Milena, Patrick e Ana saíram dos estúdios do canal de TV cabisbaixos. Ninguém falou mais nenhuma palavra até chegarem no carro para guardar os instrumentos.As meninas não tinham mesmo notado ainda, mas quanto mais paravam para pensar, mais viam que a afirmação que o amigo fez sobre Ricardo estar a fim de Milena, fazia sentido. De repente, Ana exclamou, com raiva:
— Ah, droga, não podemos entrar no carro! As chaves estavam com o Ricardo! Só me faltava essa!
A prima, então, falou baixo, como se sentisse culpada de alguma forma pela raiva da outra:
— Acho que a gente deve informar o desaparecimento dele na polícia...
Ana deu uma risada meio descontrolada e interrompeu:
— Realmente, uma banda famosa sair escoltada por uma viatura é uma ótima ideia pra nossa reputação!
Patrick colocou as mãos na cintura e deu um suspiro, olhando para o céu estrelado acima deles, antes de dizer:
— Calma, Ana. Talvez ela tenha razão. Ele perdeu a apresentação, não conseguimos achar o cara em lugar nenhum... E o mais importante, ele tá sem responder ao celular há horas já. Fala sério, cheguei ao cúmulo de ligar mas só ia pra caixa postal. Pra ficar horas sem usar o celular hoje em dia, o cara precisa ser um velho, ou anti-tecnologia muito hardcore porque até ambientalista tem celular. E eu tenho certeza que o Ricardo não é nenhum dos dois.
Milena assentiu, atrás dele. Falou ainda, baixo:
— Ana, eu entendo que você esteja com raiva mas... Tomara que não seja nada sério, mas se for... é melhor a gente agir logo...
Ana olhou para Milena de uma forma fria, como nunca tinha feito antes. Então disse:
— Ah, é? Então procura por ele, você, acho que ele vai gostar mais.
— Prima... — Milena tentou responder, em vão. Ana largou sua guitarra no chão, o que fez um ruído nem um pouco agradável e saiu andando para longe.
— Espera, você vai voltar a pé?! Ficou maluca?! — Patrick perguntou, preocupado.
— Consigo muito bem pegar um ônibus. — Foi o que respondeu, sem olhar para trás.
— Eu espero que ela esteja com algum trocado na carteira — falou o rapaz para Milena, olhando na direção de Ana que saía de lá a passos firmes. A vocalista não sabia o que dizer, então só pegou a guitarra da prima do chão, sem olhar para Patrick.
Enquanto isso, na mansão da herdeira dos Barbosa, gritos de xilique podiam ser ouvidos por todo o redor da propriedade. O carro com os capangas que ela tinha pago, acabara de chegar com muito tempo de atraso e somente o baterista da banda como refém. Enquanto traziam um relutante Ricardo à força para dentro da mansão, Graziele distribuía esporros os chamando de vagabundos, irresponsáveis, debilóides e outras coisas que se eu fosse narrar aqui, teria que aumentar a classificação indicativa. Com raiva, a quadrilha praticamente jogou o baixista rival em cima dela, derrubando os dois no chão.
— Se vira, madame!
— Ora, mas que audácia! Quem vocês pensam que são?! — Berrou Graziele indignada e sem a menor noção do perigo. — Estou acabando de dizer que saiu tudo diferente do plano e vocês ainda me fazem mais essa?!
Diante de tal cena ridícula, os sequestradores não fizeram mais nada além de rir da cara dela. Rir não, porque eles gargalharam e muito alto, até um careca, mais baixinho se aproximar dela, pegando no seu queixo, provocando.
— Você foi burra de dar o dinheiro adiantado pra gente. Tá com sorte de ainda ter recebido uma entrega. Vambora! — falou para o restante, fazendo um sinal com o dedo indicador para cima, que foi prontamente atendido. Ficaram somente Ricardo e Graziele lá. A cantora se levantou e ficou andado de um lado para o outro nervosamente sem saber o que fazer, enquanto o outro permaneceu sentado no chão lhe observando, enquanto começava a ter muito menos temor da situação, porque na verdade estava achando aquilo tudo patético.
***
No dia seguinte, quando Milena foi trabalhar na lanchonete, ela estava exausta. Depois de todo o cansaço normal do show, mais o estresse com a outro banda, passar a madrugada prestando queixa em delegacia enquanto se sentia culpada por algo que nunca faria, brigada com a prima, além da preocupação com o estado de Ricardo e o medo de alguém querer estar sequestrando a banda, a última coisa que ela queria era imendar em um expediente na loja de seu Xisto. Normalmente ela sempre acabava dando conta, pensando na estabilidade da carteira assinada e na família pobre para quem ela mandava boa parte do que recebia. Mas naquele dia a estafa era muito maior do que o normal. E seu Xisto percebeu isso. Um pouco antes do horário em que ela saíria para almoçar, ele chamou-a em seu escritório, nos fundos da lanchonete.
— Olha, há um tempo tenho notado que você tem dado sinais de cansaço, mas hoje está bem maior do que o normal.
Milena lhe encarou surpresa. Não sabia que estava demonstrando tanto no seu desempenho que estava mais atarefada. Ela sabia que mais cedo ou mais tarde ou a carreira de cantora se apagava ou ela teria que largar o emprego com seu Xisto. Mas percebeu ali, naquele momento que simplesmente não fazia a menor ideia de como explicar o que estava acontecendo na sua vida. As palavras "é que agora eu sou uma rockstar" simplesmente pareciam absurdas, ali, sentada na frente do chefe com o avental de trabalho. O pior é que já tinham se passado meses nessa situação; Milena se sentiu uma idiota por não ter se preparado para isso nesse meio tempo.
Diante do longo silêncio da funcionário, o patrão deu uma bufada, coçou a barriga avantajada que tinha, e falou novamente:
— O que está havendo? Se você não puder se justificar pelo seu desempenho estar piorando, infelizmente terei que repensar se é uma boa decisão te manter aqui como funcionária.
Em outras palavras, ele queria demitir ela. Milena ficou ainda mais em choque, quando, nesse momento, tocou o celular do patrão. Era uma música que ela nunca tinha ouvido e incrivelmente muito boa, com uma batida forte e ritmada, em contraste com um violiono ao fundo, tudo no melhor remix pop.
"Todos sempre estão falando pra mim
Todos tentando entrar na minha mente
Enquanto meu coração não é assim
Eu confio em mim primeiramente."
Seu Xisto, desconcertado com a interrupção, correu para desligar o aparelho. Porém, a funcionária estava chocada demais por não ter sequer ouvido falar daquela música tão boa.
— Ér, me desculpa perguntar mas de quem é isso?
— Como assim, garota? Claro que o celular é meu! Porque a pergunta?
— Não, não...— ela respondeu sacundindo a cabeça. Só estava se enrolando cada vez mais — Não é isso, é que nunca ouvi essa música.
— Ora, mas o que isso tem haver com o motivo da nossa conversa?! — perguntou o patrão, estupefato.
Milena decidiu arriscar e falar logo de uma vez, antes que ficasse mais nervosa:
— É isso que eu tenho feito fora da lanchonete, seu Xisto: música.
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Os Desqualificados
Ficción GeneralMilena é uma jovem adulta que deixou seu grande sonho para trás, na infância. A única perspectiva que tem agora é se mudar para a capital, atrás de um emprego para ajudar a sustentar sua família pobre. Para isso, ela vai contar com o auxílio de sua...
