"É melhor ter companhia do que estar sozinho, porque maior é a recompensa do trabalho de duas pessoas. Se um cair, o amigo pode ajudá-lo a levantar-se. Mas pobre do homem que cai e não tem quem o ajude a levantar-se!"
Eclesiastes 4:9-10
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Quando aceitamos ficar, a senhora correu, avisando todos os que passavam, "Uma festa de casal!", gritava em alto e bom som.
Olhei para o Jungkook, acreditando que aquele aconchego que estavam a nos dar não poderia ser verdadeiro, ele sorriu, piscando para mim.
-Acho que os boatos estavam certos, não é mesmo? - digo, lembrando-me das histórias que o meu tio contava.
-Estavam mesmo, Hany é uma cidade calorosa. Será que deveríamos ajuda-los com a preparação?
Olho em volta, todos estavam correndo apressados depois de saber que ficaríamos por mais tempo, não pareciam querer nossa ajuda.
O que a senhora gritará ainda estava preso em minha mente, "Uma festa de casal", o que será que é isto?
Sinto minha saia ser puxada, como se alguém quisesse chamar-me a atenção. Jungkook toca-me o ombro, tentando mostrar-me a criança aos meus pés.
Era uma menininha de bochechas rosadas, ela pareceu tímida quando notamos sua presença, mas não saiu de perto de nós. Abaixo à sua altura, para conseguir ver seu rosto.
-Oi. - digo, sorrindo para ela que ficou mais tímida - Tudo bem?
Ela apenas acena com a cabeça, colocando o polegar na boca, contendo a timidez.
-A senhora poderia me seguir? - pergunta-me, tão baixo que quase não a escuto.
-Claro que eu posso, mas aonde a mocinha vai me levar?
Ela puxa-me a saia novamente, não querendo dizer onde iriamos. Olho para Jungkook que acena com a cabeça, quase que dando consentimento para segui-la.
Todos estavam sendo muito amistosos, por isto, não nego seguir e menininha que vai a frente.
Sigo-a até uma pequena casa, três senhoras esperavam-me a frente, sorriram ao ver-me, parecendo já conhecer-me.
-Que bom que chegou, estávamos ansiosas por vê-la, espero que o convite repentino não tenha a assustado. - felicita-me a mais nova das três.
-Não assustei-me, obrigada pelo convite. - digo de imediato.
-Deixa eu apresentar-lhe essas velhas senhoras - ela continua - Eu sou a senhora Fernsby. Esta são a senhora Baker e a senhora Palmer, a convidamos pois queremos arruma-la para o almoço.
-Arrumar-me? Por favor, não precisam se incomodar, estou bem.
-Minha querida, não precisa ser modesta, nem precisa sentir-se sem jeito, imagine que este é um presente que você esta a nos dar, faz tempo que não temos recém casados na vila. - tranquiliza-me a senhora Palmer - Agora diga-nos o seu nome completo.
-Ah, claro - esqueci-me que não havia dito - Sou Catalina Reli... - interrompo minha fala, não poderia usar meu sobrenome de solteira, provavelmente teria que usar o de Jungkook, mas ele nunca havia apresentado seu sobrenome à mim - Ah, desculpe, sou uma recém casada não acostumada com o sobrenome do marido.
Elas riem, tão alegres que pareciam as próprias recém casadas.
-Não tem mal algum. Eu mesma demorei meses para acostumar-me com o sobrenome do meu marido. - me tranquiliza a senhora Baker, a mais velha das três - Mas chega de assunto, não temos tempo, precisamos arruma-la.
-O que as senhoras vão fazer em mim exatamente? - pergunto receosa.
-Devemos começar primeiro com um banho quente para tirar a doença do corpo, preparamos a banheira com pétalas de rosa, isso a fará ficar perfumada feito uma flor. - explica-me a senhora Fernsby, conduzindo-me para o outro cômodo. Uma enorme banheira com água quente aguardava-me. A superfície estava forrada de rosas vermelhas.
-Que lindo. - digo, quase que para mim mesma.
-Por favor, experimente, entre, a agua esta no ponto ideal. - oferece-me a senhora Palmer.
Ensaio desabotoar o vestido, imaginando que elas sairão da sala, mas não o fazem, permanecem a olhar-me sem nenhum pudor.
Reluto perguntar se iriam retirar-se, mas impeço-me, cogitando ser mal educada.
Desabotoo o vestido, deixando-o deslizar pela cintura, até chegar aos pés.
Entro na banheira com a ponta dos dedos, encostando as costas em uma das laterais. A agua estava realmente relaxante, cheirava bem por conta das pétalas.
Quando acomodo-me, elas correm para mim, cada uma fazendo-me um carinho.
A senhora Palmer acaricia meus cabelos, os alisando com um pente. A senhora Fernsby acaricia-me os pés, enquanto a senhora Baker insere algumas loções na água.
