que acabara de fazer, tentou parecer tão indiferente quanto Sadiq, e recolheu a mão da dele, dando um passo atrás.
— Eu preciso acordar cedo amanhã, então, se isso é tudo...
Ele deu um pequeno sorriso.
— Sim, por enquanto. Pedirei que minha assistente monte uma programação e lhe envie amanhã. Teremos três semanas movimentadas antes de retornarmos a Al-Omar para nosso casamento.
— Três semanas? — Samia gritou, todo fingimento de indiferença desaparecendo com o pensamento assustador. Por alguma razão, imaginara o casamento acontecendo dali a muito tempo.
Sadiq assentiu enquanto a escoltava para a porta.
— Três semanas, Samia. Isso deve lhe dar tempo suficiente para largar seu emprego e se preparar para o casamento. Eu entrarei em contato. Haverá um anúncio para a imprensa na próxima semana. Talvez você queira dar a boa noticia ao seu irmão antes que isso aconteça.
* * *
Na manhã seguinte, no trabalho, Samia conseguiu roubar cinco minutos de privacidade e olhar o jornal que comprara furtivamente em seu caminho para a biblioteca. Prendeu a respiração ao se deparar com a foto horrível. Ela parecia um coelho assustado, os olhos enormes e os cabelos desalinhados. E aquele traje! Podia ouvir a voz zombeteira de sua madrasta na cabeça, reclamando da incompetência total de Samia. Quase chorou. Sadiq estava atrás, a expressão séria no rosto lindo, as mãos grandes em sua cintura fazendo-a parecer minúscula. Ela parecia mais uma assistente mal vestida do sultão do que sua noiva.
Noiva. Ela deixara o anel de noivado em casa naquela manhã, e sua pele se arrepiou com a lembrança, como se ele fosse descobrir e aparecer para castigá-la. Era difícil acreditar naquilo, mas uma longa conversa com seu irmão na noite anterior, e o alívio dele porque eles teriam a cooperação de Al-Omar, ajudara-a a absorver a realidade. O que não melhorava muito seu desconforto.
A sensação de tranqüilidade que a preenchera no momento em que dissera "sim" à proposta de Sadiq tinha desaparecido há muito tempo. Aquele seria o casamento da década, e ela seria aniquilada quando todos percebessem que Samia não era nada como as amantes dele. Sem mencionar os outros aspectos do casamento deles... Como o físico. Ela sentiu uma onda de desespero. Era tão insignificante para ele nesse aspecto que talvez Sadiq precisasse de uma amante para se sentir satisfeito.
O mais irritante era que Samia era inocente e pura como as noivas virgens que reinantes como Sadiq esperavam. Ela tivera uma experiência mim na faculdade, quando um rapaz a pressionara após levá-la para sair algumas vezes. Samia rejeitara os avanços dele, que tinha ido embora, dizendo: Eu só estava tentando levá-la para cama por uma aposta, por causa de quem você é, mas fico feliz que isso não aconteceu! A vida é muito curta!
Ela reprimira sua sexualidade desde então, não querendo ganhar atenção ou críticas cruéis. Desviando a mente da lembrança dolorosa, pensou sobre o telefonema que tinha recebido de Sadiq naquela manhã, antes de sair para trabalhar.
— Marquei uma hora com uma estilista pessoal neste fim de semana. Você irá precisar de um enxoval. E vestidos para o casamento. Somente as festividades durarão três dias.
Samia tremera.
— Três dias? Por que não podemos nos casar numa cerimônia civil com algumas testemunhas?
Ele tinha rido, irritando-a.
— Porque eu sou um sultão, e você é uma princesa prestes a se tornar rainha. Aliás, você precisa ser protegida. A partir desta manhã, terá dois guarda-costas, e irá e voltará do trabalho num de meus carros. Á notícia pode não ser pública ainda, mas diversas pessoas sabem, ou desconfiam de alguma coisa.
— Mas... — Ela começara a protestar, mas fora interrompida.
— Isso não é negociável. De agora em diante, você está sob minha proteção. Está prestes a se casar com uma das maiores fortunas do mundo, sem mencionar o fato de que também pode exigir direitos sobre um dos petrolíferos mais inexplorados do mundo.
