Capítulo 7

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Na manhã seguinte a aula de latim decorreu no meio de uma excitação tal que o Sr. Professor Rácz deu pela coisa.

Os meninos mexiam-se nas carteiras, prestavam pouca atenção às respostas dos colegas interrogados. Não somente os da rua Paulo, como todos os demais alunos da turma e, por assim dizer, do colégio inteiro, encontravam-se num excepcional estado de espírito. Os grandes preparativos de guerra não haviam passado despercebidos, e até os alunos das turmas mais altas, do sétimo e do oitavo ano, manifestavam vivo interesse. Os camisas-vermelhas frequentavam a Escola Técnica do bairro; era, pois, natural que o colégio torcesse pela vitória dos rapazes da rua Paulo. Alguns faziam dela, até, uma questão de honra coletiva.

– Que têm vocês hoje? – perguntou o Sr. Professor Rácz com impaciência. – Estão se mexendo o tempo todo, estão distraídos, pensando em outras coisas.

Não insistiu muito, porém, em descobrir o motivo do alvoroço. Contentou-se em verificar que a turma tinha um dia inquieto, limitando-se a resmungar:

– É claro: chegou a primavera, começaram os jogos: bolas de gude, pela... ninguém quer saber de escola! Mas eu lhes mostrarei!

Eram só palavras. O Sr. Professor Rácz era um homem de cara severa, mas de coração bom.

– Sente-se! – disse ao rapaz a quem acabara de interrogar.

E pôs-se a folhear o livrinho de notas.

Em tais momentos sempre se fazia na turma um silêncio mortal. Todos continham a respiração, mesmo os bem preparados, e olhavam fixamente para os dedos do professor que viravam vagarosamente as folhas. Os rapazes sabiam até a página em que estava o nome de cada um. Quando os dedos chegavam ao fim do livrinho, aqueles cujo nome começava por A ou B soltavam um suspiro de alívio; quando, de repente, voltavam às primeiras páginas, os de iniciais R, S e T sentiam-se logo mais à vontade.

Ao cabo de um minuto, o professor chamou baixinho:

– Nemecsek.

– Ausente! – respondeu em coro toda a turma.

E uma voz, uma voz bem conhecida na rua Paulo, acrescentou:

– Está doente.

– Que é que tem?

– Resfriou-se.

O Sr. Professor Rácz passeou um olhar pela turma e disse:

– Não sabem ter cuidado.

Os da rua Paulo trocaram um olhar. Eles sabiam como e por que Nemecsek não soubera ter cuidado. Embora espalhados por toda a sala – um na primeira, outro na terceira carteira, outro ainda, Csónakos, temos de confessá-lo, na última – nesse momento se entreolharam todos. Lia-se em todos aqueles rostos que Nemecsek apanhara o resfriado por algum motivo nobre. Em termos exatos, ele se resfriara pela pátria, tendo tomado três banhos, um por acaso, outro por obrigação, o terceiro por questão de honra. Por nada no mundo revelariam esse grande segredo a ninguém, embora todos o soubessem, inclusive a Sociedade do Betume. No seio desta, aliás, iniciara-se uma campanha para riscar o nome de Nemecsek do Livro Negro: apenas, os sócios não sabiam pôr-se de acordo sobre se convinha primeiro emendar as iniciais minúsculas em maiúsculas e riscar o nome depois, ou riscá-lo imediatamente, sem outra formalidade. Como Kolnay, que era ainda presidente, propusesse que o riscassem sem mais nada, naturalmente Barabás formou um partido de oposição para pleitear que se restituísse antes a honra do nome.

Agora, porém, a questão era relegada ao segundo plano. O interesse convergia todo para a luta que ia ser travada naquela tarde. Depois da aula de latim, grupos de alunos de outras turmas vieram procurar Boka, oferecendo-lhe o seu auxílio. Ele, porém, deu a todos a mesma resposta:

Os Meninos da Rua Paulo (1906)Onde histórias criam vida. Descubra agora