capítulo 2

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Madhu estava presa, encolhida numa pequena gaiola que
fedia carniça. Seu pânico aumentava ao saber que logo o grande
Dragão iria acordar para devorá-la. O mínimo barulho poderia
acordá-lo. Por isso respirava sem produzir nenhum ruído. Mas
sabia que seu esforço só estava postergando o inevitável: iria
morrer.
O Dragão acordou, abriu seus vorazes olhos vermelhos
que revelavam vigorosa fome ao ver sua presa engaiolada. Sua
baba gosmenta escorria lentamente pelos cantos de sua enorme
boca semiaberta. Aproximou-se vagarosamente da gaiola com o
olhar fulminante. Usou sua destemida garra para abrir a gaiola
e, ao abri-la, devorou seu jantar numa única bocada.
Madhu acordou sem fôlego, com a camiseta úmida de suor
grudada no corpo. Nunca teve um pesadelo tão impiedoso. Olhou
ao redor, pelo menos agora sabia onde estava. Shambala! –
lembrou-se. Só não sabia por que estava presa naquela fascinante
cidade de faz de conta e ansiava por uma resposta. Mas não antes
de comer. Estava com o estômago reclamando de fome.
Na noite anterior, assim que Liv saiu do quarto e fechou a
porta, Madhu se jogou na cama e dormiu em poucos minutos,
ignorando sua fome de tão cansada.
Precisava tirar a roupa suada e colocar outra limpa. Foi até
o baú e, ao abri-lo ficou espavorida ao ver todas as suas roupas.
Como é possível? – pensou. Parecia não estar faltando nenhuma
peça. Trocou-se e desceu a escada seguindo direto para a cozinha.
Entrando na cozinha, teve a bela visão de dois sóis através
da janela. Sentiu um cheiro perfumado que despertou ainda mais
seu apetite. Notou que o delicioso aroma vinha das inusitadas
frutas amarelas que estavam num cesto na mesa de centro da
cozinha. Sua fome era tamanha que catou uma fruta e deu uma
imensa mordida. E não se arrependeu nem um pouco: era a fruta
mais saborosa que já havia experimentado na vida, nada se
comparava àquele sabor! Quando estava devorando a terceira
fruta, Liv aparece pela porta da cozinha que dava para o jardim
nos fundos da casa.
– Sabia que iria adorar as shishades, não há quem resista.
Colhi pensando em você que, a propósito, está atrasada.
– Bom dia para você também, Liv – disse Madhu, com a
boca cheia de shishades. – Atrasada?
– Nero, o assessor da sua conselheira, deve estar
chegando, e sua boca está suja de shishades. Meu Vishnu,
terráquea! Nem aprendeu a comer direito sem se lambuzar no seu
planeta primitivo? Deixe-me ajudá-la – Liv catou um pano de
prato pendurado próximo da pia, se aproximou de Madhu com o
suave tecido alienígena e limpou o canto da boca de Madhu dos
restos de shishades.
– Obrigada. Pode deixar que eu mesma limpo. – Madhu
pegou o tecido da mão de Liv e terminou de limpar sua boca.
O doce deleite com as shishades fez com que Madhu se
esquecesse do importante encontro com a sua conselheira. Estava
ansiosa em vê-la, pois esperava que todo o mistério sobre sua
abdução fosse esclarecido.
– Preciso lavar as mãos. – Madhu seguia em direção à pia
da cozinha quando ouviu batidas na porta da entrada da casa.
– Pode ir lavar as mãos, eu abro – disse Liv, seguindo para
abrir a porta.
Logo depois, Madhu foi até a porta da frente e viu um
imponente jovem alto e magro, de pele branca, cabelo curto
castanho-escuro com corte estilo Beatles e orelhas pontudas como
as de um elfo. Ele já estava montado elegantemente numa vinama
xi, olhando para Madhu.
– Olá, senhorita Madhu, eu sou Nero. Vim buscá-la para
o encontro com a sua conselheira, Tarala Shanata.
– Híbrido? – Madhu sussurrou discretamente no ouvido
de Liv, que estava bem ao seu lado. E, no mesmo instante, Madhu
pareceu ter visto um sorriso disfarçado no canto da boca de Nero.
Contudo, Madhu não conhecia a relevante capacidade auditiva de
um androide e acreditava que ele não pudesse ter lhe ouvido.
– Androide – respondeu Liv. – Boa sorte, Madhu! E não
se esqueça de que hoje temos uma festa na praia.
Madhu subiu na vinama xi, e partiram. Sentia-se
plenamente restaurada depois de ter comido shishades.
No trajeto, listou mentalmente as perguntas que faria para
a sua conselheira — não podia se esquecer de nenhuma dúvida
importante. Porém, inevitavelmente, Madhu acabou se
distraindo, deixando seu pensamento se dispersar com a linda
paisagem abaixo. Mas não podia ignorar o incomum fato de estar
sentada atrás de um interessante androide idêntico a um humano,
sem levar em conta as orelhas pontudas.
– Então você é um androide? – perguntou Madhu, que não
entendia a grande semelhança com o povo da Terra.
– Sim. Sou um androide zepto-biológico, é a última
tecnologia androideana na Via Láctea. Surpresa em conhecer um
androide? – perguntou Nero, indiferente.
– Nada mais neste lugar me surpreende. – Madhu já estava
se acostumando com a excentricidade da nave.
Mas ela estava enganada. Ao ver a paisagem adiante,
ficou deslumbrada. Pensou não ser possível existir beleza maior
do que já havia visto naquela nave. A paisagem era tomada pelo
verde da natureza, com cachoeiras que deslizavam graciosamente
pelos rochedos. No centro de toda aquela beleza, havia um
esplêndido Castelo de Diamante, radiante e celestial, com uma
enorme escadaria.