Pelo menos, pensou Samia com uma ponta de histeria, não tinha de se preocupar que Sadiq estivesse se casando com ela por dinheiro! Qualquer senso de anonimato era uma linha fina prestes a se romper para sempre.
Cinco dias depois
Sadiq estava na sala de espera de um dos vestiários privados na loja de departamento mais exclusiva de Londres. Samia tinha sido levada para dentro do labirinto de salas, a fim de experimentar diversos trajes, enquanto ele esperava e era servido por um exército de mulheres bonitas, todas deixando seu interesse óbvio.
A última loira ofereceu-lhe uma seleção de jornais, e ele pegou um. Quando ela se demorou muito por perto, Sadiq a dispensou com um frio "obrigado". Não muito tempo atrás, ele a teria olhado para ver se valia a pena levá-la para cama. Mas não hoje, e nunca mais.
O pensamento não lhe causou a claustrofobia esperada. Teve de admitir que sua resolução de permanecer fiel não se devia inteiramente ao fato de que ia se casar, mas porque curiosidade e desejo não estavam presentes.
Ele não vira Samia novamente até que a apanhara nesta manhã. Dissera a si mesmo que precisava acompanhá-la porque, depois de ver o guarda-roupa dela, não confiava que ela escolheria os trajes apropriados. Convenientemente, ignorara o fato de que Samia seria assistida por uma estilista experiente.
Samia estivera esperando do lado de fora de seu edifício, os cabelos amarrados atrás, e parecendo pálida em jeans desbotado, uma blusa leve e casaco. Com menos adornos que as criadas que trabalhavam para ele no castelo Hussein, em B'harani. Sadiq tivera de reprimir a irritação, e também a perturbadora onda de desejo. O jeans de Samia abraçava as pernas delgadas e o traseiro arredondado. E o tecido fino da blusa mostrava-lhe novamente que ela possuía seios bem formados e generosos.
Sadiq tentou convencer-se de que esse desejo por sua noiva era seu cérebro instruindo seu corpo a sentir alguma coisa pela mulher com quem ele dormiria para sempre, mas o fogo correndo em suas veias zombou da racionalização.
Quando pedira Samia em casamento após o jantar deles, experimentara um sentimento de desespero para que ela aceitasse, a primeira vez que se sentira assim... Ou a primeira vez em muito tempo. E não tinha gostado daquilo.
Uma onda de medo enrijeceu seu corpo agora, quando ouviu o movimento anunciando que sua noiva estava voltando para desfilar no primeiro de seus trajes. Decidira que a princesa Samia daria uma boa esposa descomplicada e, de súbito, o futuro parecia conter complicações com as quais ele não contara.
Samia queria puxar o minúsculo vestido prateado para cima dos seios e para baixo dos joelhos, mas estava intimidada pela estilista pessoal, que a lembrava muito sua madrasta. Olhando-a de cima a baixo quando ela ficara lá somente em roupas de baixo, ela murmurara algo como: Bem, não há muito que possamos fazer. Você é muito baixa para a maioria desses vestidos...
Lutando contra o nervosismo diante do pensamento de desfilar para Sadiq como uma escrava num leilão, Samia fixou o olhar à frente, determinada a não ver a expressão desapontada no rosto dele. Nem mesmo se olhara nos numerosos espelhos.
Elas emergiram na sala de espera, e Samia percebeu ò corpo grande e poderoso recostado contra um sofá bege. Seu coração disparou instantaneamente; Ela estava de saltos altos, e sentiu-se tão instável quanto um potro em pernas finas.
Sadiq viu Samia sair de trás de uma cortina de veludo luxuosa. Automaticamente, olhou-a de cima a baixo, como fizera com inúmeras mulheres no passado... Um reflexo. Essa era geralmente uma introdução erótica para os prazeres mútuos que se seguiriam. Mas nunca em sua vida alguma daquelas mulheres tivera tal efeito imediato nele. Tão imediato e forte que ele precisou angular o corpo de uma forma que disfarçasse sua resposta física.
Os cabelos de Samia ainda estavam presos num coque na nuca. Ele tivera de controlar sua vontade de lhe pedir que os soltasse mais cedo, como se ela fosse sua amante e não o estivesse agradando. Agora, ela evitava seu olhar, e, pelo rosto ruborizado, estava obviamente embaraçada.
