Um buraco, um vazio...
Agora eu morreria. Naquele milésimo de segundo, eu soube. Eu queimaria. Um milhão de imagens rodopiaram em meus pensamentos.
As mãos dos mantos negros me soltaram e eu caí. Direto no centro da fogueira. Senti o calor na pele. Esperei pela dor agoniante. Pensei que queimaria, mas braços fortes me ampararam.
Abri os olhos e perdi o fôlego. Ouvi o crepitar assustador do fogo. Labaredas vermelhas e laranjas dançavam à nossa volta. Quase fiquei cega com a cor. Não entendi como não havia me transformado em cinzas. Fitei o olhar de fogo amarelado no rosto dele e acariciei a bochecha de Dukian:
- Como você fez isso?
- Eu sou o filho do fogo e do sangue. Elas não podem me queimar. – Ele sorriu.
- Saia da fogueira Hannah, senão sua mãe morrerá – um dos mantos anunciou.
- Onde ela está?
- Se deseja que ela viva, saia da fogueira.
Me agitei nervosa nos braços de Dukian.
- Isso é uma armadilha Hannah. Não acredite em uma palavra do que elas dizem.
- Mas e minha mãe? E Lucian? De um jeito ou de outro nós precisamos sair daqui.
- Eu sei disso, noivinha.
- Então vamos! – Tentei me soltar dos braços protetores dele.
- Não Hannah, nós precisamos de um plano!
- Não há tempo para isso. – Por algum milagre, consegui escorregar para o chão, e graças a proteção de Dukian, atravessei a fogueira.
- Você é maluca Hannah?! Elas vão te pegar!
Dukian ameaçou me seguir, mas de repente arregalou as órbitas. Ele moveu o corpo para frente e quando esticou o braço, uma labareda subiu uns dez metros acima de sua cabeça.
Os mantos riram atrás de mim.
- Filho ingênuo da princesa Acássia. O fogo pode não queimar você, mas pode te aprisionar.
- Suas malditas! – gritei e não sei de onde veio tanta coragem. Me atirei desvairada em cima delas.
A um passo de distância, parei. Uma a uma, elas foram baixando o capuz negro. E cada um dos seis rostos, fez meus órgãos se retorcerem. Todos os meus poros arrepiaram.
As mulheres, pareciam corpos em decomposição. Não possuíam olhos, a pele delas se dobrava pelo rosto como se derretessem, como se fossem feitas de cera.
O pouco cabelo fino, caia sujo, por cima de suas cabeças carecas, com veias roxas pulsantes. Arfei desesperada.
Dei um passo para trás e queimei o braço na fogueira. A fogueira de repente parecia minha melhor opção.
Elas esticaram os braços para mim. O Fantasma Profano apareceu atrás delas. Estremeci. Tentei voltar para a fogueira mas pelo visto não seria simples. Dukian não pôde me puxar sem que eu me queimasse. Se eu recuasse mais um passo, voltaria para a fogueira, só que dessa vez, arderia.
E eles se aproximavam. Seis mantos negros e o Fantasma Profano. Cada vez mais perto.
- Dukian, o que eu faço, agora?!
- Eu disse pra você não sair, Hannah. Merda! Elas me prenderam aqui.
Dukian sacudiu os braços e continuou aprisionado. A fumaça que escapava dos olhos do Fantasma Profano, se alastrava pelo chão. Em dois segundos aquilo tocaria em mim.
Sem pânico, Hannah. Nada de enlouquecer.
Arranhei meus braços e engoli o grito.
Não fiquei para conferir. Minha única opção de fuga era pelo lado. Eu correria e tentaria encontrar uma maneira de resgatar Dukian.
Meu coração vibrou brutalmente nas costelas quando deixei a frente da fogueira alucinada. Se eu quisesse rever Lucian e minha mãe, eu precisava acima de tudo, me manter viva.
Foi com esse pensamento que as pernas pareceram funcionar. E com um pensamento que ia direto de encontro a esse, que fui obrigada a frear com o que me deparei, onde as árvores da floresta se fechavam.
Lucian. Caído perto de uma raíz. Pálido. De olhos fechados.
Ele está morto?
- Não!!!! – gritei com lágrimas escorrendo pelo rosto e uma ardência rasgando a garganta.
Agachei onde ele estava e apoiei sua cabeça em meu colo.
- Por favor, Lucian. Fale comigo, fale comigo.
O sacudi como faria se ninasse um bebê. Ele não se moveu. Seu corpo ainda quente me deu esperanças de que estivesse vivo. Mas seus membros rígidos me deixaram desesperada. Girei a cabeça para trás e olhei para a fogueira. Os mantos negros e o Fantasma Profano, haviam desaparecido. Isso não trouxe nenhum alívio. Imaginei se não estariam logo ao meu lado naquele segundo. Observando a cena. Se divertindo com minha dor. Seria essa a parte da perda do ritual?
Sacudi a cabeça. Eu me recusava a acreditar que Lucian, poderia estar morto.
- Acorda Lucian. Acorda! – gritei de novo.
Coloquei meus dedos debaixo de seu nariz. Nada. Lucian não respirava. Seu peito não se mexia. As lágrimas escorriam pelo contorno do meu pescoço e pingavam no rosto dele.
- Não, não, não!
Enterrei os dedos em seu cabelo escuro. Acariciei suas bochechas e contornei seu pescoço que agora tinha uma nova cicatriz de tribal negro. Um sinal horrível de que ele havia sido torturado.
- Abra os olhos, Lucian. Eu sei que pode me ouvir.
Repousei a cabeça dele delicadamente na grama e encostei o ouvido em seu tórax para ouvir seu batimento. Nada. O peito de Lucian estava oco. Nenhum som.
Abracei seu corpo e soltei um choro convulsionado. Meu próprio peito esvaziou naquele segundo. Solucei.
- Não, Lucian. Você não pode morrer.
- Finalmente nos encontramos. - Uma mulher sussurrou.
Ouvi aquela voz feminina ecoar pela floresta. Me sentei na grama e procurei ao redor. Ninguém. Quando olhei para frente, já era tarde demais para fugir.
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Olhar de Fogo
FantasyUMA HISTÓRIA DE HALLOWEEN Entre na mansão e não se incomode com o ranger da porta, apenas tome muito cuidado com seus olhos. Hannah não seguiu meu conselho e acabou pagando caro por isso... Somente ao conhecer seu misterioso vizinho, e fitar aquele...