É errado dizer que sinto-me bem nesta posição? Receber carinho.
Depois do banho, elas vestem-me com roupas novas, o tecido é leve e bem costurado, serve-me como uma luva, ficando perfeito em todos os lugares.
Meus labios secam ao ver-me no espelho. Estava perfeito, perfeito até demais. Acredito que nem minha tia faria algo tão bonito para mim.
Não deixo de notar o olhar das três vislumbradas comigo, como se eu fosse sua própria neta.
-Por que estão a ser tão gentis conosco? - viro-me para elas - Quando entramos na cidade nos acusaram de invasão, até fomos presos, então por que agora nos tratam tão bem?
Elas se olham. Estou pronta para ser pega em uma armadilha, para prenderem-me novamente e cortarem-me a cabeça fora, mas não acontece. A senhora Baker vem até mim e segura minha mão com ternura.
-Não ligue para aqueles três, eles acham que são responsáveis pela guarda da cidade, desculpa se a trataram mal, mas isto, fez com que vocês os dois não passassem despercebidos por nós. Neste momento de aflição, seu marido a acariciou com todo o amor que tinha, nos contaram como ele não mediu esforços para defender-te. Nós desta cidade, apreciamos o amor de um casal, principalmente quando é puro e tão recente como o de vocês dois. A algum tempo, na realidade, a alguns anos, deixei de sentir a energia das pessoas, um dom que preservei minha vida toda, mas quando pus meus olhos em vocês, eu consegui sentir. Você esta perdida, não é mesmo minha criança? Deixou jóias preciosas para trás, mesmo que algumas dessas jóias ainda fossem brutas e você procurasse com todo o coração desvenda-las, você as amava. Eu vejo a cor da saudade em você, do medo, da insegurança e principalmente da ansiedade, mas no meio dessas cores e emoções que insistem ficar misturadas, eu vejo uma forte cor rosa, tão delicada como este seu anel, o quartzo rosa, mas não se engane em achar que por ser delicado será frágil, estou vendo uma cor forte, forte o bastante para desvendar sentimentos e derrubar medos, tome conta dela, ela vai tomar conta de você.
-A senhora consegue ver? - pergunto, quase que sem chão - A senhora não tem medo da inquisição?
Ela olha-me com doçura, levando uma das mãos ao meu rosto para acaricia-lo.
-Pobre criança, não foi a primeira vez que teve que abandonar pessoas queridas para si, o seu sofrimento parti-me o coração, é maior do que qualquer outro ser humano já sentiu, mas eu sei que esta dor, será substituída por um sentimento muito maior.
Estou tão focada na senhora Baker, que esqueço-me das outras que nos olham sem entender, ou apenas eu imagino que elas não entendam.
-Bom - diz em voz alta a senhora Fernsby - Já que estamos prontas, vamos para a comemoração, devem estar nos esperando.
Volto a olhar o espelho, notando que lagrimas haviam escorrido pelo meu rosto, de novo estava a chorar, parece que estas feridas, mesmo depois de tantos anos, ainda não cicatrizaram.
Voltamos para o meio do centro comercial com um batalhão atrás de nós, parece que todas as mulheres da cidade haviam se arrumado apenas para esta comemoração.
O centro parecia diferente, tudo estava decorado com flores, e uma grande mesa montada na praça principal, provavelmente teria uns 50 lugares. As comidas em cima pareciam frescas e feitas no mesmo dia, tudo estava perfeito, parecia um casamento de alguma família real.
De forma automática, procuro Jungkook no meio de todos, o achando facilmente conversando com algumas pessoas, ele também parecia diferente, estava com roupas novas, seu cabelo meio úmido cobria quase toda a testa, não poderia negar, ele estava lindo.
-Seu marido esta ali, vai ter com ele, esperaremos na mesa principal.
-Tudo bem, senhora Fernsby. - digo, despedindo-me delas.
Não estava nada bem. Fiquei nervosa ao vê-lo. Não sei que bicho casamenteiro invocou em meu corpo, mas não deixo de ajeitar o cabelo antes de seguir em sua direção.
As pessoas que conversavam com ele se afastam ao ver-me aproximar, ele fica sem entender, mas sorri ao ver-me, mostrando aquela pequena covinha na bochecha.
-Parece que fizeram uma limpeza em você também. - caçoo, precisava urgentemente quebrar a tensão que estava a sentir.
Ele estende os braços, mostrando-me a roupa nova.
-Parece que não aguentaram nos ver com aquelas roupas. - comenta.
Rio, estávamos tão descontraídos, conversando de maneira normal em uma cidade normal, a luz do dia, sem medo de perseguições, sem medo de torturas, apenas eu e ele.
-Obrigada por ter me salvado, mais uma vez, devo-lhe a minha vida.
-Você não precisa me agradecer, Catalina, nessa enrascada, estamos juntos.
