A dor é necessária para obtermos conhecimento

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E na pracinha que nós tomávamos sorvete, no mesmo banco e no mesmo chão sujo, foi ali que meu eu interior tomou posse de mim e falou tudo o que havia descoberto naquela manhã. E a Sofia permanecia calada, assim como no dia dos apelidos, eu sentia que ela também ria. E me senti um lixo. Ela havia mesmo falado tudo aquilo. E eu era uma otária. Abracei ela depois daquilo, e em seu ouvido falei bem baixinho para que ficasse em sua memória por um longo tempo: obrigada Sofia.
Fomos até a esquina e nos despedimos. E fim.
Não tinha mais jeito de ter uma amizade com alguém que você não pode confiar. Não seria normal eu sair como se nada tivesse acontecido. Mas saí. E chorei.
Eu nunca chorei tanto em toda a minha vida. Admito que ás vezes quando leio alguma carta que ela escrevia para mim, choro aos poucos, me despedaçando com leveza, mas a vida não é tão ruim assim. Ela não é ruim com quem não é ruim. Ela sempre nos surpreende.
No outro dia, me arrastei para a porta da sala de aula como antes. Parecia que eu estava no passado, como se os cientistas tivessem mesmo criado a tal máquina do futuro e do passado, e eu estava sendo a cobaia. Meus olhos estavam inchados pelo choro que durou a noite toda e apenas algumas amigas perceberam. Essas sim são minhas amigas.
Enquanto eu ouvia a menina dos apelidos tentando me irritar achando que eu estava com ciúmes de um ser tão sujo como a Sofia, eu escrevia uma poesia na minha mesa. Eu escrevia por que via e ainda vejo o bem sentado do meu lado e falando que tudo vai ficar bem.
E no final da aula, a poesia ficou tão grande que fiquei depois copiando ela para o meu caderno enquanto a sala permanecia deserta. E quando saí, tomei um susto. Minhas amigas me esperaram. E depois de um sorriso de verdade entregue à cada uma delas, fui para casa.
No meio do caminho, lembrei que tinha esquecido um trabalho na escola e voltei correndo. E foi nessa volta que a vida topou comigo.
Eu encontrei tantas pessoas que me fazem feliz, tantas pessoas que me perguntaram o por quê dos meus olhos inchados e eu dizia "nada fazia sentido". Mas eu sentia e sabia que tudo sempre tem um propósito.
E quando eu estava indo embora, na virada da esquina, vi a Sofia. E ela viu como eu estava rindo com meus amigos, como eu parecia tão feliz, afinal, eu tinha amigos também, o que isso ela desconhecia.
E hoje em dia, nem choro por gente. Que fiquem os fiéis e que fujam os covardes. Eu aprendi que devemos ser amigos mas não ter amigos. Mas há exceções para amigos de verdade. E eu gosto disso.
Nem preciso dizer o tanto de gente nova e legal que conheci depois da Sofia. Não preciso de um melhor amigo, mas de amigos verdadeiros. E é um desses motivos pelo qual todos os dias, eu falo bem baixinho para que eu sempre lembre do que a vida me deu, mais que uma simples aprendizagem de uma aula, mas para a vida toda: obrigada Sofia.

SofiaOnde histórias criam vida. Descubra agora