Hamles, o pequeno vilarejo

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Seis da manhã.

Pássaros cantavam em Hamles, anunciando a chegada de um novo dia.

Elisa acorda ao ouvir barulhos de um machado cortando pequenas toras de madeira ao lado de sua casa. Sabia, mesmo sem sair de sua cama, que era seu pai, já de pé e fazendo aquilo que tinha como motivos de vida: suas obrigações como homem do campo e chefe da família.

Elisa sabia também que era hora de se levantar e fazer o que era acostumada: cuidar de Teresa, a anciã do pequeno vilarejo de Hamles, e também sua melhor amiga.

O vilarejo de Hamles é um pequeno povoado localizado na Europa, longe de tudo e de todos e que se perdera no tempo, onde nem mesmo os grandes avanços tecnológicos foram capazes de alcançar. Contava com aproximadamente cem moradores, a sua maioria feita por senhores e senhoras que se recusavam sair do vilarejo junto dos filhos que buscavam crescimento e conhecimento, e que desde que partiram, nunca mais voltaram nem sequer para uma pequena visita.

Elisa, mesmo tendo apenas 20 anos como a maioria dos que partiam do vilarejo, ao contrário desses jovens, preferia ficar em Hamles. Gostava da vida no campo e sabia também que se quisesse ir pra algum lugar, não poderia contar com a presença de seu pai, Augusto, um senhor de 63 anos de idade e que, com suas mãos já calejadas, mantinha sua rotina diária da vida no campo como seu único motivo de vida desde o assassinato de Sarah, sua esposa, e mãe de Elisa.

- Bom dia Senhora Teresa, o seu café já esta pronto.

- Bom dia minha menina, você não sabe como agradeço a Deus por ter você cuidando de mim. - Teresa diz enquanto tenta se levantar sozinha da cama, até que é pega pelos braços de Elisa, que diz:

- Deixe que eu a ajude, não faça tanto esforço. A senhora sabe que é um prazer pra mim ajudá-la, ainda mais por saber que mora aqui sozinha. Já te falei que meu pai não se importaria em tê-la morando conosco em nossa casa.

- Minha filha, não há necessidade, moramos uma ao lado da outra. Sabes também que se eu morar com você e seu pai, esse vilarejo vai ser pequeno pra tanta falação. Não me espantaria se dissessem até que mesmo depois de velha eu queira roubar o posto que sua mãe deixou.

- Bobagem senhora Teresa, todo mundo sabe o carinho que temos uma pela outra. E, bem, você é como uma mãe pra mim, embora eu quisesse ter a minha verdadeira mãe aqui comigo.

- Todos nós a queríamos aqui minha filha. - Teresa diz, já cortando uma fatia do bolo de fubá que estava em uma mesinha ao lado da sua cama, e após uma pequena mordida, continua: - Sua mãe era a mais bela mulher desse vilarejo, e também a mais querida. Ela me lembra tanto você... vocês duas possuem a mesma cor de olhos, de cabelos, esses olhos profundos, castanhos tão clarinhos, e esse cabelo negro e comprido, sabe... é como se sua mãe e você fossem a mesma pessoa. - Ela encara Elisa que a ouvia atenta. - Ninguém soube como superar a morte dela, muito menos seu pai.

- Eu estaria sendo chata se... Pedisse que a senhora me contasse como tudo aconteceu na noite em que a encontrou morta? Sei que já me contou milhares de vezes, mas, mesmo tendo apenas dois anos naquela época, a cada vez que me conta, me parece que eu estou prestes a me recordar de algo.

