1 1/2. A Garota do Outro Lado da Cidade

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Ponto de vista: Serina Biel

Escuridão.

Medo. Dor. Angústia.

Antes mesmo de abrir os olhos, a jovem Serina Biel sentiu o sangue cantar diante das terríveis sensações que a consumiam. Era como se elas queimassem o seu corpo e esmagassem o seu coração - transcendendo o limite do suportável. Todas aquelas torrentes de pânico rodopiavam tal como harpias famintas ao seu redor, devorando sua mente e a sobrepujando em uma forte corrente de terror e desespero. Não conseguindo mais se conter, a garota engasgou-se com um grito seco e finalmente despertou - completamente desnorteada, e com o ar rarefeito em seus pulmões.

- Nina, querida, você está bem?

Bem distante de si, ela podia ouvir a voz doce e suave de sua mãe a chamando. Mas estava longe demais, e parecia errado. Nada fazia sentido. Ela ainda estava assustada. Sempre que aquilo a atingia, coisas aconteciam. Coisas ruins. E, além do mais, Serina não conseguia reconhecer as paredes claras e delicadas ao seu redor, nem mesmo a paisagem frondosa e pitoresca que transbordava em sua janela. O clima era frio, gélido, o que contracenava com o sol brilhante que reluzia através das cortinas e que fazia a poeira dançar pelo ar. Foi quando a consciência enfim lhe alcançou, e a garota se lembrou aonde estava.

Era o seu novo quarto. Aquele, de sua nova casa.

Em sua nova cidade.

- Nina, assim você vai se atrasar para a aula!

Girando em sua cama, Serina virou-se na direção da porta que dava para o corredor e se deparou com toda a imponência refinada de Leona. De braços cruzados, a mulher a encarava com olhos bondosos e amendoados - elegantemente vestida em um terninho roxo, com os cabelos escuros presos em um coque elegante e a alegria indiscutível reluzindo em sua pele macia, da cor do ébano.

- Não estou me sentindo muito bem - confessou a jovem, ao mesmo tempo em que se amaldiçoava mentalmente por parecer tão manhosa e infantil.

- O que está sentindo?

Ao ver a mãe se aproximar, a garota encoulheu-se ainda mais por entre as cobertas e mergulhou o rosto nos travesseiros. A mulher alcançou um dos postes de ferro de sua cama de dossel e estacou no lugar. Por mais ridículo que fosse, Serina não queria partilhar o que realmente fazia o seu corpo tremer. As duas já tiveram aquela conversa antes. Ela sabia que a mãe não gostaria de ouvi-la falar sobre aquilo outra vez. Era um tabu.

O que poderia parecer ridículo. Mas não era.

As suas... Sensações... Não eram bem vindas na vida da família muito normal e cética do famoso Dr. Marcus Biel. Eles a amavam, sem sombra de dúvidas. Mas as suas sensações? Não mesmo.

- Acho que são só cólicas - mentiu a garota, sua voz saindo abafada através de seu esconderijo - Não é nada demais.

- Tem certeza de que não quer falar com o seu pai? - Leona perguntou, passando as mãos carinhosamente sobre os pés cobertos da filha - Ele pode ver se não precisa tomar algum remédio, ou...

- Estou bem, sim. - Serina interrompeu, se forçando a levantar o rosto e lançando o sorriso mais brilhante que podia, mesmo com a bile presa em sua garganta - Só acho que não estou muito disposta.

Suspirando pesadamente, a mulher encolheu os ombros e alisou a ponta da cama.

- Se é o que você quer... Acho que, por hoje, pode ficar em casa. Mas, mesmo assim, se levante e tome um pouco do café da manhã. Eu preciso resolver algumas coisas no Centro, mas vou falar com o seu pai e pedir para o Líon informar na escola que você não vai hoje, ok?

Terra das Sombras: O GuardiãoOnde histórias criam vida. Descubra agora