Eu trabalhava com o tempo.
Escutava o martelar incessante e ininterrupto dos segundos decorrentes de cada milésimo, sempre regular e uniforme. Sentia o tempo escorrendo pelo meu expediente como gelatina derretida, enquanto eu próprio tentava me locomover mais rápido, tiquetaquear mais rápido, consertar mais rápido.
Mas não apenas os relojoeiros trabalham com o tempo, para o tempo e contra o tempo. Trabalham também os frentistas, os faroleiros, os empresários e os rodoviários. Todos correndo em uma maratona maluca e muitas vezes trapaceira contra o tempo.
É uma luta de ignorar a felicidade das pequenas coisas por um bem maior que é a sexta-feira. Uma busca por terminar o trabalho mais rápido e engordar o salário, ou chegar mais cedo e ficar até tarde para aquela folguinha tão esperada. O tempo. A luta contra o tempo. O medo do tempo.
Medo de não sentir-se mais jovem. Medo de acabar o tempo antes de ganhar na loteria. Medo de não pegar o ônibus a tempo. Medo do engarrafamento. Medo, medo, medo.
Se nossa última hora pode ser a qualquer segundo, roubada a todo momento, por que não teríamos de aproveitar, ao invés de temer o tempo?
12/06.
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Urbano
AcakLembranças de um apartamento, rabiscos de uma quarentena que se inicia mas não se sabe se acaba.