Alana

83 7 0
                                        

Percorria os corredores, apressada.

Meus olhos percorriam atentamente cada fresta, canto e segredo que perpassava meu caminho. Onde demônios estão essas duas? Já é o terceiro dia de festejo e não as vejo em lugar nenhum.

Para meu profundo alívio, encontrei Aquata e Arista cochichando em um canto. Me aproximei a passos largos, apressada. "Por onde estiveram? Estava preocupada!"

Elas trocaram risinhos e olhares cúmplices. Revirei os olhos, disfarçando a minha curiosidade. O que foi que aprontaram?

Terão o resto da vida para me contar, concluí. "É melhor que voltem para o salão agora. Papai já notou que não estão lá."

E é bom que tenham uma boa desculpa, pensei comigo mesma, enquanto nós três voltávamos ao baile. Papai não tem muita paciência com aventuras.

Pelo menos estavam se divertindo... Attina e eu estávamos uma pilha de nervos, do início ao fim daquele pandemônio caótico que chamavam de festa. Que péssima ideia de nos voluntariarmos para ajudar o papai – os nós de minhas costas pareciam estar quase petrificados.

Se bem que, mesmo se não nos voluntariássemos, acabaríamos envolvidas na organização de todo o jeito. Embora fique lisonjeada que papai confie tanto em nós, sinto que ás vezes somos sobrecarregadas. As duas mais velhas, as mais responsáveis.

Papai brincava, falando que a coisa tinha "desandado" desde o nascimento de Adella – pois todas as outras filhas que nasceram após ela acabaram ficando um tanto quanto... Inconsequentes.

Para não dizer doidas.

Chegando ao salão, fiz questão de dispersar minhas irmãs na multidão na forma mais natural possível. Assim teriam menos problemas.

Suspirei. Quando que isso vai acabar? Eu quero dormir...

Conferi minha imagem no espelho colado à parede, só mais uma vez. Tinha pânico que todo o meu inegável cansaço estivesse transparecendo em minha aparência – seja em postura ou como olheiras.

Para a minha alegria, não. Sabia disfarçar muito bem, com atuação e maquiagem.

Modéstia a parte, eu estava muito bonita. Como sempre.

"Não haviam me avisado que Narciso compareceria." Uma voz debochada me tirou a atenção de meu reflexo.

Me voltei à mulher que puxara assunto, com um sorriso cortês. "Oh, não, não, não." Brinquei de volta. "Ele não é tão bonito quanto eu."

A mulher bufou, sorrindo. A estudei por alguns segundos, tentando reconhecê-la. Tinha longos e lisos cabelos ruivo-escuros. Sua maquiagem era escura e de tons terrosos, assim como suas roupas.

"Não se lembra de meu nome, não é mesmo?" Ela pareceu ler os meus pensamentos, despreocupada.

Normalmente morreria de vergonha em admitir, mas àquela altura da festa, nem me importava mais. "Mil perdões." Dei de ombros, derrotada.

"Está tudo bem. Eu imagino, deve estar sendo complicado. Você está só subindo e descendo há dias, cuidando de tudo e de todos o tempo todo, para que esteja tudo perfeito. Tão atribulada, dificilmente lembraria de uma deusa menor. Ainda mais com tantas celebridades presentes." Ela deu de ombros. "Sou Nêmesis."

"Oh. Sim." Recordei-me. "Confesso que não a imaginava assim."

Ela ergueu a sobrancelha. "Já me imaginou alguma vez?"

Eu sorri. "Todos nós temos estereótipos em nossas cabeças, creio eu. Só não achava que seria tão... Tranquila."

Seu tom de voz era baixo, seu semblante beirava ao tédio e sua postura parecia confortável com o ambiente.

Aqui no MarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora