Na casinha amarela da rua Rákos o silêncio era profundo. Os inquilinos, que costumavam reunir-se no quintal para tagarelar bem alto, passavam agora na ponta dos pés diante da porta do alfaiate Nemecsek. As criadas levavam para o fundo do quintal as roupas e os tapetes para espanar, e mesmo lá batiam neles com doçura a fim de que o barulho não incomodasse o doente. Se os tapetes fossem capazes de ter sentimentos, ficariam admirados de receber apenas palmadinhas em vez das furiosas pancadas de costume...
Os moradores enfiavam a cabeça pela porta para perguntar:
– Como vai o menino?
Todos recebiam a mesma resposta:
– Mal, muito mal.
As vizinhas traziam uma coisa ou outra.
– Trouxe um vinhozinho bom para a senhora – dizia uma.
– Se não a aborrece, tenho aqui uns doces para o menino – dizia outra.
A senhora franzina, que abria a porta com os olhos em lágrimas, agradecia as gentilezas daqueles bons corações, embora as aproveitasse bem pouco. Chegou a dizer a uma ou outra vizinha:
– Coitadinho, não come nada; neste dois últimos dias tem sido uma luta para fazê-lo tomar um pouquinho de leite.
O alfaiate chegou às três horas. Vinha da loja, onde lhe tinham dado algum serviço. Entrou na cozinha cuidadosamente, para não fazer barulho, e não perguntou nada à mulher. Apenas olhou para ela, e ela para ele. Era o que bastava para os dois se entenderem. Ficaram assim um em frente do outro, e o alfaiate nem se lembrou de colocar numa cadeira o paletó que trouxera.
Depois os dois entraram no quarto, onde o menino estava deitado. O triste capitão da rua Paulo estava bem diferente do alegre soldado raso de outrora. Emagrecera, tinha os cabelos crescidos, o rosto chupado. Mas não estava pálido, e o que havia de grave no seu estado era precisamente a vermelhidão das faces, que não era a cor da saúde, mas a irradiação do fogo que o abrasava por dentro, incessantemente, havia dias.
Pararam junto ao leito. Eram pessoas pobres, simples, tinham passado por muitos males e muitas amarguras: não se queixavam. Apenas permaneciam ali cabisbaixos, a fitar o chão. Depois o alfaiate perguntou baixinho:
– Está dormindo?
A mulher nem teve coragem de falar; respondeu com um aceno de cabeça. O estado do menino era tal que nem se podia saber mais se dormia ou não.
Ouviu-se um modesto bater na porta de fora.
– Talvez seja o médico – cochichou a mulher.
– Vá abrir – disse-lhe o marido.
Ela foi abrir, e viu Boka na soleira. Ao reconhecer o amigo do filho, um sorriso triste alumiou o rosto da senhora.
– Posso entrar? – perguntou o rapaz.
– Entre, meu filho.
Boka entrou.
– Como vai ele?
– Muito mal.
– Muito mal?
Sem esperar confirmação, Boka entrou no quarto seguido da Sra. Nemecsek. E agora eram três a se debruçarem sobre a cama sem nada dizer. Enquanto permaneciam nessa imobilidade, o doente, como se lhes sentisse os olhares e o silêncio, abriu vagarosamente os olhos. Fitou primeiro o pai, depois a mãe, com infinita tristeza. Por fim, ao ver Boka, sorriu e disse-lhe numa voz fraca, mal perceptível:
– Você veio, Boka?
Boka aproximou-se mais da cama:
– Vim.
