À noite, Ana e o namorado, Ricardo, se apresentariam num barzinho na Asa Sul. Era meio longe de casa, porque ficava no outro lado da cidade, mas na verdade a maioria do comércio de Brasília se localizava mesmo naquele lado, já que a Asa Norte, onde moravam, é um bairro mais residencial. Coisa de cidade planejada. Para compensar o deslocamento, a dona do lugar daria, além do couvert artístico, um jantar para os músicos. Ana aproveitou e convidou a prima e Patrick.
Milena ficou feliz em poder ver a pequena apresentação, mas quando foi se arrumar, não conseguia parar de pensar no que aconteceu mais cedo. Enquanto colocava o vestido azul estampado que tinha separado e uma sandália rasteirinha, sua mente travava uma batalha entre a curiosidade de ler a música de Marizete, ou ignorar aquela "bobagem que não lhe levaria a lugar nenhum". Eram as palavras dos jurados de sua apresentação na infância, que ainda ecoavam em sua mente sempre que seu interesse musical se manifestava. Acabou saindo para pegar ônibus com o papel dobrado na carteira, sem ainda tê-lo lido.
Quando chegou no barzinho, Ricardo e Ana já tinham começado, com a música "Quando o Sol Bater na Janela do teu Quarto" da banda Legião Urbana. Assim que viram Milena, os dois, vestindo preto e calça jeans, fizeram um sinal para que ela se juntasse a eles e fosse cantar também, mas a moça apenas negou gentilmente com a cabeça e se sentou numa mesa próxima, onde tinha avistado Patrick, que vestia um chapéu coco, blusa branca e calças cargo.
Tecnicamente, não era um show excelente nem nada, só duas pessoas comuns, com seus violões, num aposento desconhecido para eles, tocando sem nem terem feito passagem de som. Para o exigente senso crítico de Ana, se comparado com o que ela queria, foi pior do que ruim, foi péssimo, digno de uma desqualificada. Mas ao erguer os olhos, via a prima sorrindo e fazendo um sinal de positivo com as mãos, como se estivesse sensacional. Às 10 horas o casal encerrou, precisando descansar. Ricardo, mais simpático, agradecendo às pessoas que estavam por lá, Ana, meio emburrada. Conforme se retiravam com seus violões, Ricardo deu-lhe um cutucão, suspirando:
— Olha, eu sei que esse não é o show dos sonhos de nenhum de nós dois, mas também não precisa dessa carranca, né?
Ana não lhe respondeu, e os dois foram para a mesa onde estavam seus vizinhos de vila. Milena cumprimentou o casal, mas Patrick só deu um aceno pois já estava com a boca cheia de coxinha. Ficaram conversando amenidades por uma hora mais ou menos, até que Milena fez um gesto mais brusco, pegando salgadinho, e sua carteira, que estava em seu colo, se espatifou no chão. Ricardo solidariamente se abaixou para ajudá-la a recolher o que tinha caído da carteira, quando viu um papel que tinha se aberto no baque e estava quase saindo voando.
— Te peguei!
— Hm, o que é isso? — perguntou Ana, curiosa, olhando por cima do ombro dele.
Os dois arregalaram os olhos, juntos, surpresos com o que leram.
— Ok, tá certo, eu realmente nunca soube fazer música. ISSO AQUI é que é uma obra-prima, coisa de artista de verdade. Milena, a gente precisa gravar essa maravilha!
— Foi você mesma que compôs?! — Ricardo perguntou, impressionado.
Antes que Milena conseguisse explicar, Patrick, limpando a boca, terminando de engolir sua última coxinha, pediu:
— Hm, me dá isso aí, deixa eu ver também!
— Er, gente... — Milena tentava, em vão.
— Meus amigos... Estou sem palavras. — batendo palmas, Patrick se virou para Milena, admirado. — Incrível, hein, mulher?
— Por que você não contou desse talento antes? — Ricardo comentou, sorrindo — Você precisa vir cantar comigo e com a Ana.
