Onde há fumaça há fogo

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Sasuke abriu os olhos a contragosto, o brilho incandescente do sol inundando o quatro através da fresta das cortinas afastadas por sua mãe. Se sentou lentamente, com um bico nos lábios e a testa enrugada.

- Mãe? - Indagou meio confuso, meio reclamão.

- Oi, filho! - Ela cumprimentou com um sorriso cordial, como se não estivesse abrindo as cortinas repentinamente.

- Por... Por que está me acordando? - Esfregou os olhos, ainda bêbado de sono.

- Um - ela começou-, já está tarde; dois, hoje teremos visitas! - Ela cantarolou a última frase alegremente, enquanto Sasuke gemia e puxava os cobertores para se cobrir.

- Nãããooo...

- Simmmm! - Ela retrucou, animada. - E sabe de uma? Sabe quem vem?

Apesar de tomado de uma súbita curiosidade, não daria o braço a torcer. Por isso permaneceu debaixo das cobertas, mortificado em silêncio. Ouviu uma risadinha de sua mãe e revirou os olhos, constrangido.

- Izumi vem - Sasuke ficou animado com a notícia, mas estava longe de estar estupefato, na verdade estava quase... desapontado - e Shisui também.

Arregalou os olhos e sorriu pequeno. Então se levantou rapidamente, sem olhar para trás e entrou no banheiro. Saiu de lá em direção à cozinha ainda com o sorriso pendurado nos lábios.

Pois ao passo que seu irmão mantinha um segredo, Sasuke mantinha os seus próprios.

RUBBER

Itachi tinha uma foto bem recente favoritada na galeria, foto essa que era frquentemente admirada. A todo momento livre, a cada instante de tédio, Itachi abria a galeria e encarava a foto... e tão rapidamente quanto a encontrara, a ânsia lhe subia a garganta, um arrependimento genuíno, profundo e desesperador que o fazia jogar o celular de lado. Então exasperava, suspirando alto e estufando as bochechas, e esfregava os olhos com as mãos.

Sacolejando dentro do vagão do trem, no momento, ao tirar os olhos da tela de seu celular Itachi apenas encarou seu reflexo nas longas janelas escuras, julgando a si mesmo. Havia melancolia em seus olhos, logo acima das olheiras profundas; os olhos escuros aparentavam cansaço, o rosto sem expressão era como uma máscara. Muito rapidamente, em seus botões, o rapaz pensou algo que já pensara antes: ver a si mesmo o fazia se sentir deprimido, pois... Quer dizer, não que Itachi odiasse o rosto ali, não que desgotasse de sua imagem. Mas sentia raiva, raiva no cerne de sua alma, intensa e devoradora, da pessoa que o cumprimentava; de tudo o que ela representa. A odiava, a pessoa que estava ali, quem ele via, o olhar que sentia. Era como encarar a superficie do oceano, mergulhando para dentro de sua mente, a imagem tremeluzindo enquanto Itachi deslizava para dentro da água gelada.

Sentia raiva dela, sentia raiva de si mesmo ao olhar para ela. Só se suportava quando o peso de sua mente não descansava sobre seus ombros, só se tolerava quando distante de si mesmo, só quando se encontrava entorpecido pela alienação.

No entanto... Aquela pele pálida, os cabelos escorridos, os olhos puxados e os traços delicados de seu rosto o lembravam de Sasuke. E ao perceber isso, vez após vez, Itachi tinha o costume de sorrir pequeno para si mesmo.

O som de uma notificação o fez erguer uma sobrancelha e alcançar rapidamente o celular dentro do bolso da calça.

Balançou a cabeça negativamente ao encontrar o nome de uma colega da faculdade ali: Konan. Era uma mensagem curta, Itachi nem ao menos precisou abrir o aplicativo de mensagem para lê-la por completo. Rolou os olhos e digitou rapidamente: Sim, Konan, o sr. Hatake passou outro trabalho. Sobre moral e ética dessa vez, na perspectiva individual. 'Te mando foto assim que chegar em casa. Suspirou e apagou a tela.

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