Todo dia é dia de levantar às 6h.
Não que eu goste de levantar às 6h (ainda mais aos domingos), mas é que acordar cedo toda manhã passa esse ar de produtividade.Em seguida, o café da manhã precisa durar menos de 15 minutos.
A limpeza da casa, menos de uma hora.
E se eu correr bastante,
Se focar mesmo,
Consigo terminar em 30 minutos, daí me sobram mais 8 horas (ou mais) no dia.Dessas 8 horas, tirarei duas para escrever.
Em uma hora, lerei cinco artigos dos mais diversos assuntos,
Tirarei um tempo para pintar um quadro, desenhar, fazer yoga, me exercitar, meditar e militar.
Oh, não! Acabou o dia. Eu tinha partituras novas para ler.
Muito bem, ficarei até às 3h da madrugada estudando, então.Você pode achar que eu tô ficando louca.
Pode até mesmo sentir um fundo de desespero nessas horas milimetricamente programadas para o dia-a-dia.Mas é que o momento agora pede produção, não vê?
E daí que são 40.000 mortos?
E daí que o noticiário é a única coisa nova que passa na tv,
Nas rádios, nos outdoors forasteiros e, principalmente, no twitter?
E daí que estou com medo pela minha mãe, trabalhadora informal da 25 de março?E daí, e daí, e daí, e e daí?
Se eu não for produtiva agora, meu bem, talvez nunca mais seja.
Talvez nunca mais haja 40.000 mortos para me suspender das minhas atividades,
Talvez nunca mais me sobre tempo,
Talvez nunca mais eu tenha tempo.– 16/06.
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Urbano
RandomLembranças de um apartamento, rabiscos de uma quarentena que se inicia mas não se sabe se acaba.