Capítulo 03

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Eu sabia, através de uma certeza enroscada em tudo o que me pertence, que no universo não haveria de existir outra criatura tal qual a que se punha em minha frente. Não seria possível existir figura mais bela e cálida, aparição onírica que outrora eu chamaria de causadora da minha cólera. O pronunciamento do seu nome como uma revelação, a proximidade de sua carne como uma lição. O que devo aprender aqui? Poderia fazer o mais singelo pedido, pois eu sabia que minha alma o pertenceria por toda a vida.

A luz da lua projetava um circulo principal no cômodo, e sozinha era suficiente para colorir de sua cor a minha própria palidez. Senti-me arrepiar e, de longe, a Diana observava o inferno de distância que havia entre nós, antecipando um vendaval invasor que viajava tortuoso por entre nossos corpos, no meio do desejo uno e crescente, nosso abrigo legítimo.

-Por que você está aqui?

-Isso é outro sonho?

As falas se confundiam, pois a quem pertence cada dizer é irrelevante. A pergunta que eu o fizesse teria a mesma resposta caso o questionamento fosse feito a mim. Nós dois eramos o um do outro e o outro do um. 

-O que sinto sempre que a vejo em meus sonhos me machuca. Me machuca tão profundamente que não poderia esperar que entendesse..

-Eu sinto o mesmo.

-Mas porquê? -ele disse visivelmente consternado.

-Esperava que você pudesse me dizer isso. De alguma forma, aqui estou.

Cada momento a sua frente era um sopro e um suspiro. Eu empurrava o ar para fora na intenção de continuar respirando, queria tirar aquela confusão de cima de seu olhar. Tremia dos pés a cabeça, pois me horripilava a sua presença a medida que ardia a sua proximidade.

-Queria te tocar para saber que se é real. -eu disse.

-Tente. Tente me tocar, por favor. -suplicou.

O uivo contínuo do vento compunha uma melodia infernal, e o rangido da madeira ao meu primeiro passo orquestrava a harmonia do concerto. No levante da minha mão, a agonia caminhava pelo meu braço. A antecipação do que poderia sentir seria mortal, se não estivesse em duelo com a satisfação da minha extravagância carnal. Eu não queria tocá-lo, eu precisava disso. E precisa fazê-lo para ter certeza de que sua presença não seria levada de mim mais uma vez, e que a doçura dos seus olhos seria, para mim, o nutriente mais valioso da vida. Á distância de um atómo, mergulhei o toque profano dos meus dedos imundos na tez de seu rosto. Gélido.

-O que sente?

-Frio.

-O que sente?

-Medo. -Na confusão dos meus sentidos, pulsava aquele instindo ancestral. Que era este ser? Não sei.

-Não sinto o seu toque. Não sinto nada. Tente sentir meu coração. -pondo a mão sobre seu peito o senti pulsar, anunciando sua presença através de um ritmo gaiato e feliz. -Eu vivo, afinal.

-Como chegou aqui? Há quanto tempo sonha? Por quanto tempo me espera? Eu preciso saber. Juntos podemos descobrir porque isso acontece. -eu disse.

-Só consigo lembrar dos sonhos. Quando durmo te encontro, e quando acordo te desejo. Há uma saudade envolvida, mas saudade de alguém que jamais vira, até então. Não sei nada de quem sou, como uma página avulsa de um livro cujo resto se perdeu. Mas sei quem você é, Joanne, e preciso encontrá-la.

-Mas já nos encontramos... -eu disse tentando confortar seu apelo, e  percebendo a informação adicional em sua fala. -Espere, eu não cheguei a lhe dizer meu nome, como pode saber?

O vento uivou seu ponto mais alto e fez soar sua última ordem. De supetão, e pela vez a qual não consigo mais contar, o vi sendo afastado de mim, esvaindo-se dali meu espírito se incomodava com a incompletude que sentia.

Vi-me imersa numa viagem de desconhecimento. O que é o meu amor? Encontrei uma falta de respostas que nada poderia me responder, mas me perguntando tudo o que eu mais queria saber, disse: o que ele é?

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⏰ Última atualização: Aug 26, 2019 ⏰

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