Capítulo 5

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Dois dias depois, na quinta-feira, quando a noite descia sobre o Jardim Botânico, as duas sentinelas da pontezinha perfilaram-se à aproximação de uma figura escura.

– Continência! – bradou uma delas.

E as duas ergueram para o céu suas lanças de ponta prateada, em que se refletiu um raio pálido de luar. A continência era feita a Chico Áts, o chefe dos camisas-vermelhas, que atravessou a ponte com muita pressa.

– Todos estão aqui? – perguntou às sentinelas.

– Sim, capitão!

– Geréb também?

– Foi o primeiro a chegar, capitão!

O chefe respondeu com uma continência silenciosa, ao que as sentinelas levantaram novamente as lanças acima da cabeça.

Era a maneira deles de fazer continência.

Na clareirazinha da ilha todos os camisas-vermelhas estavam reunidos. À chegada de Chico Áts, o mais velho dos Pásztor exclamou:

– Continência!

As pontas prateadas das compridas lanças reluziram no ar.

– Temos de agir sem perda de tempo, rapazes – disse Chico Áts, depois de responder à continência –, pois cheguei um pouco atrasado. Vamos trabalhar. Acendam a lâmpada!

Era proibido acender a lâmpada até que o chefe chegasse. A lâmpada acesa significava a presença de Chico Áts na ilha. O mais moço dos Pásztor acendeu a lâmpada, e os camisas-vermelhas acocoraram-se, em círculo, à volta da luz. Ninguém falava, todos esperavam a palavra do chefe.

– Alguma novidade? – perguntou este.

Szebenics deu um passo à frente.

– Que há?

– Comunico-lhe, capitão, que do nosso arsenal desapareceu a bandeira vermelha e verde, que o capitão conquistara aos rapazes da rua Paulo.

O chefe franziu o cenho:

– Das armas não desapareceu nenhuma?

– Nenhuma. Como encarregado do arsenal, logo depois de chegado fui às ruínas contar os tomahawks e as lanças. Não faltava nada, a não ser a bandeirinha. Alguém deve tê-la roubado.

– Você viu rastos no chão?

– Sim, capitão. Como faço cada noite, em obediência aos estatutos espalhei areia fina no interior das ruínas. Ao examiná-la, encontrei uns rastos pequenos, que vão da fenda ao canto onde estava a bandeirinha, e voltam do canto à fenda. Lá eles desaparecem, porque o chão é duro e coberto de ervas.

– Eram pequenos os rastos?

– Sim. Menores que os do Wendauer, que é de todos nós o que tem o pé menor.

Fez-se um grande silêncio.

– Um estranho deve ter penetrado no arsenal – disse o chefe. – E só pode ser alguém da rua Paulo.

Correu um murmúrio entre os meninos.

– Tenho esta impressão – prosseguiu Áts – porque, se fosse outro qualquer, teria levado pelo menos uma das armas. Ele, porém, levou só a bandeira. Os da rua Paulo devem ter encarregado alguém de roubá-la de volta. Você não saberá alguma coisa a esse respeito, Geréb?

Assim, pois, Geréb desempenhava o papel de um espião em regra.

– Não sei nada, capitão.

– Está certo, pode sentar-se. Veremos isto mais tarde. Por enquanto vamos tratar do assunto desta reunião. Lembrem-se da vergonha que sofremos outro dia. Enquanto nós todos estávamos na ilha, os inimigos pregaram um papel vermelho nesta árvore, e nós não os pudemos apanhar, tão hábeis foram eles. Depois corremos no encalço de dois garotos, que nada tinham que ver com o caso, até o bairro dos Funcionários, e somente lá verificamos que eles fugiam de nós sem motivo, enquanto nós corríamos atrás deles igualmente sem motivo. Aquele papel pregado na árvore foi para nós uma verdadeira humilhação, que exige vingança. Vamos ocupar o grund! Só esperamos até agora para Geréb nos fazer um relatório sobre o terreno. Ele vai fazê-lo, para depois escolhermos o dia do início das hostilidades.

Os Meninos da Rua Paulo (1906)Onde histórias criam vida. Descubra agora