A namorada deu um saltinho, se perguntando por que não tinha pensado naquilo antes.
— Caramba, é verdade... A gente podia formar uma banda!
Por um instante, Milena parou de tentar argumentar pois seu coração quase transbordou de empolgação ao se imaginar assumindo os vocais de uma banda. Patrick aproveitou o silêncio contemplativo que se formou para erguer o braço e acrescentar:
— Hey, será que eu poderia participar também? Tinha um amigo do meu pai que era dono de uma loja de instrumentos, para lavar dinheiro... Enfim, sei que nunca tentei ser músico profissional nem nada, mas eu aprendi a tocar baixo, sirvo de alguma ajuda?
Ana colocou a mão no queixo, como se ponderasse, mas Milena sacudiu a cabeça, saindo do transe e ergueu as mãos para chamar atenção.
— Calma, pessoal! Essa música nem é minha...
Então ela explicou sobre sua relação com Marizete, e o que tinha acontecido quando recebeu a música dela. Todo mundo desanimou um pouco. Por um instante foi como se eles tivessem finalmente descoberto algo que podia dar certo, beirando a plena certeza, uma absoluta segurança de um futuro feliz. Mas na vida e na arte, nada é assim. O palquinho do bar, em frente a eles, lembrava-os disso. Sucesso para aquele grupo era improvável, quase impossível, mas é assim que as coisas acontecem. Nunca é como se imagina, o acaso reina. E além da dona da música, havia uma determinação ferrenha em Ana de gravar aquilo.
— Milena, pelo que entendi, a música foi dada para você. Eu sei o que realmente está acontecendo: por causa de uns imbecis que falaram burrice há anos atrás, continua achando que não deve seguir seu sonho de cantar. Pois escuta bem e vê se enfia essas palavras na sua mente: não conheço ninguém mais capaz de subir em um palco e cativar as pessoas com a sua voz do que você. — falou séria, apontando para a prima. — e esse dom é muito raro para ser deixado de lado.
Patrick deu uma pigarreada:
— Olha, acho que nunca ouvi você cantando, mas... quem sabe não valha a pena... tentar? — ele comentou com um sorriso doce, mas encorajador, pousando a mão no ombro dela.
Foi a primeira vez em anos que Milena se permitiu ponderar de verdade, fazer um show e virar uma musicista profissional. Ela pensava insegura: "será mesmo que eu posso?". Querer era bem diferente de poder, e a vida já tinha ensinado isso da pior forma.
— Gente, desculpa, é que... há um bom tempo eu já não acredito muito nisso em mim, não sei se ainda sou capaz. — comentou insegura, mas honesta.
Ricardo, Ana e Patrick ficaram se encarando pensativos, como se buscassem uma solução. Milena suspirou, acreditando que era assunto encerrado. De repente, Patrick colocou as mãos na mesa e se empertigou, olhando bem no fundo dos olhos da provável vocalista.
— Certo, você não precisa se mostrar se não quiser. Não precisa ficar na frente da banda, nem tentar agradar o público. Precisamos de uma gravação apenas. Somente a sua voz, para te provar que ela é tão linda quanto eu acho que seja. Ou... então você prova que estava certa e te deixamos em paz. — E assim, ele se jogou de volta contra o encosto da cadeira onde estava, mais relaxado, porém sem perder o contato visual.
Ana olhou para ele de canto.
— Espera, tá propondo que a gente tenha uma "vocalista fantasma"?
— Hm... Não era exatamente essa a ideia, mas eu gostei do seu conceito. Já pensou: uma banda de rock com uma vocalista misteriosa? Somente uma voz sem igual rodando pelas caixas de som, e os instrumentistas obedecendo? Vai ser incrível!
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Os Desqualificados
قصص عامةMilena é uma jovem adulta que deixou seu grande sonho para trás, na infância. A única perspectiva que tem agora é se mudar para a capital, atrás de um emprego para ajudar a sustentar sua família pobre. Para isso, ela vai contar com o auxílio de sua...