Mas era a visão mais erótica que Sadiq já vira na vida. Ao contrário de sua primeira impressão de uma figura sem curvas, Samia possuía um corpo incrível. Sem as roupas largas e desmazeladas, viam-se membros esbeltos e lindas curvas. Ele imaginou o contraste do tom claro de pele de Samia com sua própria pele bronzeada, enquanto os membros deles estavam entrelaçados, e a dor em seu sexo intensificou-se.
Sua voz soou baixa e autoritária:
— Deixe-nos sozinhos por um momento, por favor.
Para seu alívio, a estilista e suas assistentes desapareceram.
Sadiq a estudou. O vestido era totalmente inapropriado, mas revelava uma combinação inebriante da inocência de Samia com a sexualidade que ela claramente não sabia possuir.
E então ele percebeu que ela continuava evitando seu olhar. A relutância de Samia por aquele cenário era palpável. Sadiq lembrou-se do como seu pai costumava insistir que sua mãe usasse a última moda de Paris que ele lhe comprara. Sadiq sabia que aquilo era diferente, mas seu desejo foi dosado, como se tivesse entrado num banho gelado.
— O vestido é inadequado. Claramente nós viemos ao lugar errado. Vá e troque de roupa. Iremos embora.
Sadiq viu o queixo delicado enrijecer antes que ela se virasse e voltasse para a cortina, e teve de se conter para não chamá-la e explicar... Que por um segundo temera ter se tornado como seu pai. Seu pai dominador, que exibia suas mulheres na frente do único filho, como se aquilo fosse motivo de orgulho, e na frente de sua esposa estóica, como punição.
Tomado por desgosto, ele levantou-se e andou impaciente-mente de um lado para o outro, enquanto esperava por Samia.
Pelo menos, jamais a sujeitaria ao que sua mãe tivera de suportar por anos, independentemente das justificativas que seu pai acreditara ter. Sadiq sempre jurara que faria as coisas de modo diferente. Respeitaria sua esposa, e trataria seus herdeiros como seres humanos, não como peças de um jogo.
Samia respirou fundo e entrou na sala de espera. Ainda estava magoada por Sadiq ter criticado seu traje... E a ela. Sentira que ele a olhara de cima a baixo, e não gostara do que vira. Até mesmo a rejeição que ela sofrerá nas mãos daquele estudante universitário era insignificante em comparação com a rejeição silenciosa de Sadiq.
Ela entrou na sala para vê-lo olhando para o chão com a fisionomia carrancuda, e teve vontade de perguntar se havia algo errado. Quase riu de si mesma! Como se precisasse perguntar! Ele ia se casar com ela. E estava tudo errado. Se apenas Sadiq pudesse concordar com isso...
Ele virou-se para fitá-la.
— O vestido... Não ficou bom em você porque era muito óbvio, e sua beleza não é óbvia. É sutil. Claramente, escolhi o lugar errado. Iremos para Paris, em vez disso.
Samia ficou boquiaberta. Não esperara aquilo. Por um momento, seu coração fraco alegrou-se por ouvi-lo dizer que ela era bonita, mas então se concentrou na palavra sutil. Era somente outra maneira de falar que ela era comum.
Sadiq já estava andando e falando francês fluente ao telefone, pegando-lhe o braço para tirá-la da sala e da loja. Raiva começava a envolvê-la, mas agora ele estava em seu terceiro telefonema, e, pelo tom gutural em árabe, o assunto era política de Al-Omar. Samia estava acostumada com seu irmão se fechando e tornando-se irascível em ocasiões como essa, então apenas cruzou os braços e andou silenciosamente ao lado de Sadiq.
Dentro de uma hora, eles estavam decolando de um aeroporto particular no meio de Londres. Samia não teve ciência de que Sadiq havia terminado sua ligação telefônica até que uma voz profunda perguntou:
— Você vai me ignorar durante o voo inteiro?
Ela virou-se para olhá-lo, instantaneamente notando como ele estava lindo sem paletó e com a camisa aberta no colarinho. Imaginou como Sadiq ficaria em jeans e camiseta.
