Oii, voltei! Não me matem, boa leitura!
Música: Way Down We Go - Kaleo
Author's POV.
O chão gélido e molhado fazia o pé alvo contorcer-se com o contato. Mary caminhou lentamente, não conseguia ver nada em sua frente, mas algo lhe dizia que deveria continuar caminhando. Somente quando o seu corpo atravessou as portas de madeira talhadas com um brasão, até então desconhecido, a princesa pôde observar onde estava pisando, ou melhor, no quê estava pisando.
A barra do vestido, antes tão branca, agora estava manchada de vermelho vivo, o tipo de cor que só poderia ter saído de um lugar: sangue.
A princesa congelou assim que percebeu o que havia acontecido. Observou os rostos desconhecidos caídos ao chão, e sentiu seu coração comprimir-se em dor. Empatia. Sentia empatia pelas pessoas que haviam morrido, e nem ao menos sabia a razão daquilo.
Continuo caminhando e sofrendo por aqueles que não estavam mais ali, sentia uma dor genuína pela perda daquelas pessoas, sentia seu coração pesar. Mas absolutamente dor alguma poderia preparar a princesa para o rosto que surgiu à sua frente.
Francis.
Já experimentaram a dor de perder a pessoa que mais amam no mundo? Aquela que lhe traz equilíbrio não só no dia a dia, mas na alma? É como um grito ecoando no vazio. Não importa o quanto se tente, aquela dor nunca irá cessar.
A princesa ajoelhou-se ao lado do homem, não se importando de sujar-se ainda mais com o sangue no chão. Era o sangue de seu amado. Tocou o rosto do príncipe em desespero, como se de alguma forma esperasse que ao senti-la, Francis despertaria novamente e ela pudesse ver o sorriso que tanto amava.
Mas isso não aconteceu. Francis estava morto.
Para quem correr quando a luz da sua alma se apaga?
Mary não sabia, e ao se levantar em choque, a princesa continuou a percorrer e observar os corpos jogados no chão, os olhos abertos como se a encarassem. Como se a condenassem. Desnorteada, a morena acabou por tropeçar e ir ao encontro de olhos verdes, que uma vez haviam sido tão vivos, mas naquele momento estavam frio como o gelo.
Olhou mas uma vez, se afastando para poder ter dimensão da face daquele homem, e ao perceber quem era, um grito de desespero travou novamente em sua garganta. Steve Maxi-Romanoff estava jogado ao chão, sua garganta coberta de sangue e seus olhos frios focavam diretamente os olhos de Mary. A mão de esquerda de Steve estava estendida, e segurava algo tão firmemente que Mary não deixou de notar.
Steve segurava as mãos de sua irmã mais nova, Natasha. Ao contrário do irmão, a loira tinha os olhos fechados, e não estava coberta de sangue, mas sua pele estava completamente vermelha, com alguma cicatrizes abaixo dos olhos. Era como se as lágrimas de Natasha a tivessem marcado, a tivessem ferido...
Ao lado do corpo de Natasha, algo chamou a atenção de Mary. Um anel brilhava e a fez desviar o olhar para um corpo pálido muito próximo ao da mulher, era como se tentasse, de alguma forma, segurar a mão da loira. Mary se aproximou com calma, e tocando lentamente a mecha de cabelo, revelou a identidade da possuidora do anel.
Carolina estava com o rosto e a parte da frente do corpo completamente intactos, porém Mary pôde notar que o tecido de sua blusa estava completamente retalhado nas costas. Havia sido atingida pelas costas, e sequer havia tido chance de se defender.
Quem seria covarde o suficiente para atacar sua amiga pelas costas?
Sentou-se ao lado da loira, e sem conseguir se controlar, gritou de dor. Havia perdido tudo. Sua melhor amiga, sua amado, seus amigos...tudo havia sido tirado dela, sem que a princesa ao menos soubesse a razão para tal.
No ápice de seu desespero, agarrou-se ao corpo de Carolina e chorou. Seu corpo tremia abraçado ao corpo sem vida de sua amiga, e o frio na alma de Mary cresceu cada vez mais.
Permaneceu assim por alguns minutos, até que gritos ritmados a despertaram de seu transe, fazendo-a levantar rapidamente e olhar para trás. Viu uma silhueta negra sentada na cadeira que estava cuidadosamente posicionada no centro da sala, e ao seu lado duas cruzes brilhavam, como se estivessem em chamas.
Mary continuou a respirar fundo e andar. Deveria ser um sonho, tinha que ser um sonho! Os olhares mortos das pessoas a queimavam de dentro para fora, algo que fazia a princesa querer gritar! Não sabia quem era a pessoa a sua frente, mas tinha certeza que era a responsável pela morte de todas aquelas pessoas, e isso fazia o seu sangue ferver ainda mais.
Os gritos ainda eram altos e a perturbavam, mas a princesa não conseguia distinguir o que estavam gritando, ou para quem estavam gritando, mas naquele momento, nada daquilo a importava. Seu olhar estava fixo na pessoa sentada à sua frente.
Andou mais alguns metros até que pudesse finalmente estar frente a frente com a responsável por toda a dor desferida contra si e seus amigos. Cada passo que deu parecia cortá-la de dentro para fora, e Mary receou em perguntar, mas não aguentaria não saber.
- Quem você é? - Mary gritou.
Silêncio.
- Por que fez isso com eles? - Continuou a perguntar.
Silêncio.
- O que eles fizeram contra você? - A princesa estava a ponto de chorar.
- Eles foram contra o que eu acredito. A fé católica deve prevalecer. - a voz respondeu, arrepiando a espinha de Mary.
- Quem é você para matar em nome de Deus? - Mary agora tremia de ódio.
Todos aqueles que amava haviam morrido pela vontade de uma pessoa desprezível e mimada.
- Não banque a boazinha. Você é tão capaz disso quanto eu. - a voz falou, remexendo-se na cadeira.
- Eu nunca mataria as pessoas que amo por não pensarem como eu. - a voz de Mary fraquejou.
- Olhe ao redor Mary, uma religião precisa prevalecer, e nós vencemos. - a voz parecia feliz, e silhueta ergueu-se da cadeira, saindo da escuridão e revelando a sua verdadeira identidade.
- Nós? Eu não tenho nada a ver com isso. - Mary falou, olha incrédula para a pessoa à sua frente.
Falava consigo mesma, mas diferentemente da princesa, a mulher que surgiu da sombras possuía roupas vermelhas, e uma coroa encrustada de rubis em sua cabeça. Seus olhos vermelhos denunciavam o ódio que sentia daquelas pessoas. Sorria com escárnio e desprezo. Havia vencido.
- Tem certeza? - a Rainha Mary perguntou, olhando para os pés da princesa e depois para a sua mão direita.
Mary acompanhou o olhar da rainha e sentiu o choro subir tão rapidamente a sua garganta, que julgou-se incapaz de respirar. Olhou primeiro para o punhal sujo de sangue em suas mãos, e depois para o corpo estirado à seus pés. Seu pé direito estava exatamente em cima do coração de Wanda Maxi-Romanoff, como se ao pisar na loira, a mulher pisasse também os seus pensamentos, suas crenças e principalmente, a sua alma.
Conforme Mary tomava conhecimento do que realmente havia acontecido naquela sala, o sorriso da Rainha se expandia. Os gritos, antes tão confusos, começavam a fazer sentido para os ouvidos de Mary, que sentiu a sua própria alma estremecer ao entender o que todos diziam para si.
Deus salve a Rainha!
Ela havia feito. Mary havia matado todos aqueles que amava. Mary era a culpada.
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Inner Circle - Season II
Espiritual"Não se trata de vingança, é reparação histórica." - Wanda Maxi-Romanoff.
