Majin não aceitava não ser o primeiro a saber daquilo que se passasse à sua volta. Por isso, contrariando seu pai, o jovem príncipe escapou do castelo, seguindo para o local onde aquela estranha luz havia caído, algumas horas antes.
Pelo caminho, devidamente disfarçado em sua forma humanóide, o jovem demônio ouvia os humanos dizerem que era uma "estrela cadente". Ele não sabia o que era isso, mas sabia que a coisa era poderosa. Talvez uma fonte de poder inesgotável. Tudo o que o aspirante a rei desejava. Poder o bastante para vencer seu pai.
Obrigado a ocultar seus poderes, Majin demorou muito além do necessário para encontrar o local onde a coisa havia caído. Era alta madruga, não havia lua aquela noite. Mas o breu no o impediu de ver.
Deitada no chão cheio de folhas e pétalas, culpa do que os humanos chamavam de outono, havia uma moça.
Ela era extremamente alta, de pernas muito longas e atípicas para a raça dos humanos. Mesmo para as raças demoníacas aquela altura era pouco usual. Tinha oito imensas asas, com penas que pareciam ouro vermelho. Os cabelos cor de vinho eram de uma cor forte. A pele era branca, mas não impecável. Haviam diversas cicatrizes espalhadas por toda a pele que ele podia ver.
Ela estava descalça e trajava um simples e leve vestido negro, não usava joias ou portava uma espada. Ela não parecia um membro comum do Clã das Deusas. Somente as asas a identificavam.
Corajoso, o príncipe se aproximou, abaixando perto daquela estranha figura. Ela tinha um cheiro gostoso. Como macieiras no outono... E terra molhada de orvalho. Majin logo se viu refletido nos grandes e brilhantes olhos azuis da criatura.
A moça estava completamente confusa. Ela não conhecia seu observador. Sabia que ele não era humano, mas não o achou parecido com um dos Demônios que ela havia visto. Tentou se mover, mas a dor em suas asas imediatamente fez lágrimas brotarem de seus olhos.
Majin acabou capturando uma das lágrimas com a ponta dos dedos. Elas eram de tinta. Negras como as chamas do purgatório.
-Quem é você?
-Caos...-A voz veio tão baixa que o príncipe chegou a duvidar da própria audição.-Você...
-Sou do Clã dos Demônios.-Majin invocou sua imensa espada, sem querer admitir que fez isso sem a menor das intenções de machucar a moça. Olhando com atenção, ele percebeu o quão quebradas estavam as asas dela.-E você é uma das Deusas.
Ela arregalou os olhos azuis, visivelmente entrando em desespero.
-Não... Por favor... Não... Elas... Tortura... Por favor... Mate...
-Você... Quer que eu mate você?- Ela acenou freneticamente, antes começar a esquadrinhar o céu com olhos inquietos.-Está com medo das outras deusas?
Ela estava ofegando, como se tivesse dificuldade pra respirar. Então Majin decidiu que ia levar a criatura consigo até o castelo. A pegou no colo com mais cuidado do que deveria. Ouvia os ossinhos das asas estalarem enquanto ela se agarrava em seus ombros. O rosto torcido de dor.
O rei-demônio observava seu filho da janela da sala do trono. Esperou, paciente, até Majin chegar a ele, com sua carga preciosa.
-Uma das Deusas em meu castelo... Quanto orgulho quer me trazer, Majin?
O príncipe deu um olhar urgente ao pai, que dispensou todos os guardas, se aproximando do rapaz.
-Eu não a capturei, pai. Ela já estava totalmente ferida quando cheguei... Olhe o que fizeram com as asas dela.
O rei avaliou a figura, e se surpreendeu com o sorriso doce que ganhou.
-Majes... Tade... Pe-perdão...
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Okãsan No Kokoro
FanfictionO amor de uma mãe pode ter consequências impensáveis. De desafiar os homens mais poderosos, à ensinar seus filho a amar, ou condená-los a uma prisão por milhares de anos em nome de sua proteção. A incerteza do destino tido por uma mãe pode levar os...