No chão da cozinha havia muita poeira.
No chão da sala, também. E dos quartos.Eu não saberia dizer se era por conta da janela bem aberta - recomendação médica para deixar a casa bem arejada;
Ou se era pela poeira furtiva que entrava pela fresta da porta da sala, denúncia de uma vida agitada que permanecia nas ruas e empurrava poeira pela fresta das portas alheias. Os passos apressados dos empresários, e a buzinarada impaciente de São Paulo voltaram a ser a sinfonia cotidiana.Eu não saberia dizer.
Tudo o que sabia era que, pela milésima vez naquele mesmo dia, havia poeira no chão.
Naquele piso branquíssimo que eu já me cansara de limpar.
Havia poeira no chão.
Havia sujeira destacada no chão.
Nas unhas, nas janelas, no parapeito das janelas, na porta, na fresta da porta, na maçaneta, nos passos apressados e nas buzinaradas de São Paulo.
Por isso mesmo, a recomendação era ficar em casa.
Com as janelas bem abertas,
Cômodos arejados,
Com a poeira bem furtiva na cozinha. Na sala.
Lutando contra a poeira em casa.23/05.
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Urbano
RandomLembranças de um apartamento, rabiscos de uma quarentena que se inicia mas não se sabe se acaba.