Totalmente apaixonado, dizia Heathcliff

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Os irrigadores giratórios esguichavam água fria para todos os lados, como uma garoa forte caindo sobre as pernas preguiçosamente estiradas sobre o chão de grama de Itachi. Retirou do rosto o livro aberto que o protegia do sol e estreitou os olhos na direção do garoto deitado ao seu lado com óculos de sol de grossa armação branca cobrindo-lhe os orbes negros.

Cruzou os braços atrás da cabeça, fazendo-os de travesseiro e suspirou pesadamente.

Seu irmão se remexeu, afetado, e se sentou apoiando o corpo nos cotovelos. Levantou os óculos como uma tiara, descobrindo seus olhos e jogando os fios mais curtos que emolduravam seu rosto para trás.

- O que foi?

- Nada - enrugou o rosto sensibilizado pelo calor escaldante.

- Tem certeza?

Não respondeu, apenas se levantou e caminhou lentamente até uma das espreguiçadeiras distruibuídas em paralelo à piscina retangular, fugindo da água que começara a incomodá-lo. Sacudiu a barra da camiseta azul, livrando-se das graminhas que pinicavam sua pele.

- Tenho - respondeu e se acomodou sobre a espreguiçadeira, tirando o cabelo da frente do rosto e colocando uma perna sobre a outra. Ergueu o livro em frente ao rosto e ignorou seu irmão resmungando algo inaudível ao fundo. O exemplar surrado de capa dura que tinha em mãos era uma edição limitada de O morro dos ventos uivantes, pelo qual pagara uma boa nota. Ria diante da aspereza do sr. Heathcliff e certamente adorava a ferocidade de Catarina. Tombou a cabeça para o lado e tamborilou o indicador nos lábios, pensativo; aspereza e ferocidade... esses tais aspectos certamente lhe lembravam um certo alguém...

Assistiu por cima da borda do livro o irmão que girara no chão até se encontrar de bruços, as pálidas costas leitosas expostas ao calor daquela quente tarde de domingo. Ele enrolava algumas mechas do cabelo nos dedos, mordiscando os lábios, os óculos apoiados na pontinha rosada de seu nariz e os pés entrelaçados no alto, as plantas sujas de barro e água marrom.

Os olhos de Sasuke pairaram sobre si por um instante, reluzindo com malícia. Ele abriu um sorriso e desviou a atenção, cerrando os olhos e inclinando o rosto na direção do sol.

Itachi voltou a se esconder atrás do livro, respirando rápido. Mas estava curioso!, quase hipnotizado!, e não demorou muito para que novamente espiasse o irmão timidamente, somente metade dos olhos aparecendo por detrás da capa negra enfeitada com arabescos dourados do livro que outrora teria tomado toda a sua atenção.

Outrora ou em qualquer outra situação, pois eram raríssimas as ocasiões em que aquilo acontecia: a atenção de Itachi roubada tão facilmente quanto se roubava doce de criança, tão mamão com acúçar quanto possível; mas seu irmão estava ali, acomodado com folga sobre a grama verdinha, fervendo sob o sol, brilhando como um amontoado de anéis de prata, apetitoso como uma salada de frutas, inofensivo como uma presa. Por isso Itachi era alvo fácil, por isso ignorava o morro dos ventos uivantes e que Deus o perdõe ignorava os morros, os ventos, as brisas, e até os fantasmas uivantes e suplicantes. As palavras que lia perdiam o significado e seu interesse se desprendia tão rápido quanto seus olhos disparavam ao deslumbrar cada esquina, cada curva e cada mínimo detalhe da pele descoberta de seu irmão, cada pedacinho de carne exposta. A curva sútil e elegante de sua coluna, o desenho dos ombros finos, a saliência da clavícula, a pele imaculada do pescoço, o monte de sua bunda, do tamanho e formato perfeito, as mãos de dedos finos, as pernas de aparência macia e os pés estreitos, compridos, desenhados com perfeição.

- Por que 'tá fingindo que não está me encarando? - A indagação veio carregada de uma inocência fingida, piscadelas ingênuas e lábios comprimidos.

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