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"Fora ficam os cães, os que praticam feitiçaria, os que cometem imoralidades sexuais, os assassinos, os idólatras e todos os que amam e praticam a mentira."

Apocalipse 22:15

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Levanto-me sem fazer barulho.
Tento esquivar das roupas jogadas no chão para conseguir chegar à porta. Realmente não era certo meu quarto e de Cecily ser tão desordeiro, mas isto não importava, provavelmente tia Bahma deixaria tudo limpo antes da chegada do convidado principal que hoje virá.
Passo pela pequena brecha da porta.
Antes de sair, observo se Cecily continuou à dormir, se acordasse, sei que começaria o nervosismo, queria evitar esse desconforto para ela.
-Finalmente levantou. - comenta meu tio quando passo pela cozinha.
Noto os diversos pratos sofisticados em cima da mesa, peixe, legumes, frutas e algo que realmente fazia tempo que não comia, carne.
-Parece que vamos ter uma grande festa. - digo.
-Sabe, ainda acho que sua tia pensa que convidamos a vizinhança inteira. - cochicha em meu ouvido.
Contenho o riso, se a tia me pegasse rindo de uma situação que acha ser tão séria, me deixaria ajoelhada no meio dos porcos por uma semana.
Antes de sair, coloco as botas que meu tio usa, ficavam um pouco folgadas nos meus pés, mas é o ideal para se passear na floresta com animais, principalmente nesta época do ano.
Atrás da casa, localizava-se o chiqueiro onde dormiam os porcos. Mesmo que eu soubesse que eles não são de estimação e nem muito menos para se pegar carinho, sempre foi um bom passatempo dar nome para cada um deles.
No total são cinco, Emory a mãe, suas duas filhas, Isobel e Anya, seu filho, Asher e o pai, Robin. Robin ficava enciumado quando tentava chegar perto de suas filhas, sempre tentava me derrubar, me assustando e assustando os outros ao correr atrás, mas Emory sabia que eu não seria capaz de lhes fazer mal, por isso, sempre grunhe para que ele não chegue perto.
Pego um dos cajados de madeira que ficavam atrás da porteira. Desfaço o nó que prendia a fechadura, e sem muita demora, solto-os. Eles sempre demoram a entender que podem sair, por isso os chamo diversas vezes. Na maioria dos dias, preciso entrar para os expulsar a força, mas hoje não, eles logo entendem e seguem correndo em direção à floresta, sorrio, talvez, depois de tanto tempo, tenham entendido a hora da diversão. Robin vai na frente, como se fosse o líder, Asher, Anya e Isobel, seguem atrás de Emory que anda lentamente. Todos parecem muito mais gordos desde a ultima vez que os levei para "passear", não queria que engordassem tão depressa, isso significaria que não poderia os ver mais, meus tios ainda não decidiram se os venderiam ou esperaríamos até um momento especial para os comermos, todas as alternativas são difíceis de aceitar, deve ser muito triste ser um porco.
Quando o sol já esta bem alpino e os porcos já comeram tudo o que tinham para comer, resolvo voltar. Preciso correr atras de Asher e Anya para que entrem no chiqueiro, custa um pouco de tempo, mas depois que sua mãe entra, eles seguem correndo para dentro.
Dou-me por aliviada, a pior parte do dia já havia passado.
Quando volto para casa, Cecily já estava acordada, comendo como uma verdadeira lady na mesa da cozinha.
-Catalina, que bom que chegou, diz para a mamãe parar de me importunar e me deixar mais ansiosa do que estou.
-Você está bem ciente que ninguém consegue convencê-la de fazer algo contrário as suas próprias ideias, certo? - murmuro.
Cecily bufa, sabia que estava derrotada, essa era a sensação de ter alguém controladora como mãe.
-Eu só gostaria que esse encontro não me deixasse tão nervosa. - suspira ela.
