CHARLIE DEAN
— Você poderia acelerar, por favor? — pedi, me inclinando pelo banco da frente como se minha súplica fosse capaz de mover o trânsito.
O motorista me lançou um olhar pelo retrovisor — carregado de ironia, tédio e uma pitada de desprezo passivo-agressivo. O tipo de olhar que Nova Iorque distribui de graça todos os dias.
E, honestamente, eu nem o culpei. O cenário era o de sempre: buzinas, palavrões cuspidos com pressa, um mar de carros imóveis e aquele sol escorrendo pelos arranha-céus feito óleo quente.
— Só se eu passar por cima dos outros carros. — resmungou com um sotaque hispânico carregado. Não parecia exatamente irritado, mas já tinha claramente perdido a fé na humanidade. Ou, pelo menos, na minha presença ali atrás.
Revirou os olhos pela quarta vez desde que entrei. Com certeza já se arrependia de ter aceitado a corrida. E, pra ser justa, eu também me irritaria comigo. Minha insistência era do tipo que até eu achava difícil de aguentar. Mas naquele dia em específico, minha tolerância para nova-iorquinos grosseiros, engarrafamentos e sarcasmo involuntário já tinha ido pro espaço.
Eu já havia cruzado com uma dezena de pessoas mal-humoradas desde cedo — e olha que, normalmente, eu até achava graça nesse jeito seco e cínico que Nova Iorque tem de te ignorar. Mas hoje? Hoje eu só queria desaparecer. Sumir do trânsito, sumir das obrigações, sumir do planeta.
Viajar a trabalho parece glamouroso no papel. Dá até pra fingir que é legal nas fotos filtradas do Instagram. Mas a verdade? É cansativo, frustrante e, acima de tudo, solitário. Eu trabalhava na Route 66, uma empresa do setor automobilístico. Por trás do nome descolado e do branding moderno, a realidade era bem menos charmosa: entregas urgentes, clientes exigentes e problemas logísticos de tirar o sono.
E, claro, tinha o pequeno detalhe de que a Route 66 era da minha família. E quando você é filha do dono, as escolhas costumam vir disfarçadas de ordens. Eu não deveria estar lidando com entregas, não era nem minha área. Mas quando surgia um cliente "grande demais pra errar", adivinha quem era enviada com um sorriso e uma pasta cheia de documentos?
Pois é.
E como se não bastasse, meu estômago era um drama à parte. Bastava uma mordida em qualquer coisa minimamente suspeita pra ele iniciar um motim. Aeroportos me deixavam nauseada, voos atrasados me tiravam do eixo e a comida de bordo era basicamente uma sentença de morte digestiva.
Quase trinta minutos depois o motorista finalmente parou em frente ao LAX. Estacionou como se estivesse largando entulho e antes de acelerar para longe, murmurou um "pendeja" que não deixava espaço pra dúvida.
Como a viagem era curta, levei só uma bolsa. Nada de despachar bagagem, o que me economizou alguns minutos. Fui direto ao totem de check-in automático, confirmei o voo e segui pro raio-x.
E ali começou o strip-tease involuntário: scarpins fora, relógio fora, cinto fora, dignidade quase fora também. Depois de mostrar até a alma pro detector de metais, fui liberada.
O telão já piscava o embarque — e pela ansiedade da voz no alto-falante, não era o primeiro aviso.
Com os documentos em mãos e os dedos dormentes nos sapatos assassinos, iniciei a última etapa da maratona: a corrida patética até o portão de embarque. Meus pés gritavam, os ombros estavam tensos e tudo que eu conseguia pensar era: só mais um pouco, só mais um pouco, só mais um pouc—
Foi quando ele surgiu.
Dobrou o corredor com a cabeça baixa, completamente absorvido no celular como se o mundo ao redor não existisse. E ele era enorme. Não do tipo "modelo alto de revista", mas do tipo "parede viva em forma de homem". O boné escondia uma parte do rosto e o moletom dava a impressão de que ele carregava o peso do universo nos ombros.
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ALL WE HAVE [NOVA VERSÃO EM ANDAMENTO]
Fiksi PenggemarUma distração. Uma colisão. Um celular perdido. Charlie Dean percebe que seu celular desapareceu após esbarrar em um estranho no aeroporto -rápido demais pra significar qualquer coisa. Ou assim ela pensava. Dias depois, o homem reaparece. Não pessoa...
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