Nero deixou Madhu aos pés da elegante escadaria. As
sinuosas curvas da grande escada levavam até uma grandiosa
porta dupla branca luminosa, a entrada principal do castelo.
Madhu sabia o que fazer. Tinha a sensação que já havia visto
aquele castelo em algum lugar e, apesar da sensação ser ilógica,
seguiu seu intuito. Tirou os sapatos e subiu a escadaria
lentamente, respirando fundo para sentir o maravilhoso aroma das
plantas do bosque que cercavam o suntuoso castelo, apreciando a
suave e fresca brisa que acariciava seu rosto. Tudo era perfeito, e
sentia uma paz profunda.
Assim que se aproximou da entrada, as portas se abriram
automaticamente, revelando mais encanto. A farta iluminação no
interior do Castelo de Diamante parecia reluzir de todas as partes,
e no centro da grande antessala de entrada, bem à sua frente, mais
uma enorme escadaria com incríveis corrimões esculpidos
minuciosamente com graciosas formas curvilíneas.
Madhu sabia que sua conselheira estava na torre mais alta
do castelo. Ela sentia e seguiu sua intuição subindo as escadas.
Ao alcançar o último degrau, deparou-se com uma porta muito
alta e estreita, que se abriu lentamente. Madhu entrou.
Era uma sala linda e muito ampla, tendo o diamante como
base. A decoração e arquitetura seguia estilo semelhante à antiga
Índia. Havia uma piscina repleta de flores de lótus à esquerda,
cuja extremidade acabava numa parede de diamante que continha
uma linda escultura da Deusa Budista Tara Branca. Existiam três
degraus de escadas ao redor de toda a piscina e lindos pilares de
uma pedra branca radiante esculpida com formas geométricas
estupendas. Do lado esquerdo, ficava uma enorme lareira com
chamas azuis-celestes.
Bem no centro, com os braços abertos esperando pelo
abraço de Madhu, estava Tarala Shanata, sua conselheira. Com
enorme cabelo louro escuro acinzentado e excêntricos olhos
violetas, vestia um belíssimo longo branco com mangas
compridas e gola alta. O vestido reluzia com minúsculas e
abundantes pedrinhas de diamantes por toda a sua extensão. Com
traços delicados como os de uma criança e um olhar penetrante
de profundo de amor e bondade, Tarala parecia ter luz própria,
exatamente como todo aquele miraculoso Castelo de Diamante.
Ela transmitia uma doce ingenuidade, suavidade, alegria e paz
profunda.
Sem hesitar, Madhu aceitou o amoroso abraço de sua
conselheira. Sua paz e alegria eram tanta que Madhu começou a
chorar. Nunca havia se sentido tão amada e protegida. Só agora
ela entendia a imensa força do poder do amor. Nada na vida era
mais grandioso que aquela força emitida do coração de Tarala.
– Minha amada menina. Estou tão feliz em ter você nos
meus braços, protegida. Você é tão profundamente amada, minha
criança – disse Tarala, na sua suave e angelical voz, com ternura, acariciando os longos cabelos acobreados de Madhu. – Sei que
está confusa e preocupada. Estou aqui para ajudá-la. Faça quantas
perguntas quiser. – Tarala indicava com o braço num gesto lento
e suave para que Madhu se sentasse com ela nas almofadas
macias e coloridas diante da lareira. Deixou que Madhu seguisse
na frente e se acomodasse primeiro.
A lareira exalava um aroma doce delicioso. As chamas
azuis não emitiam calor, era como estar diante de uma suave e
doce brisa de primavera.
– Por que estou aqui? Por que fui abduzida? Quando vou
voltar? – perguntou Madhu ansiosamente. Eram tantas as
perguntas que nem sabia por onde começar.
– Está aqui porque este é o único lugar onde poderá
encontrar a verdade necessária para o despertar de sua maestria.
E somente os seus passos e suas escolhas dirão quando é hora de
voltar.
– Por quê? Porque tenho de estar aqui para descobrir a
verdade? Que verdade é essa? – perguntou Madhu.
– A verdade está sufocada, presa dentro de algum lugar
obscuro, escondido dentro de você. Por isso, só você pode libertar
a verdade. Veio aqui porque este é seu caminho. Se eu lhe disser
qual a verdade que deve ver, não será a verdade, será apenas um
ponto de vista relativo, será apenas o meu ponto de vista. A
verdade tem de vir de dentro de você, ou não terá consistência,
não será a verdade – respondeu Tarala.
– Como posso... libertar a verdade? – perguntou Madhu.
– Pare de resistir. Não tente controlar a vida. Tente aceitar.
Acredite que tudo tem um propósito soberano de ser. O que deve
fazer no momento é aproveitar sua estadia a bordo de Shandi33, que lhe mostrará a verdade quando você estiver pronta para
aceitar.
– Não entendo. Parar de resistir? – perguntou Madhu, que
não via resistência nenhuma de sua parte. Não entendia o que
Tarala estava falando.
– Esforce-se para se lembrar o que aconteceu momentos
antes de ser resgatada pela Shandi33. Seja forte, acredite que tudo
tem seu propósito de ser. O medo leva você ao fracasso. Não
tenha medo.
– Por que simplesmente não me diz o que aconteceu antes
de eu ser abduzida?
– É perigoso, ainda não está preparada para a verdade. Só
estará quando começar a vê-la com seu coração. Se lhe disser sem
que esteja devidamente preparada, o medo tomará conta de seu
coração e todo o nosso trabalho terá sido em vão. Não fique
frustrada, minha amada, Desta vez, tenho muita esperança que
dará certo. Hoje começará seu processo de busca da verdade. Já
está tudo preparado. Basta aproveitar sua jornada a bordo da
Shandi33.
– Como posso ficar tranquila e aproveitar esta viagem
alucinante sem saber se meu pai e minha irmã estão bem? –
perguntou Madhu, pois, na verdade, realmente este era o único
empecilho que a impedia de relaxar e curtir aquele lugar
deslumbrante.
