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Eu tinha oito anos.

E era a criança mais triste que eu conhecia.

Eu era a única criança que eu conhecia.

Eu ficava na sacada do andar de cima da minha casa, me apoiando no vidro mesmo que minha mãe falasse que eu não deveria fazer isso pois poderia me acidentar, mas eu não ligava.

E, lá de cima, eu podia ver.

Eu conseguia ver os meus vizinhos brincando uns com os outros.

Eles se encontravam na rua depois da escola e brincavam até escurecer, quando ou iam dormir ou iam para a casa de um deles.

Os irmãos e primos mais velhos costumavam ficar sentados um pouco mais afastados, em um pequeno muro que havia no final da rua, conversando e vez ou outra fumando um cigarro e apagando ou jogando longe ao perceber que um adulto vinha saindo.

E eu apenas observava...

Eles pareciam felizes.

Eu me perguntava todo dia por que não poderia sair e brincar com eles.

Mas parei de perguntar para minha mãe, ela fica irritada quando pergunto.

Então é só isso que eu faço todos os meus dias depois da escola.

Eu fico na sacada, olhando para baixo.

Olhando para a vida que eu queria ter.

Eu me perguntava por que a mãe de nenhum deles tinha um olho roxo também?

Me perguntava todo dia por que eles pareciam tão felizes e eu não?

E os mais velhos, por que sempre aparentavam tanto cansaço? Dizem que a melhor época de nossas vidas seriam quando somos adolescentes, certo?

Eu mal conseguia esperar por ter a idade deles, ou quase a idade dos meus pais.

Assim poderia falar, sair, ter quantos amigos quisesse, ser como bem entendesse.

E foi quando me atingiu que eu não queria, de maneira alguma, ser como meus pais, em absolutamente nenhum quesito.

Minha mãe não tinha um brilho no olhar como eu imaginava que aquelas crianças tinham, e também quase nunca saía de casa.

Eu suspirava enquanto observava aquelas crianças, e fiz uma promessa silenciosamente: eu faria de tudo para que as coisas saíssem do meu jeito quando ficasse mais velho.

Novamente [CONCLUÍDO]Onde histórias criam vida. Descubra agora