— Eu poderia lhe perguntar a mesma coisa. E eu lhe disse o' tempo todo que não sou adequada, então não gosto de sua condenação silenciosa quando não me transformo na noiva que você quer.
Ele estreitou os olhos.
— Fui sincero no que disse lá, Samia. Eu não faço elogios por fazer. Esse não é meu estilo. Apenas reconheci que o estabelecimento que escolhi era totalmente errado para você. — Os olhos azuis viajaram pelo corpo dela com apreciação, antes de voltarem para o rosto de Samia, o qual estava quente. — Como falei, sua beleza é sutil, e precisa de uma... Abordagem mais delicada.
Samia ainda se recusava a acreditar naquelas palavras. Aquela era somente uma maneira de aplacá-la. E agora ele a estava levando para um lugar onde eles pudessem camuflá-la melhor.
— Bem, espero que toda a despesa e impacto ambiental de pegar um avião particular para Paris, com a única finalidade de me vestir, valham à pena.
Divertimento fez os olhos de Sadiq brilharem, e o coração de Samia acelerou.
— Não se preocupe princesa. Eu lhe garanto que o impacto ambiental será mínimo. Uma de nossas equipes de cientistas está usando este avião como um veículo para testar combustíveis menos agressivos ao meio ambiente. Portanto, na verdade, estamos contribuindo para uma pesquisa valiosa.
Samia recusou-se a ser contagiada pelo bom humor.
— Você tem resposta para tudo, não é? Ele sorriu.
— É claro.
Samia teve de virar-se. Ele estava muito atraente com aquele sorriso sincero, e ela temia que ele visse os sentimentos ambíguos no seu rosto muito expressivo.
— Acredite — disse Sadiq agora —, quando anunciarmos o nosso noivado à imprensa na segunda-feira, você ficara grata pela armadura de um traje adequado.
— Segunda-feira... — Samia olhou ao redor, sentindo-se empalidecer, desejando que pudesse escapar.
Estava inconsciente de sua própria expressão desejosa, ou do jeito como Sadiq enrijeceu.
— Nem mesmo pense nisso, Samia. Nós fomos longe demais para voltar atrás agora. Já houve especulação nos jornais depois daquela foto. Agora, eles estão só esperando pelo anúncio.
Ela encontrou-lhe os olhos, e qualquer esperança desapareceu diante do semblante determinado dele. Amargamente, ela murmurou:
— É fácil para você, não é? Teve sua vida de liberdade hedonista, e, agora que decidiu casar-se, isso será realizado com o mínimo de confusão e o máximo de pressa.
— Você também teve sua liberdade, Samia. Como uma mulher moderna de 25 anos, não espera que eu presuma que você levou uma vida de freira e ainda é virgem?
Instantaneamente reagindo ao tom zombeteiro dele, Samia falou na defensiva:
— Quer dizer que você não se importa que não terá uma esposa virgem na noite de núpcias? Pensei que, com toda sua preocupação para escolher a noiva adequada, isso tivesse feito parte de sua lista.
Eles se entreolharam. Samia estava muito ofegante para seu gosto. E não podia acreditar que tinha mentido tão descaradamente. Estava levando-o a acreditar que tivera diversos amantes.
Um sorriso cínico curvou a boca sensual de Sadiq.
— Isso não me incomoda nem um pouco. É claro que eu não esperaria uma noiva pura. Não sou tão antiquado ou tão hipócrita. Tenho um apetite sexual saudável e o pensamento de dormir com uma virgem não é algo que me apetece.
Uma dor súbita a assolou. Desde aquela experiência na faculdade, Samia bloqueara qualquer desejo romântico de que um dia se entregaria a alguém que a apreciasse por quem ela era. E, agora, tinha de encarar a perspectiva do horror de Sadiq quando descobrisse, na noite de núpcias, que ganhara uma noiva inocente.
Tomada por uma emoção que não queria analisar, e sentindo-se muito vulnerável, ela levantou-se, sem elegância. Sentia-se sempre deselegante ao lado daquele homem. Alegando que estava cansada, escapou para o fundo da cabine, onde um quarto lhe fora mostrado mais cedo, e fechou a porta firmemente. Eles aterrissariam logo, mas ela deitou-se na cama de qualquer forma, e tentou bloquear o rosto lindo de Sadiq de sua mente. Perguntou-se como se iludira ao ponto de pensar que talvez ele pudesse estar vulnerável.
