— O que houve, pelo amor de Deus, Miss? A senhora estava com um ar aterrorizante através do vidro! — perguntou Mrs. Grose.
— Da mesma forma que a senhora me viu pela janela, eu vi coisa muito pior! Vi um homem, um homem horrível! — disse, abraçando-a.
— Que homem???
— Não o conheço.
— E para onde foi? — perguntou, olhando ao redor.
— Não tenho a mínima idéia.
— A senhora já o viu antes?
— Uma vez, no alto da torre. Uns dois meses atrás.
— Era um cavalheiro?
— Oh, não! Isso não!
— Era o que, então, Miss?
— Uma aberração!
— Oh, meu Deus, como é esse sujeito horrível?
— Estava sem chapéu — comecei.
Nessa hora, notei que a governanta tinha acesso a alguma informação que não era do meu conhecimento. Ela se aproximou da janela, tentando ter também a visão que o sujeito tivera. Continuei a descrição:
— Os cabelos dele são crespos e bem vermelhos. As sobrancelhas são grossas e escuras. A boca é grande e os olhos, miúdos. O olhar, no entanto, é profundo, e causa frio na espinha. As roupas chamaram-me a atenção.
— As roupas?
— Sim, ele estava muito bem-vestido, mas via-se que o traje era grande demais. Não era dele o terno preto que usava.
— São as roupas do patrão! — gritou Mrs. Grose.
— A senhora o conhece? — perguntei, quase gritando.
— Este homem que a senhora descreveu é... Quint.
— Quint
— Peter Quint, empregado de quarto do patrão quando ele estava aqui. Ele nunca usava chapéu. Depois que o patrão se foi para Londres, Quint ficou aqui sozinho. Vários ternos sumiram do armário.
— Como assim, sozinho?
— Quero dizer, conosco, sem o patrão.
— E onde ele está agora? Não trabalha mais aqui?
— Peter Quint está morto!
Não fomos à igreja. Entramos em casa, fechamos todas as cortinas que encontramos em um gesto de desespero e choramos. Mesmo não tendo visto nada, Mrs. Grose acreditou em mim, e refez seus votos de ficar ao meu lado, "até o fim", para cumprir nossas funções de governanta e professora em Bly. Ela era uma mulher humilde, simples, e talvez por isso mesmo admirei ainda mais sua coragem e confiança em mim. Passamos quase a noite toda falando sobre o acontecido. Mrs. Grose me perguntou:
— A senhora disse que ele procurava alguém que não era a senhora. Quem?
— Miles. Ele procurava Miles.
— O menino? Como sabe? — perguntou, com angústia na voz.
— Eu sei, tenho certeza, e acredito que a senhora também saiba disso. Ela se calou, sem negar minha afirmação.
— Acho estranho que nem Miles nem Flora tenham me falado sobre o tempo que conviveram com Peter Quint. Eles falam sempre no tio e na época em que ele estava aqui — sugeri.
Minha amiga corou levemente. Incentivei-a:
— Pode falar, minha cara. Devemos nos unir agora. Meu intuito é proteger Miles e Flora. Estou convicta de que irei me encontrar de novo com Quint. Tenho a esperança de que, enfrentando-o, eu possa funcionar como uma espécie de escudo para as crianças.
Emocionada, ela acabou dizendo:
— Quint estragava o menino. Fazia-lhe todas as vontades. Miles era como um brinquedo para o empregado do patrão.
— Só isso?
— Não, Miss... Ele era um homem intrometido. Dava opinião em qualquer assunto, inclusive na educação das crianças. Ele praticamente decidia a vida dos pequenos.
— Intrometia-se na vida das crianças? — perguntei, quase gritando de indignação
— O patrão confiava nele. Trouxe-o de Londres e disse que o sujeitoestava doente. Iria ficar aqui até melhorar, pois o ar do campo lhe faria bem.
— E a senhora nunca contou ao patrão sobre os modos de Quint?
— Eu tinha medo. Quint era inteligente e muito astuto. Acho também que o patrão não iria me ouvir.
— Como ele morreu?
— O homem bebia, Miss. Foi encontrado morto perto da taberna do vilarejo. As testemunhas disseram que ele escorregou e bateu a cabeça, mas ele andava com gente tão estranha que não sei não. Uma vez arrumou briga e chegou aqui todo machucado.
A partir do dia seguinte, por ordens minhas, Miles e Flora não podia mandar desacompanhados. Se Mrs. Grose ou eu não estivéssemos por perto, algum empregado ficaria de olho neles. A situação era difícil e eu agora me dava conta do tamanho do compromisso que assumira em Harley Street. Decidi enfrentá-lo como uma espécie de heroína. Eu iria proteger aquelas criaturinhas inocentes de todo e qualquer perigo que se apresentasse.
E ele de fato se apresentou. Era uma tarde ensolarada. Saí para dar um passeio com Flora, enquanto Miles preferiu ficar sentado no jardim lendo um livro. Era admirável o gosto de um garoto tão pequeno pela leitura! Deixei um dos empregados tomando conta dele e caminhei com minha aluninha em direção ao belo lago que havia em Bly. Influenciada pelos estudos de geografia, Flora estabeleceu que o lago seria o Mar de Azove e resolveu encenar uma peça no local. Com todo o seu jeitinho meigo de criança, pediu que eu me sentasse no banco de pedra sob uma árvore e pegasse um bordado, pois minha personagem teria que realizar trabalhos manuais.
Fiquei entretida com o bordado e com a adorável voz de Flora, que preparava, entusiasmada, o cenário para sua peça no Mar de Azove. Ela andava de um lado para o outro catando folhas e gravetos , que seriam usados para fazer um bote imaginário.
De repente, percebi que Flora e eu não estávamos sozinhas na beirado lago. Pensei, sem coragem de tirar os olhos do bordado, que poderia ser um empregado, ou talvez Miles, que tivesse se cansado da leitura, mas algo me dizia que a pessoa que estava por perto não era do bem.
Lentamente, levantei os olhos em direção à Flora, e foi nessa hora que me dei conta de que fazia cerca de um minuto que a pequena havia se calado. Ela brincava de costas para o lago, tentando construir um mastro de madeira para seu bote. Isso me fez tomar coragem, encher o peito de ar e olhar exatamente para o lago, para onde a menina voltava as costas. E então eu vi oque não poderia deixar de ver.
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A VOLTA DO PARAFUSO
Mistero / ThrillerO medo é algo fascinante, embora também seja aterrador.