Cecily e eu, sempre fomos muito próximas, até mesmo antes da morte de meus pais. Ela, mesmo sendo mais nova e tendo personalidade totalmente diferente da minha, sempre foi minha melhor amiga, quem eu podia confiar minhas lagrimas, meus sorrisos e minhas angustias. Quando meus pais se foram, fiquei duas semanas seguidas sem dormir, escalava as arvores mais altas para observar as estrelas, ficava horas conversando com o que eu imaginava ser eles, Cecily ficava todo o tempo de baixo da arvore, as vezes cochilava, mas ficava ali, tentando dar-me todo o apoio.
Olhando para trás, vejo o quanto eu não fui a única que sofri com a situação.
Envolvo meus braços por cima de seus ombros, dando um abraço, as bochechas dela coram.
-Não fique nervosa, vou estar aqui com você, protegendo-te sempre, tudo bem?
Ela acena. Prometi protege-la e é o que farei.
-Nossa, que cheiro! - repulsa tia Bahma ao entrar na cozinha - Você esta fedendo Catalina.
Dou de ombros.
-A senhora nunca reclamou antes. - digo.
-Porque nunca tive motivos para reclamar. Levanta e vá tomar um banho, mas antes disto, vá ao mercado e compre sabão castile, apenas uma barra será suficiente para banhar-te e banhar Cecily.
-Castile? Tem certeza, mãe? Este sabão é demasiado caro.
-Pare de reclamar. Temos que impressionar o seu noivo. Vá logo Catalina, tem que voltar antes que o sol entre nas montanhas, vou preparar a água em instantes.
Cecily olhou para mim. Apenas com o olhar, sabia que ela pedia desculpas pelos rompantes inevitáveis da mãe, como se eu já não convivesse tempo suficiente para não me importar mais.
Tia Bahma me entrega algumas moedas de prata, também individualmente entrega-me duas moedas de ouro.
Antes de sair, tiro as botas do tio, colocando sapatos mais adequados para moças, até menos confortáveis que as botas, mas é o convencional para ir ao mercado.
O sol já não esta alpino quando saio de casa. Sopra um vento fresco sobre as árvores, o ideal para passar no rio no caminho para o mercado, não posso perder a oportunidade de ouvir o som da água agitada, posso aproveitar para tirar toda a sujeira que os porcos me fizeram. Tia não gostava que eu e Cecily fossemos para lá, ainda tinha-se a superstição que bruxas faziam rituais satânicos por ali, as filhas de satã. Não conseguia acreditar nestas hipóteses. Nunca havia visto um sequer ser humano à fazer estranhos rituais na floresta, nem mesmo em noite de lua cheia, isso era apenas para assustar as crianças. Também não posso unicamente dizer que não exista algo assim, uma bruxa não pode ser simplesmente inventada pela imaginação humana, várias já foram presas em cidades vizinhas, acusadas por seus próprios vizinhos e conhecidos, algo assim não pode ser meramente uma mentira, porém, acho difícil um ser místico viver em Airohpue, uma vila tão pequena e sem mistérios, por isto a maioria dos casos são em Melas, lá sim é um lugar para viver, de acordo com o que os viajantes dizem.
Chego à beira do rio, levanto um dos pés para conseguir tirar os sapatos, a água corrente faz um barulho suave sobre as pedras, sempre é bom ouvir a musica que a própria natureza faz. Ergo meu vestido à cima dos joelhos, deixando a pele mais a mostra, olho em volta para ter a certeza que estou sozinha, realmente estava. Dou mais alguns passos. Minha pele se arrepia quando a água gélida toca meus dedos, não importa quanto calor esteja, a água corrente sempre estará fria. Ajoelho-me sobre as pedras para conseguir lavar meu rosto, braços e pernas, preciso esfregar um pouco mais para tirar as manchas da lama, não havia percebido o quanto estava realmente suja.
Olho para o meu rosto refletido na água, me sinto renovada, limpa e pronta para encarar a sociedade no mercado.
O mercado é o típico lugar onde as pessoas se reúnem para fofocar sobre tudo e todos. Já sou velha o bastante para ainda não estar comprometida, sendo que Cecily já esta quase noiva, sei que vão dizer sobre quando me verem a passar.
