Seu Xisto tinha uma expressão contraída no rosto. Abaixou a cabeça pondo as mãos peludas no queixo e começou a bater o pé no chão. Sua sala ficou em silêncio após a revelação de Milena, de modo que a funcionária conseguia ouvir o som do motor do ar condicionado. Ela foi ficando ansiosa com aquele silêncio. Porém, quando ergueu o rosto, o chefe já tinha um semblante mais calmo. A primeira coisa que falou foi:
— Então quer dizer que você é artista?
— Sim, senhor.
— E há quanto tempo trabalha fazendo isso?
— Eu comecei... um pouco depois de ter começado a trabalhar aqui. — Milena respondeu com sinceridade. — Alguns amigos músicos me convenceram. Eles queriam formar uma banda para tentar ganhar um pouco mais de dinheiro com música. Começou como algo pequeno, mas as coisas tomaram proporções muito maiores do que eu achava que tomariam.
O patrão pôs as mãos nas cadeiras, ajeitou seu cinto e pigarreou:
— Bem, funcionários com dois empregos não costumam render tão bem...
Milena, nervosa, saiu falando:
— Eu sei, mas você não imagina o quanto eu tenho me esforçado...
— Não terminei o que eu estava falando — disse seu Xisto — Espero que a falta de rendimento seja compensada por alguma outra coisa. Vocês têm fãs? - perguntou o chefe cinquentão.
A funcionária foi pega de surpresa, mas falou:
— Sim, er, mais do que você imagina...
— Ótimo. — falou Seu Xisto se levantando. — Façam propaganda para eles da minha lanchonete que está tudo resolvido. Pode continuar trabalhando aqui. Se ainda quiser, é claro.
Ela, surpresa, concordou aliviada. Não tinha certeza de por quanto tempo mais conseguiria manter a vida dupla, nem o que aconteceria com a banda naquele momento, mas não ser mandada embora já era uma ótima coisa. Enquanto se levantava, apertou a mão de seu Xisto, agradecendo pela compreensão.
— Só uma pergunta? De quem era essa música que tocou no seu celular? Ela é muito boa e nunca ouvi.
— Ah, não sei exatamente, minha filha que ouviu no outro dia e eu gostei e pedi para ela baixar. Acho que é um tal de Jaques Vieira...
Milena não tinha certeza, mas achava que era o nome do namorado da Graziele. Sacudiu a cabeça e saiu da sala do chefe. Podia ser uma coincidência. Tentou trabalhar com um pouco mais de ânimo durante o resto do expediente. Depois, ao voltar para a vila, antes de entrar na sua casa, esbarrou com uma espreguiçadeira estendida no meio do caminho entre as casas, onde Patrick estava deitado. Vestindo um boné que cobria um coque formado por seus dreads, camisa meia-manga e calças cargo, ao ouvir os passos da vizinha se aproximando, se apoiou nos cotovelos magros para olhar para ela.
— E aí? — perguntou, meio desanimado.
— Oi. — ela respondeu sem-graça também, pela última conversa que tiveram.
Não correr e abraçar Patrick para contar que estava tudo bem na lanchonete foi bastante estranho, e ela percebeu que o amigo igualmente não se sentia confortável com aquele gelo, mas os dois ficaram só ali, parados, um olhando para a cara do outro. Por um pouco de tempo demais.
— Alguma novidade? — perguntou Patrick, por fim, sem empolgação, com a voz inexpressiva.
— Nada ainda sobre o Ricardo. — foi o que ela decidiu dizer. De fato, após fazerem a denúncia na polícia na última madrugada, não tinham recebido ainda nenhuma informação a respeito de onde ele estava.
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Os Desqualificados
Ficción GeneralMilena é uma jovem adulta que deixou seu grande sonho para trás, na infância. A única perspectiva que tem agora é se mudar para a capital, atrás de um emprego para ajudar a sustentar sua família pobre. Para isso, ela vai contar com o auxílio de sua...