– Posso lhe garantir que eles estão bem. Vou explicar uma
coisa para que se sinta mais tranquila. Pela lei dos multiversos,
não é possível viajar para o passado. Mas Shandi33 consegue
penetrar num local neutro, num vazio no espaço entre universos
paralelos. Neste local, o tempo dos multiversos fica parado para
nós, que estamos no vazio. É como estar congelado no tempo do universo enquanto vive-se dentro do tempo relativo de Shandi33.
Neste momento, estamos neste espaço neutro entre universos
paralelos, ou seja, o tempo não passou no seu planeta. E, quando
voltar para a Terra, estará exatamente no mesmo local e tempo
que foi abduzida. Ou seja, ninguém sentirá sua falta.
Não tinha como Madhu duvidar de sua conselheira.
Madhu via o amor mais puro nos olhos de Tarala. Sabia que ela
dizia a verdade. Aquele ser de luz própria jamais poderia mentir.
– Behosa disse que não é a primeira vez que acordo em
Shandi33. O que isso quer dizer? – perguntou Madhu.
– Cada vez que falha e não encontra forças para digerir a
verdade, a jornada recomeça. A falha não é só sua, é nossa. Por
isso digo que desta vez é muito provável que dê certo. Foi
elaborado um bom reajuste no método, um novo plano. Que
fortalecerá você antes de encarar a dura verdade.
– A jornada recomeça? – perguntou Madhu, não
entendendo o que foi dito por Tarala.
– Eu explico melhor. Não é possível viajar para o passado
dentro de um Universo. Mas não estamos dentro de um Universo,
estamos no vazio. Shandi33, estando no vazio, seu interior pode
viajar para o passado. No vazio, o tempo não existe, mas existe
tempo dentro da Shandi33 onde a vida transcorre. É importante
que entenda que esta viagem para o passado ocorre apenas aqui,
dentro da nave, apenas no tempo de Shandi33.
– Cada vez que você se depara com a verdade e não tem
forças para suportá-la, somos enviados de volta no passado do
tempo de Shandi33, e você acorda no laboratório de Behosa sem
se lembrar das jornadas anteriores que teve a bordo desta nave.
Esta é a quinta vez que acorda no laboratório de Behosa sem se
lembrar das jornadas anteriores. Geralmente, esse processo de aprendizagem é feito por meio de reencarnações em planetas
primitivos, mas não temos mais tempo dentro do Universo para
enviar outra Semente Estelar na Terra e esperá-la amadurecer. E
também não podemos permanecer no vazio por muito mais tempo
de Shandi33.
– Semente Estelar?
– Você é uma de nós, Madhu, que fez o grande sacrifício
em nascer completamente humana no planeta Terra, com a
missão de nos ajudar a salvar a raça humana terráquea da grande
destruição planetária. Faz ideia quanto lhes amamos, quanto
somos gratos pelo seu sacrifício?
– Há um cientista de uma estrela isolada e distante que
desenvolveu a tecnologia de voltar o interior da forma
dodecaédrica estrelada para o passado, estando esta forma dentro
do vazio. O tempo no interior desta forma geométrica pode voltar
ao passado quantas vezes forem necessárias, até a lição ser
aprendida. Ninguém pode entrar no planeta Terra vindo do futuro,
por isso não podemos salvar o planeta Terra dessa forma,
intervindo nos eventos passados.
– Quanto a sua memória, teve de ser perdida para protegê-
la do medo indigesto, mas toda a informação das experiências
vividas nas jornadas anteriores a bordo de Shandi33 permanece
no seu inconsciente, e você vem se fortalecendo a cada novo
recomeço. Você é a primeira espécie a testar essa nova tecnologia
de evolução que encontramos numa isolada estrela distante.
Estamos fazendo reajustes nesse novo método experimental do
qual você é cobaia. Em breve saberemos se nossos reajustes irão
funcionar.
Tarala deu uma pausa antes de continuar a explicação.
Madhu se esforçava para permanecer focada, atenta na explicação, enquanto olhava para as chamas azuis-celestes da
grande lareira à frente.
– A base para a criação dos multiversos é matemática,
música é matemática. Por isso, para que entenda os multiversos e
o vazio, farei uma analogia com a música. Na música existem
doze sons harmônicos principais, assim como existem doze
universos. Depois desses doze sons harmônicos, há um espaço
entre a última nota dos doze sons harmônicos principais e a
primeira nota dos seguintes doze sons harmônicos que estarão
numa outra frequência. Esse espaço entre sons harmônicos é o
vazio ou “o muro”, como é conhecido na música. Cada nota
musical representa um universo, as notas subsequentes
representam os universos paralelos. Os doze sons harmônicos
seguintes de outra frequência representam os universos paralelos
de outra dimensão. O vazio fica entre uma dimensão e outra –
explicou Tarala, da melhor forma possível para que Madhu
entendesse onde ficava o vazio, ou seja, onde permanecia
Shandi33.
Era muita informação recém-adquirida, Madhu precisava
de tempo para assimilar todas as inusitadas notícias sobre a
destruição do planeta Terra, Semente Estelar, vazio. Precisava
refletir sobre tudo aquilo que acontecia com ela.
Ao longo de sua vida, quando observava milhões de
estrelas no lindo céu da chácara onde morava com sua família,
um profundo e incógnito sentimento de saudade despertava forte
emoção em Madhu. Agora ela compreendia que a misteriosa
emoção despertada pela bela visão das estrelas vinha de suas
experiências de outros mundos. Começava a compreender porque
sempre se sentiu deslocada da sociedade humana terráquea, que
lhe parecia possuir comportamentos ilógicos e intricados, tão
difíceis de aceitar. Sentia solidão por ser incompreendida. Pois era incompreensível para Madhu o fato de as pessoas se
alimentarem da morte, da dor e do sofrimento dos animais, sendo
que não necessitam de carne para viver — uma alimentação à
base de grãos e vegetais seria muito mais saudável para os
humanos e para o planeta. O deprimente uso de combustíveis
fósseis, o desperdício de recursos naturais e o consumismo. Essas
questões a deprimiam, tirava a vontade de viver. O sistema não
abria chances para mudanças, era um círculo fechado de
autodestruição. E ela se entristecia com o rumo que a humanidade
estava tomando.