No caminho para lá, relembro o que tia Bahma pediu que comprasse. Sabão Castile, algumas especiarias e principalmente, o colar de contas, serviria para Cecily cheirar muito bem, isso certamente encantaria o senhor cavaleiro seu noivo.
-Bom dia, menina Catalina. - cumprimenta-me uma das vendedoras.
A montra estava bem exposta, varias jóias colocadas no inicio do centro, realmente lindo, mas impossível de comprar.
-Bom dia, a senhora passa bem? - a cumprimentei de volta.
Ela acena, voltando a atenção para alguns viajantes que param para analisar sua mercadoria. Aproveito para distanciar-me de seus itens, se ficasse mais alguns minutos, provavelmente gastaria todas as moedas de minha tia.
Desvio a atenção de tudo e todos, focando apenas nas lojas certas.
-Bom dia, menina Catalina, como tens passado? - pergunta-me a dona da loja de sabão, seus itens eram sempre muito frescos, incluíam palitos de avelã, para limpar os dentes, colares de cotas de vários cheiros e ainda vários tipos de sabão - Já faz algum tempo que não vou a taberna de sua tia, tem corrido tudo bem?
-Sim, tudo esta bem - respondo - Só hoje que a taberna não irá abrir.
-Fiquei sabendo, o cavaleiro vem hoje, não é mesmo? Cedric o nome dele, certo? A Celestia deve estar muito feliz, este realmente vai ser um grande casamento para Cecily.
Encolho os ombros.
Mesmo que eu gostasse da senhora da loja, não gostava de dar muitas informações que não eram minhas, parecia de toda forma, fofoca, porém, é uma grande oportunidade para esbanjar a felicidade de Cecily e isto eu podia fazer, mostrar o quanto minha prima seria feliz.
-Tia Bahma ajoelha à Deus todos os dias, agradecendo pela filha ótima que tem, pela ótima personalidade de Cecily ter coincidido com um cavaleiro, um nobre que vive em uma cidade tão grande como Melas. - digo.
-Fico tão contente, quem diria, aquela menininha que adorava que eu contasse histórias de romance, agora esta muito bem comprometida. - cada palavra a faz sorrir, pairando o olhar, como se relembrasse de algo que a confortasse e a deixasse feliz - Mas e você? Esta à se encontrar com algum rapaz?
Pronto. A pergunta que eu realmente não gosto de responder, a pergunta que faz as pessoas entrarem de mais no meu espaço e invadirem a minha privacidade.
-Ainda não tenho ninguém. - respondo em seco.
-Não se preocupe, minha querida, pergunto por perguntar. Cada moça tem seu tempo, sei que se sente pressionada, todos devem pressiona-la por sentirem o medo da sua geração, a geração dos seus pais acabar em você.
-As pessoas podiam parar de me pressionar.
-As pessoas podiam parar de fazer muitas coisas, mas elas nunca vão parar. - ela toca em meus ombros, massageando levemente, para me acalmar - Me lembro como se fosse hoje, você chegando por esta vila, tão assustada. A menina que venceu a Peste Negra, mas foi obrigada a abandonar os pais para sobreviver. Talvez ninguém consiga entender a dor que você sentiu e sente, ninguém da o devido valor.
-Não me sinto menosprezada. - confesso.
-Não sente por que nunca sentiu o contrário. Você provavelmente veio na minha loja para comprar adereços para Cecily, certo? Todos estão à presenteando, mas hoje, eu que vou presentear-te.
-Estou sem entender.
A observo pegar uma sacola de pano, virando de costas para mim, enquanto coloca vários produtos que não consigo ver quais são.
-A senhora não precisa me presentear. - digo.
Depois de mais alguns minutos, ela volta, me entregando a sacola já cheia.
-Eu sei o que a Celestia iria querer comprar para o dia de hoje, use o dinheiro que ela lhe deu para comprar algo para você, você merece um dia feliz.
Entre olho para dentro da saca, vi o sabão castile, eu não poderia aceitar, sabia que isto era difícil de conseguir, para mim e para ela. Tiro as moedas do bolso para dar-lhe, mas me ignora, dando atenção aos outros clientes. Penso em deixar o dinheiro no balcão, mas repenso, era um presente indireto para mim, eu preciso aceitar, para mim e para o meu amor próprio.
