4 (parte um)

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Nota da autora: o capítulo foi dividido em 2 apenas porque ficou muito grande. Boa leitura 💖

Parte Um:

Eu acordara há meia hora, mas permaneci inerte na cama, encarando o teto, o corpo perfeitamente esticado, deitada de barriga para cima. Se alguém cruzasse as minhas mãos sobre o peito e fechasse minhas pálpebras, eu poderia perfeitamente me passar por um cadáver.

Ouvi novas vozes surgindo na casa, duas masculinas e uma feminina, quase infantil, e após alguns minutos, alguém bateu na minha porta. A pessoa teve que bater mais cinco vezes até que eu concluísse que não iria embora até falar comigo, fosse lá qual o assunto.

— Sim? — não abri a porta. Sequer levantei da cama, apenas me sentei. — O que você quer?

— Sou o Aiden, o...

— O Senhor do Gelo. Eu sei. Lembro-me da sua voz, pois eu estava congelada, e não surda.

Silêncio. Será que havia ido embora? Tomara.

— Que bom que sua memória não foi afetada — disse ele. — Assim poderá recordar-se de que eu salvei sua vida.

Se ele esperava um agradecimento, não iria encontrá-lo ali.

Ele continuou:

— Vamos almoçar agora, e você irá nos acompanhar.

— Não estou com fome — era verdade.

— Comer irá lhe fazer bem. Ajudará a conter o frio.

Quem estava com frio? Eu estava confortável com aquela temperatura desprovida de aquecedores. E ficaria ainda mais confortável assim que dormisse novamente.

— Era isso? — indaguei. — Você apenas queria me convidar para o almoço?

— Se a palavra "convite" a agrada, então sim, estou convidando-a. Apure.

Apurar? Se ele estava com pressa, o problema não era meu.

— O fato de você estar tão carente por companhia ao ponto de apelar a uma desconhecida para que almoce consigo não me comove nenhum pouco, Senhor do Gelo. Portanto, não irei almoçar.

Demorou uma eternidade até que ele dissesse, a voz beirando a raiva, quase trêmula:

— Se não quer aceitar o convite, então precisará aceitar uma ordem, Sarah. Todos estão com fome e você está atrapalhando — que encorajador. — Almoce conosco; estará livre para fazer o que quiser quando seu estômago estiver cheio.

O que eu quisesse.

— Eu teria rido agora se conseguisse, porque é engraçado ver você, o Senhor do Gelo que tudo sabe sobre seus cavaleiros e seus raios, dizendo para mim, alguém que foi acertada, que eu terei liberdade para fazer o que eu quiser. Cuidado, Senhor do Gelo — mesmo que ele não visse, arregalei os olhos como se estivesse contando uma história de terror para uma criança e quisesse deixá-la o mais tensa possível. —  Imagino que saiba qual é a única coisa que se passa na cabeça de alguém congelado.

Silêncio de novo. Aquele homem sabia governar um território, mas não sabia dar respostas rápidas. Incrível.

— Você irá me acompanhar até a sala de jantar ou precisarei derrubar a porta e carregá-la no colo?

Ele era mais insistente do eu imaginara. Não que eu tivesse imaginado algo a respeito da personalidade do Senhor do Gelo. Até então, a única imagem que eu tinha dele era um feerico cruel e que gostava de congelar pessoas. Fora isso, eu não tinha opinião alguma.

— Estou indo para a sacada agora — corri para ela, ficando tonta por levantar tão rápido, mas não abri a porta-janela. Contudo, o Senhor do Gelo não sabia que ela estava fechada. — Se você arrombar minha porta, vou me jogar. São o que? Dois andares? É uma boa queda.

Ele praguejou três vezes até dizer:
 
— Espero ao menos vê-la no jantar.

Espere sentado.

Voltei para minha cama. Não pretendia sair do quarto para nada, muito menos para jantar com alguém. Deitada ali, eu agradeceria se o lustre do teto caísse na minha cabeça e me esmagasse. Não sabia se era um indício de que o efeito do raio de gelo estava diminuindo — eu sequer sabia se isso era possível — mas, após um tempo, eu havia deixado de sentir nada e passara a sentir tédio, longo e sufocante tédio.
Contudo, ao mesmo tempo em que sentia que poderia explodir de tanto tédio, não tinha vontade ou forças para me levantar da cama. Então, depois de bater a porta na cara do Senhor do Gelo, passei horas e horas deitada, tentando dormir e, surpreendentemente, consegui achar o sono novamente após algumas horas divagando.

A fúria e o geloOnde histórias criam vida. Descubra agora