Só agora Madhu compreendia por que se sentia tão segura
e feliz a bordo da Shandi33. Tudo começava a fazer sentido.
Tarala permaneceu em silêncio, respeitando as reflexões
de Madhu. As duas permaneceram sentadas lado a lado,
admirando as chamas azuis da grande lareira.
– Quando disse que eu sou uma de vocês... Quem são
vocês? – perguntou Madhu.
– Somos a Confederação Intergaláctica Estelar. Somos a
autoridade responsável pela evolução das espécies em toda a Via
Láctea.
– Eu... – Madhu queria ter mais perguntas. Ela tinha mais
perguntas! Porém, com a cabeça saturada de tantas informações,
sentiu a mente dispersar.
– Imagino que precise de tempo para digerir todas as
informações – adivinhou Tarala. – Não tenha pressa e não se
preocupe, estarei sempre aqui. Pode voltar sempre que sentir
necessidade.
Madhu se despediu de Tarala se sentindo renovada e cheia
de vida. Iria seguir o conselho de Tarala, relaxar e aproveitar sua estadia a bordo da fascinante Shandi33. Finalmente se sentia
inserida numa sociedade digna de se viver. Nunca se sentiu tão
feliz.
Descia distraidamente a longa escadaria externa
embevecida com sua alegria. Foi só no final da escadaria que
Madhu avistou um belíssimo jovem sorrindo com brilho nos
profundos olhos castanhos, que admiravam Madhu com paixão.
Ele ofereceu a sua mão a ela, para ajudá-la a descer o último
degrau. Ela aceitou envergonhada — sempre se acanhava ao ver
um homem muito bonito —, e aquele misterioso jovem
simplesmente era o mais bonito que Madhu já havia visto. Era
também atraente e sensual, com um olhar penetrante que parecia
despi-la. Alto, atlético, com músculos bem definidos, aparentava
ser um jovem com pouco mais de vinte anos de idade. Seu cabelo
era castanho, curto, com uma charmosa franja lateral caída na
testa. Vestia-se elegantemente com uma kurta, típico traje
masculino indiano que consiste numa camisa comprida, calças e
botas na cor areia.
– Não imagina como estou feliz em vê-la. Cada minuto
sem você me parece uma eternidade – disse o lindo jovem,
beijando o dorso da mão de Madhu sem tirar seus olhos dos dela.
– Gostaria de dizer o mesmo. Já nos conhecemos? –
perguntou Madhu. Mas no fundo Madhu sentia que já o conhecia
de algum lugar. E sentiu uma familiar felicidade ao ver aquele
estranho e magnífico rapaz.
– Perdoe-me não ter me apresentado. Meu nome é Niki.
Estava ansioso em me encontrar com você. Só agora tive
permissão para vê-la.
– Meu nome é... Bom, acho que já deve saber meu nome.
Nós éramos amigos aqui na nave? – perguntou Madhu.
– Pode-se dizer que éramos muito mais do que amigos –
respondeu Niki, cujos olhos apaixonados não o deixavam mentir.
Madhu não conseguia evitar sorrir de felicidade e
excitação. Relaxar e aproveitar sua jornada a bordo de Shandi33
começou em grande estilo.
– Venha. Quero que conheça um lugar – convidou Niki,
apontando a cabeça para a direção que deveriam seguir.
Niki e Madhu seguiram andando para dentro do bosque
que cercava o suntuoso Castelo de Diamante.
De repente, Niki parou de andar e virou o corpo para trás.
– Olhe! – pediu Niki, apontando com o dedo para o Castelo de
Diamante, que estava mudando de cor — o brilhante diamante
passava para um suave e romântico tom de rosa.
– É... estou sem palavras, Niki! – disse Madhu, encantada
com o que via. O castelo estava impressionantemente belo e
romântico naquela cor. Era a cena perfeita para o início de um
romance — ou seria reinício?.
– O castelo é feito de diamante, por isso se chama Castelo
de Diamante, e muda de cor conforme o estado mental de Tarala.
O pensamento tem o poder de mudar a matéria, mas, com Tarala,
esse poder é muito maior – explicava Niki, com carinho na voz.
– Você disse diamante? Está falando sério? – perguntou
Madhu, surpresa.
– Sim, o diamante foi retirado de um planeta inóspito que
continha tanto diamante quanto a Terra contém ferro. Mas não era
isso que queria lhe mostrar. Vamos! – chamou, virando-se e voltando a andar bosque a dentro.
Depois de breves minutos, chegaram a uma pirâmide de
cristal que estava escondida entre os imensos pinheiros do
bosque. Subiram uma pequena escada para ter acesso ao interior
da construção por uma porta triangular.
Dentro havia um lago com diversas pedras achatadas
expostas sobre ele bem no centro. Neste, que também era o centro
da pirâmide, havia uma atraente ilha rochosa.
Niki e Madhu foram pisando de pedra em pedra sobre o
lago com cuidado, até alcançarem a ilha rochosa central. Niki
ajudava Madhu com cuidado estremo, segurava em sua mão cada
vez que Madhu ia pisar numa nova pedra.
No lago havia lindas carpas coloridas biluminescentes,
que iluminavam o interior da pirâmide com cores diversas,
criando um lindo espetáculo de luzes coloridas. Na ilha rochosa
havia um buquê de margaridas brancas. Niki sentou-se próximo
ao buquê e Madhu sentou-se ao seu lado.
