Capítulo 6

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No dia seguinte, por volta das duas e meia da tarde, quando os meninos entravam um após outro no grund, viram uma grande folha de papel, pregada no portão, do lado de dentro, com quatro pregos enormes.

Era uma proclamação escrita por Boka – que para isso sacrificara o seu descanso noturno – em letras de forma, a nanquim, salvo as iniciais de cada frase, pintadas em tinta cor de sangue. O texto completo do manifesto era este:

PROCLAMAÇÃO!!!

Alerta!

Nosso território é ameaçado por grande perigo! Se não demonstrarmos coragem, tomar-nos-ão todo o terreno!
O grund está em perigo!
Os camisas-vermelhas querem agredir-nos!
Mas lá estaremos para defender o nosso território, à custa de nossas vidas, se for preciso!
Que cada um cumpra com o seu dever!

O Presidente.

Nesse dia ninguém teve vontade de jogar. A pela ficou sossegada no bolso de Richter, o guarda-pelas. Todos andavam de um lado para outro, discutiam a guerra próxima, voltavam à proclamação fixa no portão, e reliam de dez a vinte vezes as palavras animadoras. Alguns até a haviam decorado, e do alto de uma pilha de lenha recitavam-na em tom marcial para outros que a ouviam e, aliás, a sabiam também de cor e salteado. Nem por isso deixavam de ouvir boquiabertos, para depois voltarem ao portão, relerem o texto e recitarem-no por sua vez, trepados no alto de outra pilha.

Toda a turma estava emocionada com aquela proclamação, a primeira do gênero. O caso devia mesmo estar sério e o perigo bem grande, para que Boka chegasse a promulgar uma proclamação e assiná-la do próprio punho.

Muitos já estavam a par de algumas novidades. Num ou outro grupo ouvia-se o nome de Geréb, sem que se soubesse algo de seguro. O presidente, por vários motivos, preferira manter silêncio sobre o caso Geréb. Entre outros, pretendia colhê-lo em flagrante no próprio grund e levá-lo incontinente a julgamento. Pois nem mesmo Boka podia supor que o pequeno Nemecsek tivesse penetrado por conta própria no Jardim Botânico para ali armar, no meio do exército inimigo, um escândalo tremendo... O presidente só foi informado daquilo pela manhã, depois da aula de latim, quando no porão, onde o porteiro vendia sanduíches, Nemecsek o chamou à parte para contar tudo.

Entretanto, mesmo às duas e meia da tarde reinava ainda no grund uma insegurança geral: todos aguardavam o presidente.

Além da emoção geral havia um motivo de emoção particular. A Sociedade do Betume estava em polvorosa: o betume da sociedade tinha secado, gretara e ficara imprestável, de modo que não era mais possível amolgá-lo. A responsabilidade, sem a menor dúvida, cabia ao presidente em exercício, pois, como todos devem estar lembrados, constituía tarefa dele mastigar o betume de vez em quando. Kolnay, o novo presidente, deixou de cumprir este dever de maneira inqualificável. Não será difícil adivinhar quem reclamou primeiro contra esse estado de coisas. Barabás andava de um sócio para outro e condenava em termos violentos a displicência do presidente. Sua agitação surtiu efeito, pois em cinco minutos obteve que parte dos sócios exigisse a convocação de uma assembleia geral. Kolnay suspeitava-lhe as intenções.

– Está certo – disse –, mas o caso do grund tem agora preferência. Só convoco a assembleia geral para amanhã.

Mas Barabás fez barulho.

– Não admitimos isto! – gritava. – Parece que o Sr. Presidente tem medo.

– De você?

– Não de mim, mas da assembleia geral. Exigimos a convocação imediata.

Kolnay ia responder, quando, junto do portão, ressoou o grito dos rapazes da rua Paulo:

– Olá-ó, olá-ó!

Os Meninos da Rua Paulo (1906)Onde histórias criam vida. Descubra agora