Cena 11

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Personagens: Dora, Clarice, Cleuza, Paulo.

Clarice está no palco ao telefone, Dora bate na porta, Clarice desliga o telefone e a atende.

Dora: Sou eu, Dora.

Clarice: Entre. Nossa. Você está tão diferente. Quantas vezes pensei em você, torci para que me procurasse um dia. Não consegui fazer com que meu filho, Elias, saisse das drogas. Tentei de tudo, mas agora é tarde demais. Mais uma vez quero te agradecer, por ter me contado onde o corpo foi encontrado, se não, ele ia ser enterrado como um indigente e eu não ia ao menos ficar sabendo. Tentei falar com você no velório, tive tanta pena quando te vi naquela situação. Você era muito próxima dele não era? Ele gostava muito de você, sempre me falava de você nas poucas vezes que me ligava. Ele sempre manteve contato, sabia? Nunca quis voltar pra casa, mas também nunca deixou de me ligar. Ele escolheu essa vida pra ele, tentei fazer ele mudar de idéia tantas vezes, pedi pra ele voltar. Acho que no fundo ele queria voltar, por isso mantinha contato, mas no fim as drogas eram mais fortes e prendiam ele por lá. Não consegui fazer meu filho sair das drogas, mas se eu puder fazer alguma coisa por você, é só me falar. Eu, eu quero ajuda, mudar de vida, sozinha não consigo, mesmo se tentasse. Me sinto um lixo, percebi que o bagulho que me domina, não o contrário. Não sabia mais o que fazer, você foi a única que já me estendeu a mão, quis te procurar. Quero sair dessa.

Clarice: Fiz uma coisa, não sei se você vai gostar. Logo após você ligar pedindo ajuda, chamei sua mãe, ela está na porta, fez questão de vir. Entenda Dora, foi preciso, você é menor, nenhuma clínica aceitaria seu caso sem autorização.

Dora: Você me traiu! Além disso, ela não quer saber de mim.

Clarice: Fale com ela, vai se surpreender.

Entram Cleuza e Paulo, Clarice fica no telefone em um canto. Cleuza abraça Dora chorando.

Cleuza: Dora, procurei tanto por você! Pensei que nunca mais te veria. Fiquei tão preocupada.

Clarice: (vindo em direção a ela após desligar o telefone) Nada. Não tem vaga em clinica gratuita, só ficando na fila de espera.

Cleuza: Não tem problema. Eu dou um jeito, pago uma clinica particular.

Dora: Eu sei que você não tem dinheiro, mãe. Pra que prometer algo que não vai
poder cumprir? Quer fazer papel bonito na frente dos outros?

Paulo: A Dora tem razão Cleuza. Você não tem como pagar.

Dora: Viu?! Ela só diz por dizer, depois me põe pra fora de casa de novo!

Paulo: Calma, no caminho eu vim pensando. Eu pago o tratamento. Tenho alguma coisa na poupança, vendo meu carro.

Dora: Eu não quero nada de você. Sei que não gosta de mim.

Paulo: Você é muito boba. Você não tem a menor ideia de meus sentimentos. Claro que eu não gosto de você, do jeito que você está, quem gosta? Mas eu gosto da sua mãe, do seu irmão. Somos uma família e não quero mais ver sua mãe chorando por você. Enquanto você ficar assim, ninguém lá em casa vai ser feliz. Depois que você se tratar, quem sabe a gente não se conhece melhor, fica amigo? Um carro não é nada se eu puder fazer alguma coisa pela minha família.

Clarice: Venham, eu fiz um chá. Vamos conversar com mais calma lá dentro.

Os três saem de cena.

Vida de Droga - CompletoOnde histórias criam vida. Descubra agora