Niki alcançou o buquê de margaridas e o entregou para
Madhu. – São para você! – disse.
– São minhas flores preferidas! Como adivi... Ah! –
recordou-se frustrada de que Niki provavelmente deveria saber
diversas questões sobre ela, mas ela não sabia nada sobre Niki.
– A cada jornada venho aprimorando minha estratégia em
conquistá-la – disse modestamente, dando de ombros. –
Continuaria conquistando-a por toda a eternidade. Mas você
precisa se lembrar, Madhu. O ciclo de retornos à jornada precisa
acabar. Quando olho nos seus olhos, vejo uma profunda tristeza
enraizada no fundo de sua alma. Não suporto mais ver essa
tristeza em seus olhos. Queria poder carregar essa tristeza para
você. Seu sofrimento é meu sofrimento em dobro. Não suporto mais vê- lá carregando essa dor.
Madhu ficou com um nó na garganta. Niki tinha razão
quanto a sua tristeza, mas não gostava de pensar nesse assunto,
era como cutucar uma ferida aberta. Ela desconhecia a razão de
tamanha tristeza. Sentiu vontade de abraçar e consolar aquele
lindo homem por quem acabara de se apaixonar. Mas conteve-se.
– Em todas as jornadas, esta pirâmide sempre foi seu lugar
preferido – disse Niki, se referindo à pirâmide de cristal. – Você
gostava de vir aqui para meditar, refletir. Às vezes, nós nos
encontrávamos aqui.
– Este ainda é meu lugar preferido – disse Madhu, com
profunda sinceridade. Aquele lugar, sem dúvida, era o local mais
tranquilo que já havia estado. – Como é que você se lembra de
todas as jornadas passadas ocorridas pela viagem no tempo? Só
eu perco a memória? – perguntou Madhu. – Isto ainda está
confuso na minha cabeça. Não entendo.
– Não é só você que perde a memória, Madhu. Quando
esse distinto método estava em discussão para ser implantado, foi
decidido que todos os habitantes de Shandi33 iriam perder a
memória a cada retorno no tempo para que o efeito da volta ao
tempo repetida vezes não fosse tão tedioso e frustrante. Apenas
poucos tripulantes de Shandi33 mantiveram a memória
preservada, intacta, a cada retorno no tempo.
– Você, Behosa, Tarala... – supunha Madhu, ao ser
interrompida.
– Nossas memórias foram preservadas. Todos os
conselheiros e cientistas da Shandi33 mantiveram suas memórias
preservadas.
– E você? Por que teve a memória preservada? É um cientista?
Niki sorriu sem deixar de olhar para Madhu. Segurou sua
mão, e Madhu sentiu o efeito do toque por todo o seu corpo, como
uma descarga elétrica que disparou seu batimento cardíaco,
trazendo uma sensação de incêndio interno.
– Porque dessa maneira eu poderia ajudá-la – disse Niki,
com o olhar inebriado de desejos por Madhu.
Niki deixou Madhu sem fôlego, era difícil manter-se
sóbria na presença daquele homem tão lindo e envolvente. Sentia
um intenso desejo de agarrá-lo e beijá-lo. Antes que seu desejo
saísse do controle, tinha de mudar de assunto para tirar o foco do
romântico clima que se formou.
– Não entendo... Por que manter segredo na Terra sobre a
vida extraterrestre? Seria tão mais fácil se vocês ajudassem os
seres humanos da Terra.
– Nós ajudamos, em segredo, e existe um bom motivo
para isso. Uma das muitas leis que criamos, diria que uma das
principais leis que a Confederação Intergaláctica Estelar criou, é
a lei da não interferência, que é manter segredo absoluto sobre a
existência de extraterrestres nos planetas em estágios primários
de evolução, como o planeta Terra.
– Antigamente, não mantínhamos esse segredo, e algo
terrível aconteceu no planeta Terra. Alguns extraterrestres
confederados, vindos de outras estrelas ou de outras naves,
afetados pela baixa densidade vibracional dos terráqueos recém-
criados, começaram a sentir o gosto pelo poder de sua ilusória
superioridade, se autoproclamaram poderosos deuses por serem
os cientistas criadores da espécie humana terráquea. Surgiram
diversos deuses em diversas partes do planeta Terra. Muitos
tinham ótimas intenções e realmente ajudavam os humanos na
evolução, mas outros aproveitaram a oportunidade para obter trabalhadores braçais gratuitos para propósitos egoístas. Medo e
esperança são os ingredientes fundamentais para o controle da
massa humana primitiva. Os poderosos e temidos deuses
castigavam os desobedientes e prometiam o paraíso aos devotos
fiéis.
– Bom, parece que as coisas não mudaram tanto deste
então – disse Madhu.
Niki continuou sua explicação.
– Nesse íntimo contato entre deuses e terráqueos, os
terráqueos tiveram acesso a armas e tecnologias muito avançadas
de seus deuses, e a imaturidade e ignorância dos terráqueos
fizeram com que usassem essas ferramentas para provocar
terríveis destruições. Os terráqueos se tornaram ameaça para a
própria espécie, uma espécie autodestrutiva. E os confederados
estavam sendo cada vez mais afetados pela baixa densidade do
planeta Terra.
– A única solução que vimos para acabar com todos os
problemas criados com o contato entre extraterrestres e
terráqueos foi destruir toda a ameaça iminente e iniciar a criação
novamente com a lei da não interferência em vigor. Foi com o
dilúvio que destruímos o perigo. Salvamos o DNA apenas de
seres mais responsáveis para dar continuação ao nosso trabalho.
– Os grays que caíram em Roswell, eles existem? É
verdade aquela história de terem sido resgatados pelo governo? –
perguntou Madhu.
