Caminhos

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Toda a nossa vida é baseada em caminhos que trilhamos. Alguns são esburacados, turbulentos, outros são caminhos tortuosos e espinhosos. Alguns nos trazem muitas alegrias, outros são repletos de decepções. Alguns caminhos nos direcionam aos nossos sonhos, outros, simplesmente, nos deixam perdidos e temos que retornar para o ponto de partida e tomar outro rumo. Seus caminhos eram sempre surpreendentes, em cada esquina podia-se deparar com uma emoção diferente. Pela manhã ela tomava uma decisão, seguia por um caminho e a tarde percebia que não era o que queria. De vez em quando, escolhia um caminho que lhe trazia vários efeitos colaterais. Caminhos que exigiam abrir mão de alguma coisa. Caminhos que se mostravam imperfeitos. Mas esse era o dom dela, moldar as coisas em que toca. Ela sabia usar tão bem seu dom que nunca aceitou seguir por um caminho já percorrido ou trilhado. Sempre gostara de fazer seu próprio rumo. Sua única referência eram seus sonhos, seus ideais. Sempre correu atrás daquilo que almejava, sempre fora sonhadora, sempre caminhava em direção às suas realizações. Depois que começara essa nova vida, entendera um pouco mais sobre o futuro e o destino. Chegara num ponto em que não mais tentava controlar as situações. Escolhera seguir um caminho totalmente desconhecido, criou uma trilha num ambiente inexplorado, nunca tivera uma experiência assim. Então, ela fitava, o céu algumas vezes, e podia enxergar seus sonhos, suas barreiras intransponíveis, seus ideais perdidos, vagando pela sua cabeça, sussurrando palavras soltas de incentivo, dizendo-lhe que ainda dava tempo de realiza-los, ainda dava tempo de se realizar. Mas ela era teimosa, sabia que havia esperança, mas sabia também da dificuldade, da ilusão e do quanto ainda teria que caminhar. Às vezes, podia ouvir o vento, podia entender as estrelas, podia ver seu caminho, podia flori-lo, podia entrelaça-lo com rosas e jasmins, mas preferia deixar as coisas simplesmente acontecer, não abriria mais caminhos, talvez pelo prazer de sentir a grama em seus pés, talvez pelo cansaço, ou talvez por ter entendido um pouco sobre a vida. Ela entendeu que correr atrás de sonhos é muito complicado, muito difícil. Entendeu que correr atrás dos sonhos é uma boa forma de viver a vida. Mas chega um dia que você percebe que quanto mais se aproxima do horizonte, mais ele se distancia. Não é muito fácil abrir mão de um caminho, ou troca-lo por outro, mas, de vez em quando, é necessário. Precisamos deixar algumas coisas irem, para que outras possam vir. Talvez isso a tivesse ferido, a tivesse ferindo. Ter que deixar partir quem ela não queria que partisse, quem ela queria manter por perto, no peito, no abraço, no colo. Mas trilharam caminhos diferentes, trilharam rumos opostos. Um ficara enquanto ela se fora, depois, ela se permitiu a outra companhia, mas novamente ele ficara, enquanto ela ia, sozinha, construindo outro caminho. Essa história está ficando tristonha demais, aliás, já se falou muito desse assunto. Das partidas, das idas e vindas, das idas sem vindas e das ida com vindas. Mas o que é a vida senão despedidas? Você está acostumado a depender integralmente de seus pais e, então você cresce e tem que fazer as coisas sozinho; você está curtindo a juventude e se vê obrigado a crescer e se tornar responsável. Somos seres educados para se despedir das coisas. Nos despedimos da infância, da adolescência, de alguns amigos, de alguns amores. Somos feitos de adeus. Ela estava sempre dizendo adeus, mas ainda não havia se acostumado, não havia se habituado com aquilo. Sentia falta, sentia falta de fazer falta. Acho que todos nós sentimos isso.