Sadiq desligou o telefone, e olhou pela pequena janela oval do avião. Tudo que podia ver eram nuvens e mais nuvens... E o rosto de Samia, com aqueles grandes olhos azuis contrastando com a pele clara do rosto. Ele já notara que os olhos cor de água-marinha se tornavam azul-escuro quando ela ficava emotiva.
Ela parecera perto das lágrimas, mas ele não sabia o que tinha dito para aborrecê-la. É claro que não esperara que Samia fosse pura e imaculada. Era um homem e um reinante moderno. Por que esperaria que sua noiva tivesse levado uma existência de freira?
Enrijeceu o maxilar com a lembrança que as palavras pura e imaculada lhe despertaram. Uma mulher lhe dissera tais palavras numa voz desdenhosa muito tempo atrás.
Anália Medena Gonzalez. Uma socialite deslumbrante da Europa, que havia ido visitar Al-Omar com o pai embaixador quando Sadiq tinha 18 anos. Ele não era um jovem inocente na época, mas tampouco era experiente.
Anália, dez anos mais velha, o seduzira, escravizando-o com o poder de sua sensualidade e sexualidade. E Sadiq, como o jovem tolo que fora, tinha acreditado estar apaixonado por ela.
Anália o olhara no dia em que estava indo embora, dizendo:
— Você me ama? Sadiq, querido, você não me ama. Sente luxúria por mim, nada mais.
Sadiq tivera de se conter para não contradizê-la. Mesmo naquela época, algum instinto de autopreservação surgira... Para sua eterna gratidão.
Ela o fitara com aqueles olhos verdes exóticos e suspirara.
— Querido, eu tenho 28 anos, e estou procurando um segundo marido. Você ainda é um garoto. Quanto antes aprender a endurecer seu coração e não se apaixonar por todas as mulheres com quem dorme, melhor para você. Eu sei o tipo de mulheres que você irá conhecer. Elas todas irão querer seu corpo, sim, mas também irão querê-lo porque você é rico é poderoso. Dois dos maiores afrodisíacos.
Ela aproximara-se então, sussurrando em seu ouvido:
— Acredite Sadiq, elas não irão se importar sobre o homem que você é... Como eu não me importo. É para isso que você tem mãe. Um dia, irá escolher uma garota pura e imaculada de sua região para ser sua esposa, e será feliz para sempre.
A crueldade banal daquelas palavras não tivera o poder de machucar Sadiq por muito tempo. Ele aprendera uma lição valiosa, e a profecia de Anália se provara verdadeira em grande parte.
Uma vez que ele se tornara sultão; após a morte de seu pai, com 19 anos, havia sido lançado para outra estratosfera. Por quase um ano, não tivera nenhuma amante, muito ocupado em controlar um país corrupto e caótico. Mas, depois que se reintegrara à sociedade, mulheres o tinham cercado aos montes.
Ele rapidamente se tornara especialista em escolher aquelas que entendiam as regras de seu jogo. Sem envolvimento emocional, sem elos. Passara a se acostumar com o brilho avarento nos olhos das mulheres quando elas viam a extensão de sua riqueza, e, em algum nível, aquilo o confortava... Porque nunca mais queria estar diante de uma mulher que sentisse compaixão por ele.
Encontrara Anália uma ou duas vezes ao longo dos anos, e uma vez até mesmo a seduzira novamente, como se para remover o efeito daquele dia de sua mente e de seu coração para sempre. Sadiq a olhara na manhã seguinte, enquanto ela se vestia, e não sentira absolutamente nada, experimentando um momento de triunfo pessoal.
Ver a raiva doentia de seu pai porque a esposa não o amava deveria ter sido lição suficiente para Sadiq, mas não fora. E ele não iria esquecer todas aquelas lições valiosas agora, somente porque a mulher que escolhera para sua esposa não se impressionava com nada que ele pusesse na sua frente, usava a vulnerabilidade na manga e o fazia se sentir inexplicavelmente protetor.
Samia estava diante de outra cortina de veludo em outra loja exclusiva, aproximadamente três horas mais tarde... Embora, desta vez, numa loja em Paris, o centro da moda mundial. Ela acordara logo antes que o comissário de bordo tinha ido avisar que eles iriam aterrissar, e Sadiq a ignorara durante a jornada de carro para Paris.