– Sempre tivemos problemas com os 663, os grays como
os terráqueos apelidaram. Eles não são confederados, ou seja, não
são nossos aliados. São de um universo paralelo, duas notas
abaixo da nossa. São grandes cientistas, nos pediram ajuda para
salvar a espécie deles. Resolvemos ajudá-los se respeitassem nossas leis, poderiam vir e colher material de vida em nossa
Galáxia. Foi assinado um acordo. Porém, nossa relação com os
663 se tornou tensa, sempre entramos em conflitos. Outro
problema pendente que temos para resolver. Como se já não
bastassem os reptilianos.
– Reptilianos?
– Claro que nem todos nos dão trabalho, muitos
reptilianos nos ajudam, são confederados. Nosso atual Capitão, o
Capitão Mastara, que comanda Shandi33, é um reptiliano, um
humanoide serpente para ser mais exato. É um grande Mestre,
com grande sabedoria. Um excelente líder. Todos nós o
admiramos. – Niki achou que era hora de parar de falar. Madhu
precisava se alimentar e descansar. Ele sentia forte desejo de
protegê-la e cuidar dela. – Estou falando demais. Desculpe-me.
Você deve estar com fome. – Niki se levantou e ofereceu a mão
para ajudar Madhu a se levantar. – Preparei uma cesta de refeição
para nós – apontou para uma cesta no chão no canto da pirâmide
sobre uma toalha com desenho de uma linda mandala. Na cesta,
havia frutas frescas, tigelas com sementes e outras contendo
legumes cortados. Ao lado da cesta, sobre a toalha, estavam duas
belas taças de cristal cheias de água. Madhu reconheceu as
shishades, grandes amêndoas e enormes maçãs. Os demais
alimentos eram desconhecidos para ela.
Eles se sentaram ao redor da notável cesta de frutas e
legumes vistosos. Madhu ficou indecisa, não conhecia a maioria
dos alimentos à frente, não sabia o que experimentar primeiro.
– Experimente as fafilas primeiro – disse Niki, passando-
lhe uma tigela contendo tiras do que parecia um legume de um amerelo vivo. – Fafilas – Repetiu Madhu, para tentar memorizar o nome
do legume alienígena. Deu uma mordida numa tirinha de fafila. –
Huuumm... É uma delícia! Vou ficar só nas fafilas – disse com a
boca cheia, impressionada com o delicioso sabor das fafilas. –
Desse jeito eu vou engordar.
– Impossível! Fafilas não engordam. É claro que não pode
comer em excesso, qualquer exagero pode fazer mal. Mas não
conseguirá comer tanto. Nossos alimentos, com pouca
quantidade, já nos deixam saciados.
Logo Madhu pode notar a veracidade nas palavras de
Niki. Não conseguiu comer nem metade da pequena tigela de
fafilas. Experimentou uma fruta vermelha por ter um aspecto
apetitoso. Tinha sabor semelhante ao da jabuticaba, só que mais
saborosa e sem sementes.
– Todos falam português em Shambala? – perguntou
Madhu, curiosa.
– Nosso idioma local em Shandi33 é o sânscrito. Todos
falam sânscrito. Bem, menos você. Somos poliglotas, falamos
todos os idiomas do planeta Terra e de outros também – disse
Niki, passando mais uma fruta vermelha para Madhu. – Como
sabe, matéria é energia, todo objeto possui uma vibração
energética. O sânscrito é um idioma matemático, ou seja, cada
palavra possui um comprimento de onda idêntico ao do objeto
que aquela palavra representa. Por isso, é um idioma que todas as
espécies inteligentes maduras compreendem ao ouvir.
Matemática é um idioma universal. Foram os Rishis, nossos
sacerdotes de Shandi33, que ensinaram sânscrito para os
terráqueos. Seu nome, Madhu, como já sabe, em sânscrito
significa mel, isso porque, ao vocalizar a palavra madhu, a
vibração dessa palavra cria um comprimento de onda idêntico ao comprimento de onda de uma substância doce, dourada e
nutritiva, o mel, substância altamente curativa produzida pelas
abelhas, que foram levadas ao planeta Terra pelas sacerdotisas do
planeta Avalon. Sem abelhas, os humanos terráqueos não
sobreviveriam.
– Minha mãe adorava literatura épica indiana. Eu e minha
irmã, quando bem pequenas, adorávamos ouvi-la nos contar a
história do épico Ramayana – disse Madhu, com nostalgia. – Se
eu não me engano, ela viu o nome Madhu em algum épico indiano
e gostou. Por isso me deu esse nome.
– Sua mãe recebeu inspiração de Tarala na hora de
escolher o seu nome – explicou Niki. – Nada é por acaso, Madhu.
Coincidências não existem. Você é a substância curativa do qual
a humanidade terráquea necessita.
– O que quer dizer com isso? Eu, substância curativa? –
perguntou Madhu, alcançando a taça de água para beber um gole.
– Toda Semente Estelar é uma substância curativa. Não
me pergunte a razão da qual você é uma Semente Estelar. Essa
questão ninguém melhor que Tarala Shanata para lhe explicar.
Niki sabia quanto Madhu era curiosa. Madhu se esforçou
para conter a curiosidade e verteu toda a água da taça.
– A história Ramayana aconteceu de verdade? –
perguntou Madhu.
– Valmiki! – exclamou Niki, como se acabasse de se
lembrar de algo importante. – Preciso apresentar você a ele. Foi
ele quem escreveu Ramayana. É um grande escritor.
– Valmiki Rishi!? Você o conhece? – perguntou Madhu, num abalo de admiração.
– Claro! Ele tripula Shandi33, assim como Narada Muni,
Dasharatha e Bharatta. Todos vivem na cidade da Ala33.
– Sita e Rama também vivem em Shandi33?
– Atualmente estão numa outra nave, Shandi22, um pouco
menor que a nossa. Estão numa missão, criando novos humanos
no planeta Zulyan, planeta semelhante à Terra, porém vinte vezes
maior. Estão realizando experimentos integrando o DNA deles
com o de animais que se desenvolveram no planeta Zulyan.