Meu coração se aquece, como poderia existir alguém que simplesmente me faz esquecer de tudo ao redor? Que me faz esquecer que deixei minha família, meus amigos, minha casa, tudo, para achar minha inocência.
-Felicidade ao casal!! - gritam todos ao redor.
Sou puxada do meu próprio transe, notando que todos nos olhavam com copos de cerveja na mão, bridando com as mãos ao alto.
Esta alegria, este companheirismo desta cidade, vou sentir imensa saudades.
-Agora que os noivos estão juntos, devemos fazer a dança de inicio! - grita um dos homens na multidão.
Dança de inicio? O que poderia ser isso?
Olho para Jungkook, que segura minha mão, tão firme que sinto sua pulsação a cima da minha.
Ele parece entender o que é esta dança, já que conduz-me para o centro de todos. Será que o explicaram? Nunca soube sobre isto, provavelmente é um dos vários costumes de Hany.
Estou nervosa, tensa, minhas mãos suam, minhas mãos sempre estão à suar, mas tudo piora quando tem mais de cem pessoas nos olhando atentamente e eu nem sei o que fazer.
Jungkook puxa-me para si, fico de frente para seu rosto, que fita-me sem constrangimento.
-O que é esta dança? - cochicho quase sem mexer os lábios.
-A iniciação do casal, ensinaram-me hoje. Vou fazer algumas coisas constrangedoras, não pense muito sobre.
-O que você quer dizer com constrangedoras? - acabo corando.
-Não é tradição a esposa saber. - responde-me rápido o bastante para me calar.
Bufo, queria estar preparada para o que estar por vir.
Sua mão posiciona-se na minha cintura, quase que sinto um choque em minha espinha. O tecido na parte da cintura era o mais fino, conseguia sentir seus dedos sobre minha pele, escolheram este vestido de forma proposital?
Antes de começarmos os passos, ele aproxima-se de mim, tão perto que sinto sua respiração sobre minha pele. Não consigo conter, prendo a respiração, estou ciente que vai beijar-me, mas não foca em meus lábios, apenas ajeita um fio de cabelo para trás de minha orelha, consigo voltar a respirar quando afasta-se de mim, parece que o sol à cima de nós ficou mais quente.
-Isso faz parte da dança? - ouso em perguntar.
Ele sorri, conduzindo-me em simples passos de dois para lá, dois para cá, mas com Jungkook, isto parecia uma dança digna de algum show famoso. Sua firme mão em minha cintura conduzia-me por entre os passos que desconhecia no momento.
Uma música iniciasse ao fundo, alguns casais começam a dançar à nossa volta, parece que não seriamos os únicos à dançar, menos foco para nós, consigo ficar mais tranquila.
-Esta nervosa? - pergunta-me, quase que em um sopro de voz.
-Não gosto de tantos olhares. - confesso.
-Fingir que somos só nós dois aqui, ajuda de alguma forma?
Permaneço a olhar firme em seus olhos. Isto é estranho. Sinto que se estivesse só nós dois, poderia cometer um crime grave. Se estivesse só nós, poderia sem pensar duas vezes, levar-me pelas emoções de um coração frágil que não é acostumado a ser cuidado pelos outros.
Sua mão gélida toca-me o rosto, gemo baixinho, seu toque ainda da-me choque.
-A febre voltou? Esta se sentindo bem?
-Jungkook - o chamo, chamando-o a atenção para além do meu rosto vermelho - Qual seu sobrenome?
Seus olhos oscilam sem entender minha pergunta.
-Por que quer saber?
-As senhoras perguntaram-me, não sabia o que responder. Preciso saber para manter nossa pequena mentira.
-Você esta certa. Então, já que és minha esposa, devo chama-la de senhora Jeon. Catalina Jeon.
Meus braços arrepiam. Ao dizer meu nome falso de casada, parecia que tudo estava certo, como se estarmos aqui hoje, fosse o correto. O lugar ideal para estar, sem nenhum erro. Não quero parar mentira, quero continuar, seu toque conforta-me.Quando o almoço, que mais parecia uma festa, acaba, nos trazem o Kafé, para partirmos para a nossa viagem.
Na entrada principal, onde tem o arco natural de flores, partimos. Não deixo de olhar para trás, vendo o povo da cidade acenar com tanto afinco para nós. Consigo ver por ultimo a senhora Baker, olhando-me com lagrimas nos olhos, acenando para nós, ela provavelmente sabia mais do que eu o que estava por vir.
Obrigada cidade dos frutos por nos acolher tão bem, obrigada Hany.
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Santa Inquisição
RomanceDepois de ser acusada falsamente de bruxaria, Catalina precisa viajar pelas quatro cidades, cogitando chegar à Melas, onde esta decidida a convencer o santo parlamento que bruxaria não passa de uma especulação da época. Uma viagem arriscada para um...