Em uma típica noite de inverno do sul do país, Dolores está sentada em sua poltrona confortável, à beira da lareira, olhando para as sombras que ela produz. A vida já não lhe parece tão agradável. Se a morte lhe batesse à porta naquele momento, seria para ela um alívio. Deixaria seu fardo ali, naquele apartamento, e subiria com seu espírito leve para os lugares mais secretos que o céu pode guardar. Mas Dolores sabe que a morte não vai chegar naquela noite. Seria muito bom para ser verdade e, se fosse, ninguém sairia ferido. Mas ela estava ferida, sim muito ferida. Feridas antigas, ainda abertas, mal curadas, jamais esquecidas, que dilaceravam seu coração todos os dias... E todas as noites. Ela sabe que seu filho não volta mais. E a palavra "nunca" tem um peso muito grande. Fora uma perda irreparável. Dias de desespero e dor. Dolores pensou que morreria ali mesmo, deitada sobre o corpo frio de seu tão querido filho. De que adiantava um belo caixão? De que serviriam belas coroas de flores? Para quem seriam aquelas palavras que o padre pronunciava? Dolores não ouvia nada, não via ninguém. Seus olhos estavam fixados nos olhos de seu filho. Olhos que nunca mais se abririam, seus ouvidos estavam atentos aos lábios daquele cadáver gélido. Uma insana esperança de ouvi-lo respirar novamente e de vê-lo sorrir deixava-a confusa. Abraços, palavras de consolo, telefonemas amigos e, no fim, solidão. As pessoas logo se cansaram de ouvi-la se lamentar. Se afastaram para poder continuar vivendo suas movimentadas vidas longe de todo aquele luto que Dolores se recusava em deixar. Que fossem embora! Ela não se importava. Nada mais importava. Ela queria ficar ali, sozinha com sua dor. Estava cansada de todos os conselhos mesquinhos dizendo o que ela deveria ou não fazer, como ela deveria ou não agir. Teria o luto também hora marcada? Haveria um limite para o lamento e a dor? "Você não pode se entregar", era o que diziam. "Você precisa superar". "Você ainda é nova, tem a vida pela frente". "Seja forte". Tolice! Não sabiam o que estavam dizendo! Ela queria se entregar àquela dor, jamais poderia superar. Como superar a perda de um filho? Superar seria o mesmo que esquecer. Voltar a sorrir seria o mesmo que não se importar mais. Continuar a viver significava continuar a sonhar, mas Dolores não tinha mais sonhos. Estava vazia.
Isaque avistou a janela aberta. Seria fácil entrar. Escalou o muro e subiu pela escada de incêndio até o terceiro andar. Nada complicado para um jovem ágil feito ele. O apartamento estava completamente escuro, a não ser pela chama da lareira que já se extinguia na sala. Ele entrou. Esbarrou em uma mesinha e alguma coisa caiu, estilhaçando-se. Dolores ouviu o barulho, mas não deu importância. Com o rosto enterrado em uma das mãos, fazia esforço para deixar o ar entrar e sair de seu peito apertado de dor.
O invasor entrou no quarto e começou a encher a mochila com tudo o que parecia ter algum valor. Chegou a pensar que não tinha ninguém em casa, até que ouviu um choro baixinho. Temeu a polícia e se apressou em sair dali. Olhou em direção à sala, uma mulher, sentada em uma poltrona, soluçava tristemente. Ele se aproximou da janela para ir embora. Mas... Quem seria ela? O que lhe teria acontecido? Mais uma vez fez menção de sair pela mesma janela por onde entrou, mas o choro daquela mulher o intrigava. Ele deixou a mochila a um canto e se aproximou. Os passos dele foram ouvidos por Dolores que, sem levantar os olhos encharcados de lágrimas, lhe disse com a voz trêmula:
— Pode ir embora, leve tudo o que quiser. Não chamarei a polícia e não me importarei em ficar sem estas coisas. Nada mais me resta. Tudo o que me levar neste momento não se compara àquilo que realmente foi perdido.
— O que foi perdido? — ele perguntou.
— Aquilo que o dinheiro não pode comprar: a vida.
— Eu... Sinto muito.
— Sente? É... Eu também.
— Não fique assim, tudo vai ficar bem.
— Oh, meu jovem... Isso era o que eu mais queria ouvir. Mas não da sua boca e sim da boca de Deus.