Deixo a loja de sabão, correndo para a loja das jóias, antes que fechasse ou que o meu anel desejado fosse vendido.
Consigo chegar a tempo, é o primeiro que vejo e que compro, vale apenas uma moeda de ouro.
-Esta pedra significa algo? - pergunto, enquanto analiso o anel no meu dedo.
-Quartzo rosa, é a pedra do coração.
-Do coração? Quer dizer que é do amor? - fico desgostosa com a informação.
-Não só do amor. Esta pedra vai muito além do amor, ela cura a alma, traz paz, cuida das emoções e da sua mente.
Uma pedra que cuida de nós. Será que isso é mesmo possível?
O sol estava quase tocando as montanhas, por isso, volto pelo mesmo caminho que vim, pelo riacho, o caminho mais rápido e seguro antes que escureça totalmente.
Mesmo a água sendo corrente, parece que corre mais rápido quando esta perto da noite, a água fica mais agitada e o barulho mais intenso.
Quando passo pelo riacho, paro para poder ouvir mais a agitação. Tão intensa, mas tão suave.
Fecho os olhos.
Por que a natureza esta tão agitada?
Ouço barulho de mato atrás de mim, não era um barulho suave, não era nada comparado a um animal passando. A água esta tão agitada, que não consigo acreditar que é o mesmo rio de mais cedo.
Minha pele de repente se arrepiada, sem explicação alguma, sinto meu dedo formigar.
O anel esta apertado? Deve ser por nunca ter usado algo nos dedos, até meu corpo esta a estranhar.
Endireito a sacola no ombro, deixando minha mão livre, para analisar o anel. O sol reflete na pedra, a cor muda quando isto acontece, continua a mesma, mas com tom diferente.
-Lindo. - deixo escapar meus pensamentos.
Novamente, sem explicação, a vegetação atrás de mim se move, o rio esta tão agitado que não consigo ouvir direito o resto dos sons, mas de repente, para, tudo para, os pássaros a voarem no céu, a corrente do riacho, a vegetação, tudo. Olho em volta, isto é realmente estranho. Penso em dizer que as bruxas enfeitiçaram o lugar, talvez fosse verdade, venho aqui desde que cheguei e nunca havia sentido nada igual.
Tudo esta silencioso. Tão silencioso, que me assusto facilmente com um forte estrondo que se passa pelas minhas costas.
Viro-me rápido, quase tropeçando em meus próprios pés desajeitados.
Um homem. Um homem caído.
Dou passos para trás. Meu vestido se enrosca nos galhos do chão, me fazendo cair.
Tudo em volta esta tão silencioso, ouço apenas meus batimentos cardíacos, minha respiração esta tão agitada. Isto me assustou.
Por que ele esta sangrando tanto nas mãos? Por que esta amarrado? Ele é um fugitivo?
Meu dedo volta a formigar.
Catalina, se concentre! Ele esta ferido e desacordado.
Talvez eu deveria ter ouvido tia Bahma e nunca ter posto meus pés aqui, mas já estou aqui, desfazer o passado e minhas ações, é impossível, preciso pensar no agora.
Concentro na minha respiração, voltando aos poucos, a respirar normalmente, primeira tarefa cumprida.
Fico sobre os joelhos para analisa-lo melhor, parte do cabelo cobre seu rosto.
O que me chama mais a atenção, são as mãos. Cordas grossas prendendo seus pulsos. A corda esta úmida, provavelmente batizada com algum veneno que corrói a pele, por isto o sangramento. Este castigo só é realizado com bruxos. Então, este é o crime deste rapaz? Bruxaria?
Afasto a mecha de cabelo que escondia seu rosto.
-Ele é lindo. - meus pensamentos voltam a saltar da minha cabeça.
Mesmo desmaiado, ainda possuía uma feição de dor.
Seus braços estão vermelhos, o veneno pode estar à corroer muito além das mãos, deve ter se movimentado muito para isto acontecer.
