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6h48.

Não consegui dormir mais. Fiquei o resto da noite com medo de cair no sono novamente e ir parar naquele lugar estranho. Resolvi pegar meu celular e começar a assistir alguma série na netflix, pra passar o tempo. Acabei assistindo "The End Of The F***ing World", que eu estou amando. Acabei o episódio 5 agora. Quero me levantar, realmente estou sem sono.

Vou para o banheiro, escovo os dentes, depois pego meu fone de ouvido no meu quarto e abro o Spotify, coloco "Moonlight" da Ariana Grande pra tocar, enquanto desço as escadas para o andar debaixo, pra chegar à cozinha. Faço leite com Toddy e pego pães de queijo pra levar pra varanda, e fico simplesmente sentado lá, comendo, ouvindo música e olhando a avenida da minha casa parada.

De frente pra minha casa tinha uma lanchonete chamada "Rosé". Meu crush, Pedro, trabalha lá e ele deve estar quase chegando. Somos meio colegas, ele sabe quem sou eu, mas não somos íntimos. Mas, ele é um dos meninos mais lindos que eu já vi no mundo. Ele começa a trabalhar às 7h. Tenho dó de quem tem que trabalhar no domingo, mas ele já me disse que trabalha um domingo e tira folga no outro. Quero aproveitar uma dessas folga pra chama-lo pra sair. Não sei se ele é gay, mas eu quero muito tentar me aproximar dele. Ele chegou de bicicleta. Tranca seu veículo no mesmo lugar de sempre, da uma olhada em volta, ele me vê, acena e entra na lanchonete, fecha a porta pra organizar tudo lá dentro pra abrir às 8h.

Escuto passos, é meu pai (padrasto, mas sempre vou chama-lo de pai).

- Bom dia, meu filho. Que milagre você acordado a essa hora em um domingo - ele diz, bagunçando mais ainda meus cabelos loiros e sentando-se na cadeira do meu lado. Ele pega o copo de leite da minha mão e bebe um gole. Ele sempre faz isso pra me irritar, mas de maneira carinhosa.

- Eu perdi o sono. Estou sem dormir desde 4h30 - respondo, olhando para o corte no meu braço, igual ao que tive no sonho estranho, ainda pensativo sobre aquilo.

- Você está bem? - ele pergunta, com um ar de preocupação.

- Sim, só perdi o sono mesmo.

- Ok, vou voltar a dormir, só me levantei pra tomar água, e vi que você estava acordado. Deveria se deitar também, vamos sair hoje mais tarde e não quero ver ninguém dormindo no banco do carro - ele responde, levantando-se, enrolando seu roupão no corpo (pois ele estava apenas de bermuda, ele sempre dorme assim) e caminhando de volta pra dentro da casa.

- Pai - eu o paro e sinto meus olhos se encherem d'água - eu recebi uma ligação do meu pai durante a festa, e ele veio dizer coisas ruins pra mim.

Vejo-o mudar as feições, ele volta, se agacha na minha frente e apoia as duas mãos nos meus joelhos, pra me ouvir. Eu já senti a primeira lágrima escorrendo no meu rosto.

- Ele fica dizendo que eu sou uma vergonha só por ser gay, diz que me odeia, ele já disse que eu sou o maior arrependimento da vida dele. Isso me dói tanto pai, tanto.

- Ei, olhe pra mim - ele diz, levantando minha cabeça pelo meu queixo - você viu quantas pessoas estavam aqui agora a pouco festejando seu aniversário? Amigos, familiares. Eu não digo que você não precisa dele, até porque, ele é o seu pai. Mas você não precisa se concentrar no ódio dele. Você tem pessoas incríveis na sua vida, que te amam absurdamente. Eu daria a minha vida por você e agradeço absurdamente à Deus por ter colocado você, um anjo, no meu caminho. Eu não entendo em detalhes os motivos que levaram a sua mãe a se separar dele, mas nem quero saber, porque o que me deixa cheio de orgulho é ver que eu tenho feito a vida de vocês algo melhor. E você é o meu filho, independente de tudo, inclusive da sua sexualidade - ele começa chorar também - se pra ele você é o maior arrependimento, pra mim você é o maior orgulho, e garanto que pra sua mãe também. Foque nas pessoas que te amam - ele se levanta, diz que me ama e me deixa sozinho na varanda, com suas lindas palavras sendo processadas na minha mente. "Eu também te amo", penso.

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