-CONTOS DE HORROR-

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 Era noite de natal. Um grupo de amigos reuniu-se em minha casa e, após a deliciosa ceia, entregamo-nos ao nosso passatempo favorito: contar histórias de terror. Nessa hora, Douglas, um de meus melhores amigos, disse:

-Conheço uma história verdadeira, sobre duas crianças.

 Seu rosto estava abatido, o olhar era fundo e triste, parecendo indicar que algo não corria bem.

-O que aconteceu foi tão horrível que, tenho certeza, quando conhecerem os fatos, seus corações se sentirão apertados como se recebessem não apenas uma, mas duas voltas de parafuso -disse ele.

Algumas pessoas riram, mas Douglas continuava sério, olhando para o fogo da lareira, que ardia para aquecer a sala do frio inglês daquela época do ano. Quando todos se calaram, ele prosseguiu:

-Até hoje, sou o único que sabe. É terrível demais -falou, contorcendo a face cansada de seus sessenta anos, como se estivesse enojado.

-A experiência em questão foi sua? -perguntei
-Graças a Deus não! -exclamou ele. -foi de uma mulher... morta há vinte anos. Enviou-me um caderno com a descrição de sua desgraça pouco antes de morrer. Ele está aqui -disse, mostrando o objeto.

Alguns convidados puseram-se a cochichar, insinuando uma possível paixão de Douglas pela tal mulher, mas ele manteve-se impassível.

-Tinha dez anos mais que eu. Foi professora de minha irmã. Uma pessoa tão maravilhosa... -disse, com os olhos brilhando pela a primeira vez naquela noite.

Douglas começou dizendo que a história das crianças necessitava de algumas explicações antes de ser lida.

-Quando tudo aconteceu, a professora de minha irmã era recém-formado. Jovem filha de um páro da área rural, nascida no campo, seguiu até Londres para uma entrevista de emprego -explicou.

-Que tipo de emprego? -perguntei.
Sem dar importância á minha pergunta, ele continuou:
- Mesmo sem conhecer a cidade, conseguiu chegar em Harley street.

Apresentou-se em uma verdadeira mansão naquela rua. No escritório, foi apresentada ao cavalheiro que oferecia o emprego. Nessa hora, minha amiga sentiu as pernas tremerem...

Os ouvintes se agitaram, mas ninguém ousou interrompê-lo.

- Segundo me contou, jamais havia visto homem tão bem apresentável, com traços tão fortes e olhar tão penetrante -disse , tirando-nos um pouco do suspense. - Jovem e bonito , ele era também era envolvente e galanteador.
A conversa que tiveram foi agradável, e logo minha amiga se deixou levar pelo magnetismo de suas palavras.

Voltando o olhar a mim, como se quisesse responder minha pergunta anterior, Douglas disse:

- O emprego parecia atraente. Ela deveria partir imediatamente para Bly, a casa de campo da família do jovem cavalheiro, no condado de Essex, para cuidar da educação de seus dois sobrinhos órfãos, cujos pais haviam falecido há dois anos em uma viagem á índia. Sendo um homem solteiro, ocupado demais com os negócios, não tinha tempo, muito menos paciência para lidar com crianças. Desde a morte dos pais, o casal de sobrinhos morava em Bly, local seguro e confortável.
- Como se chamavam as crianças? - alguém perguntou.
- Flora, de oito anos, e Miles, de dez, haviam estado sob os cuidados de uma outra preceptora, mas infelizmente a moça falecera há três meses. O menino fora estão mandado para um colégio interno, mas as férias estavam próximas, e ele logo deveria estar de volta. MRS. Grose, governanta encarregada do gerenciamento de toda a casa, estava tomando conta de Flora. Era uma senhora idônea e boa.

A casa tinha muitos empregados, mas seria a autoridade máxima no momento em que chegasse lá.
Alguém levantou a voz e perguntou:
- De que morreu a primeira professora?
- Vocês tomarão conhecimento depois. O que importa é que havia uma condição para que o emprego fosse dela. Algo que, no seu entender, poderia significar risco...
- De vida? Por Deus, que condição era essa? - perguntei com ansiedade.
- Ela não deveria nunca, sob hipótese alguma, incomodá-lo. Aliás, ninguém de Bly poderia lhe escrever, reclamar de qualquer coisa, pedir ajuda ao conselho. Ela receberia todo mês o dinheiro necessário para as despesas e deveria cuidar de tudo sozinha, qualquer que fosse a dificuldade encontrada. Em troca, o salário era muito bom para uma moça recém-formada.
- Oh! O dinheiro era tão bom assim? - perguntei.

- Acho que, no fundo, o fato de um homem daquela posição estar confiando nela deixou-a envaidecida e disposta a enfrentar o desafio.
- Ela estava apaixonada! - exclamou uma senhora sentada em uma poltrona.
- Tirem a conclusão que quiserem, mas, selado o acordo entre eles, minha amiga recebeu uma recompensa que considerou a maior de todas. Era como se tudo já estivesse valendo a pena.
- Recompensa? - indagou a senhora.
- Ele tocou suavemente sua mão direita, que por segundos ficou abrigada entre as duas palmas ao mesmo tempo quentes e ásperas do novo patrão. Ela sentiu as pernas tremerem e o coração acelerar a ponto de ter medo de desmaiar.

Nesse momento, Douglas abriu o caderno de capa dura para começar a leitura do texto escrito pela própria mulher, e confiado a ele antes de morrer. A bela caligrafia mostrava características de uma pessoa determinada, embora delicada. A tinta estava bastante desbotada pelo tempo. Antes de deixá-lo começar, porém, perguntei:
- Ela se concentrou com um aperto de mão, sendo que estava apaixonada?
- Foi a última vez que eles se viram - respondeu Douglas, voltando o olhar para a primeira página.




A  VOLTA DO PARAFUSO Onde histórias criam vida. Descubra agora