Teresa baixou a cabeça como se aquele assunto não lhe agradesse mais, porém mesmo não querendo, contou toda a história:

- Estava chovendo muito naquele dia minha filha. Era setembro, mês em que a maioria dos homens do vilarejo costumam sair a noite pra caçar já que as nossas plantações nessa época do ano não costumam dar frutos. Nós mulheres ficávamos em casa a espera deles que costumavam chegar apenas quando o sol saísse. Sua mãe morava aqui ao meu lado, na mesma casa em que ainda moram você e seu pai. Tudo estava quieto, somente ouvíamos o barulho da chuva, quando um grito vindo de sua casa me agoniou. Eu sabia que sua mãe estava sozinha com você, na época uma criancinha ainda, por isso não demorei a me levantar da cama pra ir até lá ajuda-lá. E, assim que passei pela porta de casa pude ver alguém que nunca havia visto por aqui: um homem usando uma máscara branca que cobria metade do rosto e uma capa preta cobrindo todo teu corpo pulando a janela de sua casa.

- Era o tal mascarado né? O responsável pela morte de alguns moradores daqui e também pela roubo de colheitas e de animais. - Completou Elisa, interrompendo Teresa.

- Sim meu amor. O mascarado. O homem que assombra esse vilarejo a quase 20 anos, mas que ninguém nunca sequer viu o rosto verdadeiro ou conseguiu captura-lo. - Teresa morde mais uma fatia do bolo e continua. - Bem, eu esperei que ele sumisse de vista enquanto ele olhava pra trás, como se tivesse esquecido de algo. Eu corri até a janela onde ele havia pulado e encontrei sua mãe, caída, morta e provavelmente violada, já que estava sem nenhuma veste. Passei de casa em casa acordando todas as mulheres, e também o Thanus, que não havia ido a caça, já que na época ele se preparava pra assumir a posição do pai, e assim ser o novo chefe do vilarejo, para que ficassem alerta do perigo que nos rondava. Pela manhã, seu pai e os homens de Hamles já chegavam pouco a pouco, estavam cansados mas notaram em nossas olhares que algo estava acontecendo. Quando contei tudo a seu pai ele ficou tão perturbado que correu mata afora e ficou durante dias por ai, tentando achar o tal mascarado.

- E ele nunca o encontrou, o que fez meu pai se fechar e se sentir um derrotado por nunca ter vingado a morte de minha mãe.

- Exatamente, minha filha, seu pai nunca mais foi o mesmo desde então.

Elisa e Teresa continuaram a conversa enquanto tomavam o café.

Elisa sabia todos os detalhes daquela noite, mas ouvir a história lhe dava esperança de que pudesse recordar de algo, mesmo sabendo ser impossível já que na época tinha apenas dois anos de idade.

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Algumas horas se passam, e Elisa, como praticamente todos os dias preparou um balaio de roupas afim de lava-las no pequeno riacho a alguns metros de distância do vilarejo. Era costume das mulheres de Hamles irem lavar a roupa de todos os seus familiares ali, pela manhã, porém naquele dia nenhuma mulher além de Elisa estava a caminho do riacho.

Aproveitando estar sozinha, além de lavar as roupas, Elisa começa a jogar água pelo corpo, afim de se banhar também. Enquanto se molhava, passa a se lembrar da conversa com Teresa e de tudo o que passara com o pai desde o assassinato de sua mãe.

Augusto, seu pai, segundo Teresa era um dos homens mais felizes do vilarejo, tinha uma bela família e possuía as maiores plantações dali. Porém desde aquele dia, nunca mais havia conversado com nenhum morador de Hamles, nem mesmo Teresa. A única excessão era Thanus, já chefe do vilarejo e responsável pelas buscas naquela época pelo mascarado que se seguiram durante meses após o assassinato

Na mata só se ouvia o canto dos pássaros e o barulho da água caindo em seu corpo, até que o barulho de galhos quebrando como se estivessem sido pisados, chama a sua atenção.

- Olá? Alguém? Quem esta ai? - Grita, enquanto pequenos calafrios faz com que seu corpo se arrepie todo. - Oi? Alguém?

Elisa não sabia, mas alguém havia se aproximado do riacho e a observava. Era aquele que todos chamavam de Mascarado, aquele que o vilarejo acusava de ser o assassino de sua mãe.

MascaradoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora