— Corra... — Disse uma voz distante. A voz de uma figura angelical, com longos cabelos loiros que a cada instante se tornavam mais e mais brancos, como se lentamente perdessem o brilho da vida.
Desesperado com a terrível sensação de perda que ainda viria, ou melhor, que já tinha vindo, ele continuava correndo, mas não havia possibilidade de alcançá-la, ele não tinha força para salvá-la.
— Corra, Ren Kamishiro! E não se esqueça de mim...
— Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaghhh!
Acordado pelo próprio grito, sua consciência recém recobrada o enganou por um breve momento quando pensou ter alcançado a figura angelical. Era tão bonita quanto ou até mais, mas conforme sua vista escurecida e embaçada voltava ao normal, ele se deu conta de que, quase que em um irônico contraste orquestrado pelo destino, essa pessoa que segurava firme em sua mão tinha cabelos negros ao invés de brancos.
— Você voltou, você voltou pra mim... — Miharu, que esteve sentada na cama ao lado de Ren, segurando sua mão esquerda o tempo todo, mal esperou ele levantar a cabeça do travesseiro para abraçá-lo.
— Você sempre me dizia o quão estressante acha esse lugar, mas eu não pensei que fosse tão agitado por aqui.
Ren não deixou de desfrutar da sensação confortável do toque da Miharu. A garota era magra e tinha uma pele inacreditavelmente macia. Apesar da experiência desagradável pela qual tinha acabado de passar, o aroma que ele sentia com seu rosto encostando no cabelo dela era o suficiente para fazê-lo esquecer de todos os problemas.
Eles só se desgrudaram depois de quase um minuto, quando a cortina em volta da cama foi aberta. Ren olhou ao redor, com uma expressão mista de surpresa pelo lugar onde estava e decepção com Alex por mais uma vez interromper seu momento a sós com a garota linda que estava com ele.
— Sinceramente, você não tem nem vergonha de dar tanto trabalho pros outros ein? Haha!
Alex tentou disfarçar sua preocupação quando viu que seu amigo estava acordado e bem. Foi ele quem levou Ren para a enfermaria, que ficava na área central do campus. Um lugar pouco maior do que instalações semelhantes em colégios comuns, e bem equipada para atender aos milhares de alunos que viviam no campus.
— Haha! Você sabe que não. E digo mais, você podia ter me levado pro meu quarto ao invés daqui né... É que... sei lá, eu não me sinto muito confortável em lugares com cheiro de álcool e pessoas vestidas de branco...
— Agindo como um folgado assim, é sinal de que já está bem mesmo...
— E sobre o pessoal da nossa sala? — De repente o semblante de Ren se tornou mais sério.
— Ah é mesmo, sobre isso... Tem alguém aqui querendo falar com você, espera aí.
Ren começou a se sentir um pouco ansioso ao saber disso. Logo, Alex voltou acompanhado da representante de classe, Yuri Tachibana.
— Com licença... — Disse a garota de óculos e cabelos trançados, se aproximando da cama onde estava o Ren que genuinamente parecia preocupado com ela.
— Ah, Tachibana! Tá... tudo bem com você?
— Sim, sim... Graças ao senhor Alex.
"Só graças a você, né!"
Àquela altura, Alex praticamente já podia saber o que Ren estava pensando, depois do olhar que o garoto lançou para ele ao ouvir a Yuri Tachibana.
— Mas mais importante, eu vim aqui pra saber como você está, Kamishiro...
— Poxa, eu não sabia que você se preocupava tanto comigo, representante! — Disse Ren, exagerando uma reação de timidez, afinal era o momento perfeito para provocar aquela que ele considerava tão chata.
— Não... Não é bem assim! Só estou cumprindo o meu dever como representante da nossa turma...
— Oh sim, claro! Totalmente compreensível... "Sua tsundere..." — Completou Ren, só em sua mente.
— Bom, senhorita Tachibana, acontece que o nosso amigo Ren aqui é muito sensível. Sim sim, tão fraco quanto um filhotinho! Então acho que podíamos pegar mais leve com ele, não acha?
Alex foi rápido em inventar desculpas para evitar quaisquer suspeitas da representante e os demais colegas sobre os segredos de Ren, e de quebra, dar uma leve provocada em seu amigo, que parecia insatisfeito e com um olhar de "vai ter troco...".
— Eu não sabia disso, Kamishiro. Me desculpe pela forma como eu falei. Mas por favor, repense sobre o seu comportamento...
— Acho que é o bastante por hoje — Disse Miharu, que parecia estar esperando o momento certo para falar. — Não bastou a forma como você o tratou na sala de aula mais cedo, você ousa vir aqui na enfermaria perturbá-lo com esse sermão?
— Senhorita Shirayuki, não foi a minha intenção...
A representante foi pega de surpresa pela fala de Miharu. Ela estava realmente arrependida de como agiu com o Ren, mas ficou paralisada ao ser repreendida pela pessoa que admirava tanto, e depois de alguns instantes sendo encarada pelo olhar frio da Miharu, ela decidiu se retirar.
"Eita..."
— Acho melhor você ir também, cara... Depois a gente se fala — Ren se sentiu um pouco incomodado com o clima pesado naquela enfermaria, vendo que Alex e Miharu também pareciam se estranhar.
Liberado depois de uma consulta com a médica do campus, a qual evitava há um bom tempo, Ren ainda tinha mais um compromisso antes do fim do dia.
— Como prometido, senhorita Shi... Miharu! Como prometido, Miharu... — Corrigiu a si mesmo depois do olhar de insatisfação da Garota — Nosso primeiro encontro está prestes a começar! Mas antes... eu gostaria de fazer um pedido. Nós podemos andar de mãos dadas?
— Ora ora, fico feliz que você esteja sendo mais direto comigo, lindinho — Miharu sem demora aceitou o pedido.
Apesar de exausto, ele estava ansioso para passar um tempo com Miharu, e já se sentia mais à vontade com a garota e a respeito de toda a situação. Ren é do tipo de pessoa que gosta de ser recompensada pelo esforço, assim sendo, sempre que se ocupa de qualquer coisa que lhe pareça minimamente inconveniente, como por exemplo comparecer a aula, ele costuma comprar alguma comida que gosta, ou no caso de comer saudável algum dia da semana, dá a si mesmo um dia de folga da escola. Esse sistema que ele inventou em sua cabeça o ajudava mesmo com as tarefas mais básicas do dia a dia de uma pessoa.
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Arcadia no Tenshi
FantasiaRen Kamishiro teve uma vida comum até a noite do seu aniversário de 15 anos, pouco tempo após retornar ao Japão para estudar no colegial. Na noite em questão, um evento sobrenatural o levou a ver um cenário de fim do mundo. Ele deveria ter morrido n...
