A estrela amarela
Zayan não era um homem infeliz, mas tinha as suas saudades. As noites eram longas demais para alguém que não tinha uma mulher para dividir o leito e os dias eram demasiado árduos para lutar pelo pão que ele deveria comer sozinho. No chalé que ele chamava de lar imperava o silêncio. Não havia abraços, nem sorrisos, nem crianças correndo ao redor da mesa. As palavras que ele aprendia nos livros nunca eram ditas. Não havia quem as escutasse. Seus companheiros eram os pássaros, o vento e as estrelas.
Havia uma estrela em especial a qual Zayan contemplava. Considerava-a sua estrela guia. A ela direcionava seus pensamentos, suas orações e seus pedidos mais íntimos. À vezes conversava com a tal estrela em voz alta. Outras vezes apenas dentro da própria mente. Fez dela sua amiga. Era uma estrela amarelada, pequena, e surgia quando a noite começava a despontar. Ficava acima do cume das montanhas, geralmente afastada da Lua, bem longe da linha onde os pinheiros circundam os veios traçados pelo degelo da neve semi-eterna. Zayan chamava a sua estrela de Zahirah, justamente em razão de seu brilho.
Aquela parecia ser uma noite comum para o povoado de Yusra. Nada de novo acontecia desde a primavera anterior, quando as rosas-de-saron finalmente floresceram depois de quase três anos de sono profundo. Zayan preparou sua coalhada como de costume, e sentou nos degraus da entrada principal de sua casa, para esperar o cair da noite. Suas pernas estavam doendo mais do que o habitual e sentia uma fisgada nas costas por conta das sacas de grão de bico que havia empilhado a tarde toda no celeiro. Não era homem de reclamar. Guardava a dor para si mesmo. Não tinha com quem se queixar. E mesmo que tivesse, reclamar das consequências do trabalho não seria algo digno.
Quando o Sol se pôs, revelou uma noite que em nada tinha de comum. A Lua surgiu gigantesca, redonda e extremamente brilhante, muito maior do que qualquer pessoa naquela comunidade já tinha visto antes. Iluminou abundantemente todo o vale, as encostas e os topos das montanhas, ofuscando as estrelas e destacando-se no contraste negro do céu. Era uma Super Lua, que futuramente os astrônomos explicariam ser originada pelo fenômeno denominado Perigeu Lunar. Zayan estava tão impressionado como qualquer outro morador do vale. Desejou apenas por um momento ser um desenhista, ou pintor, para poder registrar aquela imagem do céu em uma tela. Zayan se lembrou de Zahirah e percorreu os olhos pelo céu a sua procura. O brilho da Lua ofuscara todas as estrelas. Onde estava a estrela amarela? Nunca houve uma noite em que ele não avistasse a estrela amarela. Seria aquela noite uma exceção?
Lá estava ela. No mesmo lugar. Com o mesmo brilho. Mas... Havia algo diferente. Zayan sentiu o estômago revirar. Seu coração foi pressionado contra o peito. A Super Lua, com o seu brilho extraordinário, permitia uma visão melhor de todos os ângulos do vale, e dos cumes das montanhas. O lavrador ele se sentiu envergonhado. Zahirah, com sua luz amarela, ainda estava lá. Mas não era uma estrela. Era um chalé com uma lamparina acesa.
Na manhã seguinte, o lavrador teve dificuldades para se levantar da cama. As dores no corpo lhe causavam transtorno. Além disso, a descoberta da noite anterior havia lhe causado um dano terrível à alma. Sentia-se uma criança tola ao lembrar-se das conversas íntimas que havia travado com a estrela amarela, dos pedidos cheios de esperanças que havia feito, das orações sinceras de fé que havia proferido. Tudo em vão, tudo ao vento. Não era estrela nenhuma. Zahirah não passava de uma ilusão.
Já não bastasse suas dores físicas e seu luto pela estrela que jamais existiu, correu na vila um boato de que um carregamento de querosene tinha sido roubado e se fazia urgente que as casas começassem a economizar. Não se tinha previsão de quando a próxima leva seria enviada. As famílias ficaram alarmadas. Zayan se manteve à parte das discussões. Estava desmotivado. Não tinha porque lutar. Continuou fazendo o que sempre fazia todos os dias, no mesmo horário, da mesma maneira. Não conversava mais com Zahirah, pois Zahirah nunca existiu. Mas o hábito de sentar na porta de casa para jantar, enquanto fixava os olhos no brilho da luz amarela permaneceu. Não poderia ser diferente. Nunca ouvira falar de alguém que morasse no alto das montanhas de Yusra. Lá era tão gelado! Quem será que morava lá?
O problema do combustível se agravou. Zayan guardara alguns galões em casa, sem contar a ninguém. Se o problema fosse realmente gravíssimo, temia que os saques começassem a ocorrer cedo ou tarde. Não tinha aprendido a confiar em ninguém. Era homem reservado e sério. Seus segredos e agora o seu querosene eram trancados a sete chaves. Naquela noite Zayan comeu coalhada fria. Não tinha necessidade de esquentar. Preferia economizar para o inverno. Sentou na porta de sua casa. Queria forrar o estômago e esticar as pernas. Dormiria mais cedo, para evitar manter as luzes acesas sem necessidade. Olhou para a montanha e pela primeira vez em todos aqueles anos não viu a luz amarela. E pela primeira vez o problema da escassez do querosene realmente o afetou.
Na noite seguinte a luz amarela não surgiu novamente, nem na outra noite, nem nas seguintes. O que teria acontecido? O querosene... Os moradores teriam abandonado o chalé ou estariam presos lá em cima? Estariam bem ou precisando de ajuda? Quem de fato seriam eles? Aquelas dúvidas começaram a corroer o coração e a mente de Zayan cada vez mais e ele já não conseguia mais dormir, nem comer, nem trabalhar. Precisava saber a verdade. Precisava descobrir o que estava acontecendo. Precisava descobrir o mistério daquele chalé/estrela. Zahirah era uma ilusão. Ainda assim, tinha algum significado para ele. Era uma manhã de poucas nuvens e vento agradável quando o lavrador partiu carregando nas costas uma barraca de acampamento e uma mochila abastecida, rumo ao alto da montanha, em busca da luz amarela. Em busca de Zahirah.