– Uau! – exclamou com fascínio nos olhos. – Eu me sinto
uma lerdaça visitando o mundo dos deuses.
– O problema está no DNA do corpo que está usando,
Madhu. É um corpo bem limitado, aprisionado em cinco sentidos
bem restritos. Não é você. Quando era uma de nós, sabia tanto
quanto nós – explicou Niki. – Quero dizer, você ainda é uma de
nós, que está temporariamente nesse corpo humano terráqueo
para cumprir uma missão.
Vendo que Madhu já havia se alimentado e estava
satisfeita, Niki achou melhor levá-la para sua casa temporária em
Shambala. Sabia que ela carecia de descanso. Seu desejo era não
sair do lado dela. Mas as necessidades de Madhu vinham em
primeiro lugar.
– Vamos?! Vou levá-la para casa – disse Niki, se
levantando e oferecendo sua mão para ajudar Madhu a ficar em
pé. – E gostaria de convidá-la para sair hoje no final da tarde.
Haverá uma festa na praia ao pôr dos sóis. Gostaria que me
acompanhasse – pediu com carinho nos olhos, segurando a mão
de Madhu.
– Liv comentou sobre essa festa. É claro que aceito –
respondeu Madhu, com convicção. Pois tudo o que Madhu mais queria era passar mais tempo com Niki, ser abraçada e beijada por
ele, sentia uma forte e inexplicável atração por ele. Uma mistura
perfeita de carinho, admiração, respeito e atração sexual.
Niki recolheu a cesta e a toalha do piquenique e levou-a
consigo enquanto seguia para fora da pirâmide de cristal
acompanhado de Madhu. Seguiu até uma entroncada árvore,
espalmou a mão na árvore que abriu um buraco no tronco, onde
Niki jogou a cesta e a toalha.
Foi só quando o buraco se abriu no tronco da árvore, que
Madhu pode perceber que aquela não era uma árvore de verdade.
Pelo menos não como as árvores que conhecia.
Seguiram andando até a vinama xi mais próxima, que os
levou até a casa provisória de Madhu. A vinama xi parou bem em
frente à fachada do chalé.
– Acho que preciso aprender a pilotar esta coisa – disse
Madhu, se referindo a vinama xi. Madhu não queria depender
sempre de alguém para se deslocar em Shambala.
– Mas primeiro teria de aprender a comunicação telepática
com pedra de crysptina, diamante e cristal. – Niki se sentia triste
por Madhu estar num corpo tão limitado. Sabia que, para seres
humanos terráqueos, seria impossível comunicar-se
telepaticamente com pedras.
Os dois desceram da vinama xi, e Niki acompanhou
Madhu até a porta. Ele se aproximou de Madhu, que sentiu seu
corpo queimar e seus batimentos cardíacos se acelerarem. Ela foi
pega de surpresa com um beijo... No rosto. Não era bem o que ela
queria. Mesmo assim, aquele simples beijo tirou seu fôlego.
– Passo para pegá-la daqui duas horas. Aproveite para descansar - disse Niki.
Obrigada, Niki. Pela refeição, por tudo.
Niki beijou o dorso da mão de Madhu e partiu na vinama
xi.
Madhu se sentia como se estivesse andando nas nuvens.
Não acreditava em paixão à primeira vista até conhecer Niki.
Entrou na casa não conseguindo conter um largo sorriso.
Liv estava na sala pintando uma tela num cavalete.
– Você demorou! – exclamou, com uma expressão curiosa
no olhar, levantando apenas uma das sobrancelhas. – E pela sua
cara, a conversa foi muito boa. Até que enfim chegou! Têm
apenas duas horas para tomar banho, comer e se arrumar para a
festa na praia. Separei uma roupa para você, é emprestada, vê se
não rasga tropeçando nela com esse corpo terráqueo sem
coordenação. Vi no seu baú que não tem nada apropriado para
usar na festa. Deixei em cima da sua cama – disse Liv, enquanto
continuava pintando a tela. – Por favor, não se atrase, não quero
chegar atrasada. Pontualidade em Shambala é muito importante.
– Você ficaria muito chateada se eu não for com você? –
perguntou Madhu, receosa. Estava se sentindo culpada, afinal Liv
a convidou primeiro, e só agora ela se lembrou de que teria de
contar a Liv que iria com outra pessoa.
– Você vai sim, Madhu! Juro que vai ser muito legal. Você
não vai se arrepender...
– Eu vou! – exclamou, interrompendo Liv. – Eu conheci
um garoto, ele me convidou, vai passar aqui. Mas, se quiser, claro
que pode ir com a gente.
– Espere aí! No seu segundo dia em Shambala você
arrumou um garoto para levá-la a uma festa? Humpf! Deve ser
seu cheiro. Já ouvi dizer que o cheiro dos hormônios de terráqueos é bem forte, coisa de primitivos. Agora entendi o
brilho nos olhos e o sorriso estranho. Quem é o desatinado?
Conte-me tudo. Como o conheceu? – Liv até parou de pintar o
quadro, tamanha sua curiosidade.
– O nome dele é Niki. Parece que ele estava esperando eu
sair do Castelo de Diamante para falar comigo.
– Niki! O Niki? Ai, Madhu, eu disse para você ficar longe
dos androides!
– O Niki não é um...
– É claro que é! – exclamou Liv, interrompendo Madhu.
– E deve ser um daqueles androides bizarros sem pênis. Nunca o
vi com nenhuma garota. Sempre tão sério, tão comedido,
responsável, só sabe trabalhar. Um chato! Ele foi meu professor
o ano passado. Não acredito que o Niki convidou você para sair.
Deve ter algum parafuso solto naquele androide.
– Deve ser outro Niki – disse Madhu.
