2. Novato

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Naquela manhã, antes mesmo do despertador tocar, eu já estava acordado - o que era uma merda, levando-se em conta de que eu havia tido apenas 4 horas de sono na noite anterior.

Durante algum tempo, tudo o que eu fiz foi ficar deitado em minha cama, observando o teto escuro do quarto ir clareando aos poucos com as primeiras luzes do dia, pedindo secretamente para que o Sol não chegasse. E como eu era um fodido inveterado, é claro que ele chegou - trazendo consigo toda a sua luz e queimando os meus olhos cansados sem nenhuma piedade. Em consequência da minha vigília por respostas, meu organismo cobrava a juros altos as horas de sono desperdiçadas. Cada centímetro do meu corpo parecia arder em chamas, minhas pernas pesavam mais que um saco de concreto e eu tinha a estranha sensação de que minha cabeça estava a ponto de explodir. Isso, sem falar no vazio que se apoderava de mim.

Como eu disse, eu era um fodido.

Mas, por mais cansado que estivesse, nada parecia ser capaz de tirar da minha cabeça a terrível imagem do homem no meu sonho. O sorriso maligno, o olhar feroz... Tudo tinha sido tão real, tão assustador, que por mais que eu tentasse esquecer, aquilo não saia da minha mente. Estava gravado sob a minha pele.

''Você está começando a ficar neurótico'', eu disse para mim mesmo.

O que não deixava de ser verdade. Simplesmente tinha perdido as contas de quantas vezes, nas últimas horas, eu havia me sobressaltado com o mínimo ruído. Qualquer coisa naquele momento, desde uma buzina de carro até a porra da minha própria sombra, parecia ter o poder de me assustar.

Após meia hora de pura apatia, tomei coragem suficiente para me levantar e sair daquele estado vegetativo de merda em que eu estava me enfiando. Enquanto caminhava sem pressa em direção ao armário do meu quarto, repassava mentalmente os acontecimentos do último pesadelo. Não sabia como, mas tinha a impressão de que me esquecia de um detalhe. Era algo além da aparência do antagonista. O que - acho que devo dizer - era estranho, pois só agora percebia que eu nunca me lembrava do sonho em si, apenas o momento em que o ser surgia diante de mim. O momento que me fazia acordar assustado, sacudindo todo o inferno para fora da minha cabeça.

- Já está de pé? - perguntou uma voz masculina, bem atrás de onde eu estava.

- Mas que porra! - esbravejei, sentindo o meu coração quase saltar pela boca.

Ao me virar, dou de cara com o meu pai, que - diferente da noite passada - desta vez estava com os seus cabelos negros perfeitamente arrumados, vestido por completo com seu uniforme de trabalho. Acho que me esqueci de contar para vocês: Cirus era chefe da Brigada de Paramédicos de Ventura. O que - vamos concordar - era bastante irônico, se considerar o que ele secretamente podia ver e fazer.

-Meu Deus, o que está acontecendo?! - instigou meu pai, fechando a expressão - E o que eu já disse sobre este seu vocabulário de estivador?

-Me desculpe - repliquei, ainda respirando forte pelo susto - E, quanto ao que está acontecendo... Não foi nada. Só não esperava ver o senhor aqui.

- Você está mentindo! - Cirus rugiu descontente, até que ele suspirou pesado e seu rosto mudou por completo, se contorcendo em uma careta de preocupação. - Adrian, vamos ser sinceros um com o outro. Por que você não me conta logo sobre o que são esses seus sonhos? Sabe que eu posso te ajudar.

E sabia mesmo, de verdade. Mas, naquele momento, o meu forte instinto de negação estava operando em modo quase que automático. Por isso, sem dizer mais nada, peguei o uniforme horroroso da Constantine e comecei a trocar de roupa. Não estava preparado, nem com a mínima vontade de discutir sobre aquilo com meu pai. E pelo visto, ele também percebera isso, pois no instante seguinte, não estava mais no meu quarto.

Terra das Sombras: O GuardiãoOnde histórias criam vida. Descubra agora