As cordas possuem um nó tão firme que acredito ser difícil alguém soltar, mas precisava tentar, ele poderia morrer.
Não sei qual foram seus crimes, mas não sou a favor como nossos cavaleiros cuidam dos prisioneiros, a justiça não pode ser feita com torturas que transcendem a empatia humana.
Toco em cada lado da corda. Minhas mãos facilmente ardem. Parece que estou à tocar em fogo. Recuo.
Quanto tempo o torturaram com este veneno para conseguir resistir tanto?
Gemo de dor quando volto a tentar tocar no nó que o prendia. Isto era difícil, porém, não irá me custar tentar mais uma vez.
Estico minhas mãos sobre seus pulsos, respiro fundo, pronta para tocar na corda, mas ele acorda, geme de dor, treme as pálpebras e desperta, se assustando quando me vê perto de si. Imediatamente tenta esconder as mãos.
-Você não pode toca-las! - diz de imediato.
Me sinto envergonhada, como se para liberta-lo precisasse de sua permissão.
-Eu só queria ajudar.
Por que gaguejei?
Seu olhar para em mim, quase que me analisando, quase medindo se sou perigosa ou não.
-Você tocou nas cordas? - sua voz é tão suave.
Ainda estou na duvida se ele quer estar livre.
-Eu não deveria toca-las? - minha voz continua trêmula.
-Você não pode as tocar.
Estou preocupada com seu tom sério. As cordas não podem ser tocadas?
Tento me certificar que minhas mãos estão bem, por isso as olho de imediato, analisando de frente e trás, cada detalhe. Fecho e as abro, então vejo as bolhas. Bolhas começando a nascer na ponta de cada dedo. Não são bolhas de água, são bolhas de sangue.
-O que é isto? - estou mais assustada do que posso demonstrar.
Não consigo controlar a respiração que vem e vai mais depressa do que meus pulmões conseguem aguentar.
As bolhas começam a ficar doloridas, começando a crescer em outras regiões da mão além dos dedos, outras três já nasciam na palma.
-É o veneno - ele me explica chegando perto de mim - Você precisa respirar mais devagar, eu posso te ajudar, mas preciso de tempo. Este riacho segue até muito longe?
Minha mente esta um breu. Mesmo que estivesse a ouvir o que diz, não assimilava, não entendia, não processava. Eu já tinha visto aquelas bolhas antes, não conseguia me acalmar.
-Ei, ei! Preciso que esteja aqui comigo, se foca em mim! - exige para mim.
Minhas mãos tremem, meu corpo todo treme, mas me foco nele, em seus olhos que me encaram.
-O riacho segue até muito longe? Tem guardas vindo atrás de mim, se eles apanharem-me, não conseguirei salva-la, precisamos sair daqui.
-Segue até a montanha - consigo responder - Você consegue me salvar?
-Consigo. Olhe para as minhas mãos. O veneno não me faz efeito, consigo fazer o mesmo consigo, só preciso que me siga.
Quase ouço minha mãe dizer para não confiar em estranhos, também consigo ouvir minha tia gritar meu nome, junto com meu tio, que diz que ama-me e para eu voltar sã e salva para casa. Mas, principalmente, vejo as bolhas pretas a se aglomerar em minhas mãos. Minha respiração não se estabiliza, minha mente esta mais agitada do que posso aguentar. Essas bolhas, eu conheço essas bolhas.
-Qual seu nome? - me pergunta.
Não consigo responder, meu corpo todo treme.
-Meu nome é Jungkook. Como você se chama?
-Cat... - por que simplesmente as palavras não conseguem sair? - ...alina.
-Tudo bem, Catalina, isto é um ataque de pânico. Esta tudo bem, você esta aqui, viva e saudável, não se foque em mais nada, se foque em mim, apenas em mim. Me chamo Jungkook, eu vou te curar.
Jungkook.
Jungkook.
Jungkook.
Quantas vezes repeti este nome na minha mente, para grava-lo tão fundo e tentar espantar todo este pânico?
-Jungkook.
-Exatamente, Jungkook. Vamos Catalina, vamos seguir o rio.
Ainda preso com as cordas, pega em uma das minhas mãos, me fazendo segurar em sua camiseta. Ele não tem nojo das bolhas?
Minha mente ainda estava vazia, mas decido segui-lo.
O único nome que ecoava e que fazia efeito na minha mente conturbada, era o dele, aos poucos, minha cabeça foi se endireitando.
Seguro em sua camiseta, até chegar no riacho mais a baixo, onde se formava realmente o rio com água mais calma, a plantação em volta afastava qualquer um que gostaria de nadar nestas águas misteriosas, ninguém sabia o que tinha por de baixo da água, mas ele não pareceu ter medo.
-Não podemos entrar - digo - Tem histórias que muitos morreram ai.
Novamente, não parece afetar o que lhe digo, continua a puxar-me, e mesmo que eu tivesse a escolha de soltar sua camisa, não a solto, era como se eu soubesse que tinha que continuar segurando.
Sinto a água tocar-me os pés, congela meu corpo todo, então paro, como se me acordasse do transe. Jungkook continua a caminhar para o fundo, até chegar no meio do rio, então para, afundando as mãos na água.
Observo sua forma calma de agir.
Enquanto mergulha as mãos, diz algumas palavras imperceptíveis, voltando a tirar as mãos depois de algum tempo.
Pisco varias vezes. Eu não poderia estar em perfeitas condições. As bolhas deveriam causar alucinações. As cordas se foram. Jungkook se livrou das cordas.
Estou perplexa a olha-lo, então ele se vira, esticando a mão para mim.
-Deixa eu curar-te. - diz-me tão calmamente que me relaxa, me dando confiança que podia realmente me curar.
Olho para as novas bolhas negras que se formavam nos meus punhos, aquilo estava a crescer .
Morrer ou morrer? Eu escolho tentar.
Mergulho meus tornozelos na água. Aos poucos que ando mais para o meio do rio, mais alto a água sobe, até chegar bem à cima da cintura, onde Jungkook estava. Ele segura minhas mãos, cuidando para eu não escorregar na lama que estava sobre nossos pés, realmente estava escorregadio.
Depois de analisá-las, ele as submerge no rio. Não sinto nada, nem mesmo uma picada ou coceira, apenas mantém minhas mãos por um bom tempo submersas.
Por de baixo da água, sinto que ele massageia meus dedos, um por um, menos o que tem o anel, nem chega perto dele, mas cuida bem dos outros. Seus olhos se mantém fechados enquanto gesticula os lábios, como se orasse.
-Pode tirar suas mãos da água. - diz-me.
Repenso se devo. Se tira-las e ainda estiverem com as bolhas, entrarei em pânico novamente, mas não posso ficar com elas dentro da água por muito tempo.
Minhas pernas tremem.
-Estou com medo. - murmuro - As bolhas. As bolhas me assustam - confesso.
Seus dedos alisam os meus por de baixo da água.
-Olhe para mim. - me pede. Não olho. Continuo a encarar a água, estava assustada - Eu sou um curador.
Assusto-me. Esqueço de tudo, as bolhas ja não eram importantes.
-Como assim? - pergunto.
-Fui acusado de bruxaria em Drop. Querem levar-me para Melas, mas fugi. Torturaram-me das piores formas possíveis.
-Você realmente é um curador? - gaguejei.
Meus olhos estão fixos nos seus. Sem pensar, o encaro. Sua voz tinha convicção. Não podia ser mentira.
-Pode olhar.
Estava tão concentrada em sua afirmação que não percebo, minhas mãos ja estavam fora da água.
Pele limpa. Dedos normais. Tudo como antes.
Jungkook ainda as segura, cuidando como se fossem posse sua. Vira a palma para cima, me mostrando que estava tudo bem.
-Estão limpas. - respiro aliviada - O que era?
-As cordas tinham embutido o vírus da peste, mas por ter veneno junto, é mais rápido em agir. - explica-me.
-Obrigada. Muito obrigada, Jungkook, você me salvou.

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