– Só existe um Niki em toda a Shandi33, mon cher. Pode
ir com o Niki, você não é minha única amiga. Tinha dito às
minhas amigas que iria levá-la, mas vou dizer que houve
mudanças de plano por um motivo um tanto inusitado, e que vou
com elas. Recuso-me a segurar vela para uma terráquea ingênua
e um androide chato. Estou pintando esse quadro inspirada em
você. Sei lá por que diacho você me inspirou.
– Desculpa, Liv. De verdade. E o Niki... ele pareceu tão
humano. – Madhu não poderia acreditar que estavam falando do
mesmo Niki.
– Todos os androides zepto-biológicos se parecem
humanos, mas são feitos de material biológico sintético que
esteticamente imita o material orgânico natural. Feitos em laboratórios, da cabeça aos pés. Não envelhecem e nunca
morrem. A maioria não tem emoções. Mas agora estão
começando a fazer testes implantando emoções e sensações em
alguns androides. Sei lá, o Niki deve ter tido algum implante
bizarro desses para ter essa atitude absurda de convidá-la para a
festa. Ele foi meu professor de herbologia medicinal no ano
passado e nunca demonstrou emoção.
Aquela informação deixou Madhu confusa. Apaixonada
por um androide? O Niki! – pensou. Não fazia sentido. Resolveu
não prejulgar antes de ter certeza da verdade. Iria se encontrar
com Niki, então esclareceria tudo com ele.
Madhu foi até seu quarto e viu que havia um grande e
belíssimo tecido na cor amarelo queimado com graciosos
bordados dourados estendido de forma cuidadosa em cima de sua
cama. O bordado parecia ser feito com linha de ouro. Madhu
tocou no tecido admirando as estampas bordadas, parecia um
finíssimo traje indiano. Enquanto se maravilhava com o traje, Liv
entrou no quarto.
– É um sari – disse Liv apontando com o queixo para o
traje. – Imagino que não saiba vesti-lo. Por isso subi para ensinar
você a usá-lo. Escolhi essa cor porque combina com você. Quer
dizer, o verde ficaria mais exótico e interessante num contraste
com a cor do seu cabelo. Mas o dourado combina com seu nome
e com sua personalidade. O que achou?
– Deve ficar lindo no corpo. Realmente não saberia vestir
esse monte de pano sozinha.
– Mas primeiro vou encher a banheira para você tomar um
banho. Sinto-me como se estivesse cuidando de uma criança.
Behozita me apronta cada uma! Que aroma prefere? Brifila, nudacur, lavanda... Huuumm, quase me esqueci, você só conhece
lavanda.
– Lavanda está ótimo. Para que o aroma? – perguntou
Madhu.
– A água do banho é aromática. Para lavar o cabelo, basta
mergulhá-lo na água...
– Já sei! Não precisa usar xampu, nem sabonete, a água
esteriliza tudo – completou Madhu, lembrando-se do que Liv lhe
havia dito no dia anterior.
– Ufa! Pelo menos isso você memorizou. Estava
começando a achar que seu cérebro fosse um caso perdido.
– Tenho mesmo que usar o... – Droga! – pensou Madhu,
que não se lembrava do nome do traje que acabara de ser dito.
Talvez Liv tinha razão. Seu cérebro parecia um caso perdido com
relação à memória.
– Sari! É uma festa de traje a rigor. Não seria educado dar
uma de rebelde usando essas suas roupas disformes.
Madhu estava começando a se irritar com a sinceridade
perversa de Liv. Começava a sentir falta da falsidade educada de
uma boa amiga terráquea.
Madhu nunca foi vaidosa, muito menos consumista. Não
se importava com moda, preferia gastar dinheiro com viagens e
livros. Suas roupas eram velhas, típicas de adolescente nerd, que
comprou quando ainda era uma adolescente de dezessete anos.
Desde então não comprou mais peças. Tudo o que tinha para
calçar era um sapato boneca estilo retro, um tênis all star
vermelho e um chinelo havaianas verde. Madhu caminhou até o
banheiro, onde observou Liv digitar um código num painel na
parede ao lado da banheira. E logo ela começou a se encher de água, que parecia sair do ralo. Memorizou o código digitado, para
poder preparar o próprio banho da próxima vez.
– E o que eu poderia usar nos pés? – perguntou Madhu
preocupada. Seu chinelo verde ou seu sapato boneca não
combinavam nem um pouco com o sari. Muito menos seu tênis.
– É uma festa na praia, não precisa calçar nada. Tome seu
banho – disse Liv, enquanto saia do banheiro.
– Liv, obrigada por tudo. – Apesar da irritante sinceridade
de Liv, Madhu gostava do jeito espontâneo e moleque de sua nova
amiga. Liv parecia ter a sua idade. Resolveu tirar a duvida. –
Quantos anos você tem?
– Vou fazer quatorze anos no tempo cronológico do seu
planeta primitivo.
– Você parece ter bem mais de treze anos, em todos os
aspectos.
– Característica siriana, que amadurece mais rápido que a
terráquea.
– Você deve me achar uma estúpida. – Madhu se sentia
tola comparada a Liv.
– Você não é estúpida, Madhu, você está em um corpo
estúpido, é diferente. Nossos espíritos têm a mesma origem, por
isso, não sou melhor que você em nada. Só estou num corpo com
um cérebro que funciona melhor que o do corpo que você está
usando. Só isso.
Liv saiu do banheiro e fechou a porta. Madhu tirou sua
camiseta baby look azul royal com estampa da Mulher Maravilha,
o tênis e a calça jeans surrada. Entrou na banheira. A água estava
na temperatura ideal para seu corpo. O aroma de lavanda era maravilhoso e relaxante. Deitou na banheira e encostou a cabeça
no apoio macio para cabeça da banheira. De tão profundamente relaxada, acabou pegando no sono.

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⏰ Última atualização: Apr 12, 2020 ⏰

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