Em Busca Do Alimento

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Chegou à hora de comer, essa era a parte pior porque não tínhamos nada na dispensa. No café da manhã, no almoço e na janta, passávamos o maior sufoco, ou seja, precisávamos ir bater de porta em porta pedindo alimentos, alguns trocados, o que os outros pudessem ajudar, para então chegar a casa e termos o que comer.
Meu pai com sua carroça, saia pelas ruas comigo e meus irmãos a procura de SUCATA: latinhas, ferro velho, papelão, alumínio etc. O que desse para vende, nós íamos ajuntando o que achávamos. Andávamos bastante, às vezes de uma cidade a outra em busca de ajuda, de casa em casa pedindo, a pé, fazia sol, chuva, mas íamos assim mesmo. Sorte quando ganhávamos alguma coisa, outras vezes nós voltávamos para casa com quase nada. Para preparar as refeições, cozinhávamos no fogão a lenha feita no chão, com dois blocos e uma grade achada. Pegávamos cascas de coco com um conhecido, ele era vendedor de cocadas. Também íamos à feira pegar caixotes quebrados ou procurávamos pedaços de madeira  pelos matos e assim acendíamos as madeiras para cozinhar. Era difícil de acender quando estava chovendo, as madeiras molhavam e complicava ainda mais. Nem sempre conseguíamos, consequentemente não dava para fazer a comida. Como não restava alternativa, se contentávamos com as bolachas água e sal ou alguns pães "amanhecidos", era como nós chamávamos, os quais ganhávamos das pradarias. Quando não tínhamos opção tomávamos café puro com farinha de mandioca, polenta, arroz cozido, comíamos o que sobrava do dia anterior. Na geladeira era raro encontrar mistura, só quando nós saímos para pedir nos açougues "retalhos de carne", as sobras  que não utilizavam para vender, alguns açougueiros davam-nos com boa vontade, já outros davam uma não como resposta. Vivíamos dessa forma o dia a dia para conseguir o que comer. Os dias de feira eram mais um meio de correr atrás do alimento. Eu e meus irmãos, juntamente com nosso pai percorríamos as bancas na tentativa de acharmos algumas frutas ou legumes pelo chão, o que desce para aproveitar nós pegávamos, mesmo estando com alguma parte estragada. Ficávamos alegres quando chegávamos a casa e víamos a carroça com bastantes mercadorias, durava  alguns dias. Quando acabavam as coisas fazíamos tudo novamente, a mesma rotina, a luta era constante. Muitas vezes passávamos o dia inteiro pedindo esmola, um pouco de arroz, feijão, açúcar, leite, etc. Andávamos tanto, que, precisávamos pedir um pouco de comida pronta para comer, ali mesmo na rua, sentados na calçada e então poder continuar a jornada. Tudo ocorria conforme o combinado durante o dia, porém nosso pai não conseguia permanecer por muito tempo sem bebida alcoólica, quando ganhava alguns trocados ele parava em algum bar, para tomar uma dose de pinga, o problema começava quando ele passava de uma para duas, três doses. Bebia até cair pelas calçadas e nós tínhamos que esperar ele acordar do sono profundo que caia na maioria das vezes. Meus irmãos e eu ficávamos lá chamando, tentando acordá–lo para irmos embora. As pessoas passavam  olhando, alguns até ajudavam a levar meu pai para casa e nós puxávamos a carroça porque ele não conseguia, mesmo quando tentava ia para o meio da pista, e nós puxava – o para o acostamento, mas ele bêbado demais não conseguia andar em linha reta.

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