Abro os olhos e observo a cama com lençóis brancos, equipamentos médicos por todos os lados.. Sim, eu estava no hospital!
Reviro os olhos, eu definitivamente odeio hospitais.
Fico uns instantes tentando lembrar o que aconteceu antes de eu apagar, mas desisto sabendo que não ia conseguir nada. Tenho que lembrar de perguntar para o Lucca depois.
Meus pais entram junto do médico, e que carrega uma prancheta nas mãos. ARGH!
--Bom dia Senhorita Garcia - É tão estranho quando alguém te chama de um jeito tão formal assim - Sou o Dr. Mário e estarei acompanhando você durante esse processo.
--Processo? Como assim? - eu só não tinha desmaiado?
--Bom, de acordo com o meu diagnóstico a sua queda não foi causada unicamente pelo puxão que o garoto te deu - Se ele sabe que um garoto me puxou, provavelmente a minha também sabe e é óbvio que ela tem plena noção de quem se trata.
--Sim, e? - eu queria objetividade, até porque queria sair logo desse lugar.
--Olha, vocês podem não estar preparadas para notícia.. - agora ele se referia à minha mãe também.
--Sim Dr. pode falar. A gente aguenta, né filha? - Ela começava a ficar assustada e, possivelmente, angustiada.
Eu apenas concordei, torcendo pra toda aquela palhaçada acabar logo.
--Bom, você tem Ataxia Hereditária, uma doença raríssima e sem cura... - O Dr. Não-Lembro-O-Nome falava dos conceitos médicos da doença, dos tratamentos, o que aconteceu para que eu portasse essa doença. Mas, eu apenas me desliguei de tudo e de todos e foquei em uma coisa.
Doença Rara (raríssima).
Sem Cura.
O que seria de mim agora? Vou completar 17 anos daqui 2 semanas e eu deveria estar indo pra festas, me divertindo com meus amigos, fazendo coisas erradas (não ilegais), das quais eu não me arrependeria.
Mas, não. Eu estou num hospital recebendo essa notícia. Mais triste ainda é perceber que ninguém se importa realmente comigo além dos meus pais.
Meu pai não pôde estar aqui porque está no trabalho. Meus amigos... Não tenho. Apesar de tamanha popularidade, não me sinto acolhida e, nem, muito menos, a primeira opção de alguém (nem mesmo o meu namorado)
Porém, a solidão e o silêncio pode ser o seu melhor amigo. Eles te ajudam à reorganizar seus pensamentos. E eu estou precisando disso.
...
--Sim, claro, pode entrar ela está no quarto dela - escutei a voz da minha mãe ao longe e em poucos segundos ela aparece no meu quarto acompanhada do Lucca.
--Ah, oi Lucca! Eai? - eu estava mal, sem dúvidas. Mas, era expert em mascarar meus sentimentos. Acho que a doença me ajudou a desenvolver esse dom.
--Eu to ótimo. An... e você? - Ele parecia estar escolhendo bem as palavras. Possivelmente, tinha medo de me machucar de alguma forma. Ele estava bem equivocado, acho que não teria como eu ficar mais machucada do que eu já estava.
--Eu to bem.
--Olha pelo lado bom, agora você tem desculpa para faltar a escola - Ele disse para descontrair. Eu gosto de pessoas com bom humor, mas decido curtir um pouco com a cara dele.
--Nossa, Lucca. Você me vê nessa situação e nem ao menos me respeita. Pensava que você tinha um pouco mais de noção - Fiz a cara mais ofendida que consegui e ele pareceu arrependido pela piada -- Mas, o que eu esperava, ne? Noção você não tem mesmo pra usar essa blusa listrada com esse short florido - Não aguentei e ri alto, não tão alto já que qualquer movimento que eu fazia doía na minha alma.
--Ah, sem graça. Eu fiquei mal achando que você não tinha gostado.
