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   Lyanna andava por entre a multidão com calma, se desviando das pessoas que passavam apressadas por ela, não estava com pressa de chegar em casa e ter que fazer seus serviços e aguentar a conversa fiada e as insinuações do marido de sua madrinha.

    Vivia de favor na casa de sua madrinha, onde também moravam seus dois filhos e seu marido, que na opinião de Lyanna era um homem completamente nojento e que sua madrinha merecia uma pessoa melhor, mas preferia ficar quieta, enquanto ele não fizesse nada com ela, se manteria quieta e não se meteria onde não foi chamada.

    Quando avistou a pequena cabana em que morava deu um longo suspiro, pegou uma fita que estava no bolso do seu vestido e prendeu seus longos cabelos ruivos. Entrou na cabana e já foi logo para a cozinha, indo pegar a bacia que estava cheia de louça para lavar, indo para perto do poço que tinha ali, colocando a bacia no chão e começando a puxar o balde para pegar água.

    - Onde estava até agora? - uma voz soou atrás dela.

    - Estava fazendo um serviço de costureira para a senhora Green - Lyanna respondeu sem nem olhar para atrás.

   - Hum, então está com algumas moedas, seria bom já que eu estou devendo lá na taberna - o homem disse indo até ela.

    - São para comprar mantimentos.
Bebida é mantimento - disse o homem se agachando e pegando um pouco do cabelo de Lianna.

    - É melhor tirar suas mãos de mim - disse ela se levantando e encarando o homem.

   - Sabe, você mora na minha casa de graça, deveria pelo menos ser mais gentil.

    - De graça não, eu cuido dos seus filhos, ajudo a comprar mantimentos e ajudo a Sarah, minha madrinha, SUA mulher nos afazeres da casa - disse apontando o dedo no rosto do homem.

    Por um minuto o rosto do homem tomou uma coloração rosa, e Lyanna soube ali que ele tinha ficado com raiva dela, era sempre assim quando ela confrontava o porco do Boris, o marido desprezível de sua madrinha.

    - Está tudo bem aqui? - uma voz feminina e suave interrompeu o momento.

    - Só essa insolente me desrespeitando na minha própria propriedade - Boris respondeu se virando para olhar a sua mulher.

    - Lyanna? Mas como ela te desrespeitou?

    - Essa menina está com moedas escondidas e não vai dar para ajudar com a casa, onde já se viu isso, tive que acolher essa órfã a seu pedido e tenho que ouvir insultos ainda por cima.

    - Bem, eu acho que se as moedas são delas, e se ela ganhou com o seu trabalho, o certo é que ela fique com elas. Lianna já nos ajuda tanto com as crianças e com a casa, me ajuda com as encomendas de costura que tenho - Sarah respondeu chegando perto de Lyanna e a abraçando de lado.

   
    Boris por um momento ficou quieto, fez um gesto com a mão como se não ligasse para isso e foi saindo seguindo para a taberna.

    - Não sei como a senhora suporta ele, madrinha.

    - Porque por mais inútil que seja o homem, ela ainda é um homem, e Boris tem alguns contatos com lobisomens, o que nos mantém em uma boa convivência com eles, o que faz eles não virarem os olhos para nós.

    - Tudo para me proteger? - Lyanna perguntou voltando a abraçar sua madrinha.

    - Sua mãe me salvou, devo a minha vida a ela, fora que ela foi uma grande amiga, faria tudo por ela - Sarah disse correspondendo o abraço da afilhada, depois se afastou um pouco e tocou no rosto da jovem moça - Você me lembra tanto ela.

    - Queria ter a conhecido  - Lyanna respondeu dando um suspiro triste.

    - Ela teria orgulho da mulher que você está se tornando.

    - Bem, deixe-me terminar de lavar a louça aqui - Lyanna se desvencilhou do abraço e foi seguindo para o poço para pegar a água e começar a lavar as coisas.

    - Eu vou ver algo para o jantar - Sarah foi em direção da casa, deixando Lyanna sozinha com seus pensamentos.

    A jovem mulher sabia que era uma bruxa, sua mãe era uma bruxa que não abaixava a cabeça e aceitava as condições que lhe era imposta, batendo várias vezes de frente com vampiros e lobisomens. Por vezes ia até a cidade e ajudava outras bruxas a fugirem, ou mulheres humanas que viviam em situações horríveis a fugirem de suas casas. Ela fazia parte de uma pequena resistência, tinha um acampamento no meio da floresta, e até alguns lobisomens a ajudavam. A resistência durou cerca de 15 anos, até que pegaram Évora, sua mãe.

    Lyanna sabia que só tinham pegado por sua causa, sua mãe tinha se sacrificado, e sacrificado a todos que lutaram ao lado dela por conta da filha.

    Ninguém sabia quem era o pai de Lyanna, Sarah disse que foi uma surpresa quando Évora apareceu grávida, mas que a apoiaram e desejaram o melhor para o bebê que viria. Quando foi dar a luz, Évora foi sozinha para o meio da mata, ficou lá por três dias, diziam que dava para ouvir seus gritos e choro, mas que ela impedia a todos de se aproximar. Quando voltou estava segurando um bebê com pequenos tufos de cabelos vermelhos que dormia tranquilamente.

    Lyanna nasceu sem a marca das bruxas, uma lua crescente na testa, mas sua mãe afirmava que ela era sim uma bruxa. Disse que ao nascer e ver a menina com esses cabelos tão vermelhos e a marca em sua testa, chorou pois sabia que sua vida seria escondida e que talvez ela morreria nas mãos de vampiros, então ela rogou para a Grande Deusa Mãe, abdicando de todos os seus dons em troca de esconder a marca da sua filha, e a Deusa a ouviu.

   Em uma noite, Évora foi até Sarah, lhe pediu que cuidasse de sua filha, que a escondesse dos vampiros e a criasse como uma menina humana normal, sem nenhum dom, e que a impedisse de tentar usar seus dons por pelo menos até completar seus 19 anos, que depois a Grande Deusa Mãe iria a guiar. Sarah no momento não entendeu, mas aceitou o pedido de sua amiga, pegou a bebê em seu colo e foi embora do acampamento.

    Logo veio a notícia de que o acampamento das bruxas foi descoberto pelos vampiros, que pouquíssimas pessoas que viviam lá conseguiram escapar, e que Évora foi morta queimada viva, mas que enquanto queimava a bruxa ria cada vez mais, que mesmo queimando a bruxa parecia inabalável, morreu com um sorriso no rosto.

    Sarah de vez em quando via uma ou outra pessoa que foi do acampamento na cidade em que morava, fazia pouco contato visual e abaixava a cabeça, não queriam ser reconhecidas e acabar sendo mortas. Foi por esse motivo que Sarah acabou casando com Boris, por segurança. Sabia que Boris não era um homem tão bom, mas ele tinha contatos com lobisomens e com vampiros, era um comerciante bem reconhecido e poderia dar um pouco de segurança.

    Sarah iria cumprir a promessa que fez a sua amiga, estava criando a jovem como humana, vigiando sempre que podia para ela não usar seus dons e logo a entregaria nas mãos da Grande Deusa Mãe, e tinha certeza que Lyanna seria tão forte quanto sua mãe fora um dia.

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