Ela alisou o tecido de seda do vestido, e então a estilista francesa muito mais amigável apareceu do seu lado e a puxou através da cortina.
— Vamos, cherie. Temos muitos trajes para provar.
Samia prendeu a respiração, a luz brilhante cegando-a por um momento, de modo que ela não pôde ver a expressão inicial no rosto de Sadiq. Ele estava de pé perto da janela, e abaixou o celular da orelha.
Recusando-se a ser intimidada desta vez, ela ergueu o queixo e o encarou... Mas o olhar dele estava em algum lugar perto de seus seios. Samia enrijeceu; Sadiq estava procurando por eles, sem dúvida. Embora ela tivesse ficado surpresa em como o vestido fazia seus seios parecerem voluptuosos.
A estilista alegara que ela vinha usando o tamanho errado de sutiã por anos, e escolhera outro número, fazendo Samia protestar, até que experimentara o sutiã e este lhe servira como uma segunda pele.
Sadiq finalmente a olhou, a expressão neutra.
— Muito melhor — disse ele. — Ótimo Simone. Continue.
E então Samia foi levada de volta para o vestiário, e experimentou dúzias de trajes, sempre desfilando na frente de Sadiq. E, quando saiu do vestiário pela última vez, ele havia desaparecido, ela sentiu um vazio horrível.
A pequena francesa aproximou-se com seu casaco, e Samia começou a perguntar:
— Você sabe onde... Simone sorriu.
— Seu noivo está confiando no meu julgamento pelo resto do dia. Você não quer que ele veja seu vestido de noiva antes do casamento, quer? Além disso — ela uniu o braço ao de Samia —, acho que, quando ele a vir em sua nova lingerie, terá uma bela surpresa, non?
Durante as próximas horas, até que a noite caiu sobre Paris, Samia suportou a humilhação de ter um exército de mulheres andando ao seu redor, apalpando-a e espetando-a, de experimentar conjuntos de lingerie tão indecentes que não pretendia usar nem para si mesma, muito menos para outra pessoa!
Suas medidas para o vestido principal de casamento foram tiradas, o qual ela usaria no final do dia das celebrações... A parte mais ocidentalizada do casamento. Outra prova do vestido aconteceria no dia seguinte, assim como Samia passaria algumas horas num salão de beleza. Em algumas semanas, o vestido séria levado para Londres, para uma prova final e últimos ajustes, antes que eles partissem para Al-Omar.
Então, aparentemente, eles passariam a noite em Paris. Um nó de nervosismo se instalou na barriga de Samia.
Simone escoltou-a para o carro que as levara para todo lado naquela tarde e despediu-se, dizendo-lhe que todas as roupas seriam enviadas para Londres, e depois para Al-Omar. Ela pôs uma pequena mala de viagem nas mãos de Samia e piscou.
— Talvez você precise disso esta noite.
Samia não tinha certeza sobre o que Simone quisera dizer, até que abriu a mala na privacidade do banco traseiro do carro. Não sabia para onde o motorista a levaria, e estava muito cansada para perguntar; entretanto, sentiu-se estranhamente segura que Sadiq saberia onde ela estava.
E então viu o que estava na sacola: uma seleção de lingerie de seda, pijamas e camisolas. Havia um saco menor, com finos artigos de banho e uma troca de roupa para o dia seguinte. Samia perdera seu jeans favorito em algum lugar ao longo do caminho hoje, e agora estava usando uma bonita calça de grife e uma blusa de cashmere incrivelmente macia. Adicionando o novo sutiã de renda que usava por baixo, ela não se sentia ela mesma.
No momento em que o carro parou do lado de fora de uma casa muito cara, com a bandeira de Al-Omar balançando com o vento à entrada, Samia estava se sentindo realmente irritada.
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A Escolhida do Sultão
RomanceUma rainha inconveniente. Escolhida pelo sultão para ser sua esposa, Samia não teve outra escolha a não ser aceitar o casamento. E, enquanto seu marido a despia peça por peça de seu lingerie de núpcias, ela não conseguiu controlar seu desejo, e su...