--Lucca, você pode continuar falar esse tipo de coisa. Ontem, quando eu cheguei na escola, você foi o único que me arrancou um sorriso e desde que eu sai do hospital você foi o único que conseguiu me tirar do poço em que eu me encontrava. Eu estava batendo uma papo muito legal com a Samara e você me puxa de lá. Obrigada - Faço um sinal para ele chegar mais perto e abraço ele. Foi um abraço desajeitado, mas, eu nunca fiquei tão feliz por esse gesto tão simples.
--Você é pessoa maravilhosa. Quando eu vi o que aquele cara fazia com você, eu me vi na obrigação de te ajudar. E que ótima escolha que eu fiz, viu? - Ele sorri de um jeito sincero. O fato de eu estar numa cama, muito machucada, engessada em algumas partes do meu corpo e com, provavelmente, olheiras e o cabelo bagunçado parece não abalar ele.
--Obrigada mesmo, Lucca.
--Aliás, meus amigos nunca me chamam de Lucca, eles me apelidaram de Luc - (lê-se "luke") - E como você já faz parte da minha vida, acho mais que certo você me chamar assim também.
--Certo, Luc. E você pode me chamar de Jo.
--Jo? - Ele pareceu confuso, mas não tirava o sorriso do rosto.
--É uma abreviação incomum de Marjorie. Poderia ser Mar? Poderia. E Marj? Poderia também. Mas Jo é mais simples de falar - Ele aceitou a explicação e continuou sorrindo. O sorriso dele estava começando a me chamar muita atenção, assim como os olhos dele.
Ocean Eyes.
Essa música nunca fez tanto sentindo antes.
I've been watching you for some time
Can't stop staring at those ocean eyes
Burning cities and napalm skies
Fifteen flares inside those ocean eyes
Your ocean eyesNo fair
You really know how to make me cry
When you give me those ocean eyes
I'm scared
I've never fallen from quite this high
Falling into your ocean eyes
Those ocean eyes---------------------------------------------------------------
Eu tenho observado você por algum tempo
Não posso parar de olhar para seus olhos de oceano
Cidades queimadas e céus de napalm
Quinze chamas dentro daqueles olhos de oceano
Seus olhos de oceanoNão é justo
Você realmente sabe como me fazer chorar
Quando você me olha com esses olhos de oceano
Eu estou assustada
Eu nunca caí de tão alto
Caindo em seus olhos de oceano
Esses olhos de oceano--------------------------------------------------------------------
Os olhos azuis dele me traziam paz, mas, ao mesmo tempo, eu tinha impressão de que eles comportavam muita dor. Eu descobriria. E eu ajudaria ele, assim como ele está me ajudando.
Engraçado como algumas pessoas podem se tornar especiais em tão pouco tempo. Isso de "amizade de anos é a mais verdadeira" é, ironicamente, a maior mentira que eu já ouvi.
Além de Stella, eu era amiga da Aurora, mas nos afastamos depois que eu comecei a namorar com o Aaron. Conhecia ela desde o primeiro ano do fundamental, éramos carne e unha. Stella havia dito que como Aurora não era popular, não seria bom para minha popularidade eu continuar andando com ela. Achei isso uma idiotice, mas aceitei. Porém, não tratei ela mal, de forma nenhuma, apenas fui me afastando com o tempo. Até porque ela fez parte da minha infância e grande parte da adolescência e seria incabível ser explicitamente idiota com ela.
Mas, a questão é: depois de anos de amizade ela não teve coragem de me visitar para ver como eu estava.
Quando a mãe dela morreu, no início desse ano, eu fui ao velório e ao enterro e fiquei o tempo todo ao lado dela. Demonstrando que, apesar de estarmos afastadas, eu sempre consideraria ela como uma irmã.
Engraçado que, quando não somos o centro das atenções não nos importamos com mais nada.
Entretanto, eu me considero uma pessoa com um bom coração. Assim, se em algum dia ela precisar de mim, não pensaria duas vezes em me deixar a disposição dela.
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Frágil
Fiksi UmumMarjorie, uma garota que nos auge dos seus 16 anos descobre portar uma doença rara e grave. A Ataxia Hereditária é uma doença que afeta principalmente os ossos, fazendo com que a pessoa que contém essa doença perca os movimentos do corpo, perca gra...