Capítulo XXIII

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Pov' Eva

Respiro fundo fechando os olhos sentindo o ar puro, estando aqui a não sei quantos mil pés do chão, passando entre as nuvens brancas, tendo a visão de toda cidade, e do campo esverdeado, mas que agora está coberto de neve, sinto a ansiedade bater forte no meu coração, já faz alguns longos meses que não vejo o papai. Desde que o mesmo se internou, eu soube que ele teria um período restritivo, sem nenhum tipo de ligação com o mundo externo, pois os primeiros meses de desintoxicação são os mais sofridos, dolorosos e complicados, por conta do alto grau de abstinência.

E mesmo toda a semana o meu tio Roger me deixando a par de seu estado clínico durante todo esse tempo, pra mim nunca foi suficiente. Eu queria vê-lo, toca-lo, dizer o quanto estou orgulhosa, o quanto o amo, o quanto o mesmo é forte, guerreiro e corajoso, e que nunca, jamais está sozinho nesta guerra contra seu vício. Cada dia que amanhece e escurece, com ele limpo é uma vitória não só pra ele, mas pra mim também.

Sei que de onde a mamãe estiver, ela também está orgulhosa dele, sei que ela está dando forças a ele e o protegendo. De alguma forma sinto ela sempre presente em nossas vidas, não sei explicar, é algo sobrenatural. Sinto que tenho uma ligação muito grande com a minha rainha.

As vezes fico por horas dentro da BMW, vendo nossos álbuns de fotos, e mesmo sendo bem pequena, tenho fleches de alguns momentos que tivemos juntas, ela era tão linda, alegre, carinhosa. Fico imaginando de como seria se ela estivesse viva, nossas vidas seriam totalmente diferentes, o papai não teria se afundado nas drogas, ainda estaria cuidado de sua empresa de contabilidade, e não teria deixado a mesma falir, eu não teria que me virar praticamente sozinha por todos esses anos, e nós estaríamos felizes. Sei que ficar pensando nisto só vai me causar mais dor e sofrimento, afinal nada poderá mudar, ela não vai voltar.

Sinto as lagrimas escorrerem em meu rosto freneticamente, enquanto observo a vista da janela do helicóptero, meus pensamentos estão tão aéreos que não estou prestando atenção em absolutamente nada, me sinto em outra dimensão agora.

- Ruivinha? Está tudo bem? _ Christoffer pergunta, segurando e apertando a minha mão direita. Eu viro o meu rosto em sua direção, e vejo nitidamente a expressão de preocupação em seu rosto. Eu imito o seu gesto e aperto sua mão, abrindo um sorriso sem mostrar os dentes, e fazendo um sinal de positivo com a cabeça. O que faz com que sua expressão suavize um pouco, e sorri também da mesma forma que eu.

- Já tinha andado alguma vez de helicóptero? _ Ele me pergunta.

- Não! Primeira vez... _ Respondo olhando em seus olhos ainda com um meio sorriso nos lábios.

- Bom... Fico feliz então de te proporcionar isto, e de estar aqui com você neste momento... de verdade! _ Diz abrindo mais seu sorriso, "e que sorriso meus amigos, puta merda, que homem gato da porra!" Penso.

- É... Por incrível que pareça, eu também fico feliz de estar aqui comigo. E pra ser sincera, não queria que fosse outra pessoa a estar aqui agora! _ Falo, sendo completamente transparente, encarando seus olhos claros, quase verdes. Suas pupilas dilatam, demonstrando surpresa por minhas palavras. E em nenhum momento ele solta o aperto de nossas mãos, e nem tira o sorriso do rosto. E eu faço o mesmo.

Não posso ser hipócrita e dizer o contrário. Confesso que a algumas horas atrás eu jamais imaginei estar dentro de um helicóptero com o Schistad, justamente ele, mas receber seu carinho, conforto e apoio hoje, em um dia que estou completamente venerável, com meus sentimentos expostos, com ele demonstrando tanto respeito e preocupação, deixou meu coração aquecido e um pouco confortado de certa forma. Confio nele? Óbvio que não! Ele precisará de muito mais pra reconquistar a minha confiança, mas vou dar mais uma chance pra esse cuzão vacilão, afinal, o que ele se propôs a fazer por mim hoje não foi qualquer coisa, ele merece essa chance, espero não me arrepender!

Playing with fireOnde histórias criam vida. Descubra agora