Mas seu caminho agora era outro. Deixara mais um pedaço de seu coração com sua antiga vida, se abstera de mais um possível 'para sempre', ela seguia seu novo caminho, enquanto ele ficara, só observando e sentindo falta. Agora, só se falariam através de mensagens, registradas em sua máquina da saudade que cabia em seu bolso. Quanta angústia, quanto tormento. Mas ela tinha um dom, lembram-se? Ela também se lembrava disso, e começou a construir pontes sobre as tristezas, sobre a saudade, sobre tudo. Essas pontes lhe serviam de atalho, não encurtava seu caminho, mas lhe poupava sofrimento. Foi aí que conseguiu ver o lado positivo de suas escolhas, conseguiu olhar para o lado e pode ver que a saudade não lhe acompanhara, a tristeza também não. Chegou a se surpreender quando se deu conta que novos ajudantes estavam a sua disposição. Novos companheiros de viagem. Alguns desse companheiros não iam sequer para a mesma direção que ela, mas preferiram segui-la, porque com ela, qualquer caminho era feliz. Pode até parecer bobo, mas só por ela desejar 'bom dia', ele se tornava bom. Seus companheiros eram uma borboleta e um coelho. Uma linda e tênue borboleta, que a fazia entender a vida como uma metamorfose. E um sagaz coelho, ágil e astuto. Sempre escapava de todas as situações, sempre tirava lucro de tudo, era orgulhoso e detalhista. Era um coelho sábio, porém malicioso. Certa feita, quando estava num de seus momentos de névoa, parou um pouco para conversar com seus companheiros. Foi até a casa nova e sentou-se, abatida, num canto da sala vazia. Logo o coelho se aproximou, mas ao vê-la assim, tristonha, tentou passar-lhe um certo conforto com um sorriso tímido, mas sem resultado. Desistiu e voltou à sua toca. Mas ela continuara ali, sentada, ainda esperando que algo lhe motivasse. Veio então a borboleta, com seu jeito simplório, tímido. Rondou-a, esperava uma maneira de se aproximar, uma oportunidade. Pousou em seu ombro e a olhou piedosamente. Ela começou a lhe falar das circunstâncias que caíra sobre sua cabeça. Começou a se lamentar. O coelho espreitou-a novamente, a borboleta simplesmente lhe sorriu, mostrou como a vida nos transforma. Somos mais fortes do que pensamos. Se estamos com problemas agora, significa que estamos na passagem de lagarta à borboleta. A dor dessa transformação depende de quão forte foi o casulo que construímos. Nesse momento o coelho se aproximou novamente, ela esperava ouvir uma palavra amiga, mas tudo que ele fez foi olhá-la bem no fundo de seus olhos e afastar-se novamente e tão sorrateiramente quanto se aproximara. Foi o bastante para ela entender o que ele queria dizer. Não há palavras que nos arrebate dos problemas, mas há atitudes que podem nos ajudar a resolvê-los. Era isso que o coelho fazia, escapava dos problemas quando podia, e quando tinha que enfrentá-los, conseguia fazer isso de maneira astuciosa e maliciosa. Queria que ela fizesse isso também, queria que ela se resolvesse de forma rápida. Mas isso não era possível, ela havia mergulhado de cabeça. Sempre fazia isso, mergulhava de cabeça nas coisas. Nunca foi de gostar pouco, nem de precisar pouco ou se doar pouco. Mergulhava de cabeça nas decisões que tomava. Seria bom entrar e sair da vida de alguém sem levar nada, ou sem deixar nada. Mas isso é impossível, algo sempre nos acompanhará, talvez para preencher o que foi deixado de nós. A borboleta sempre a seguia, sempre a abraçava. Já o coelho, esse aparecia raramente, minuciosamente e nunca se demorava a ir. A borboleta se transfigurava em alguns momentos, continuava se transformando, a vida

Complicada e PerfeitinhaOnde histórias criam vida. Descubra agora